Crítica: 1565 – Enquanto o Brasil Nascia


 

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Durante nossa vida escolar, pelo menos quem estudou em colégios cariocas, aprendemos desde a 1ª série(ainda se denomina assim?) que Estácio de Sá, a mando de seu tio Mem de Sá, fundou a cidade do Rio de Janeiro, depois que expulsou os invasores franceses, liderados por Villegagnon, das águas da Baía de Guanabara no século XVI.

Depois disso há uma enorme lacuna nos livros de história do Brasil sobre o Rio de Janeiro, aonde só voltamos a vê-lo em fins do século XVIII, assim mesmo a reboque do ciclo do ouro de Minas Gerais. A cidade só voltaria mesmo a ter destaque histórico com a vinda da família real ao Brasil.

É justamente nessa lacuna histórica que se debruça “1564 – Enquanto o Brasil Nascia”, escrito pelo jornalista Pedro Doria, nos fatos que acabaram por moldar a cidade que conhecemos hoje. A formação e a expansão do Rio de Janeiro, o desbravamento da região do entorno da Guanabara, a formação e o desenvolvimento da cidade desde seu “2º marco fundatório” no Morro do Castelo, descendo até seu pé, chegando aos distantes engenhos de Realengo, Engenho de Dentro e Engenho Novo, assim como a abertura de caminhos em direção a lugares como a Gávea. A origem e os porquês das nomenclaturas e batismos de bairros e acidentes geográficos estão no centro desta obra em momentos saborosos quando Doria relata como regiões Botafogo ou Flamengo receberam a alcunha que até hoje carregam, assim como, por exemplo, o Morro Cara de Cão, a Penha, Gávea, Copacabana.

A saga da família Sá também é tema principal, família que mandou e desmandou na cidade no seu primeiro século de vida. Desde tio e sobrinho Mem e Estácio, chegando até a geração de Salvador Corrêa de Sá e Benevides, figura nem tão conhecida assim dos atuais cariocas, mas fundamental na vida social e política da cidade em suas primeiras décadas.

Pedro também não deixou de abordar a importância e a influência das várias correntes da Igreja Católica na formação da cidade, os beneditinos, os carmelitas e com maior ênfase, os jesuítas. Assim como a relação, por vezes turbulenta destes com a pequena sociedade carioca, principalmente na questões relativas ao uso da mão-de-obra escrava por parte dos colonos com a população indígena.

Tão grande como a lacuna que possuímos desde os bancos escolares, também não havia grandes bibliografias que satisfizessem quem se interessasse pelo período.  Só recentemente foi editado um belo trabalho, diria que antológico, sobre o Rio de Janeiro desse período, trata-se dos 2 volumes intitulados “Geografia Histórica do Rio de Janeiro”, de Maurício de Almeida Abreu, que inclusive foi uma das fontes dos “1565”. Mas o livro de Maurício de Almeida Abreu tem uma visão e linguagem mais acadêmica e técnica, que acaba por não torna-lo por vezes menos palatável ao grande público, sem contar que seu preço não é muito acessível, eu mesmo paguei quase R$ 300,00 pelos meus exemplares(dos quais não me arrependo).

Já “1565 – Enquanto o Brasil Nascia” não é um livro tão ambicioso e fundamental do ponto-de-vista histórico, mas possui seus méritos. Escrito numa linguagem jornalística, mais palatável para o grande público e não visando a busca do leitor especializado. O Próprio autor reconhece que não existe nenhuma informação em seu trabalho que já não tenha sido publicado antes. Seu mérito está em juntar informações difusas que estavam espalhadas e juntá-las neste livro. É mais um caso, já discutido AQUI no Botequim Cultural, de um jornalista invadindo a seara dos historiadores.

Mas acima de tudo, trata-se de um livro escrito por um autor que ama o Rio de Janeiro e procura repartir esse sentimento com leitores como eu, que costuma andar pela cidade procurando seus vestígios históricos em cada esquina do Centro da Cidade.


Palpites para este texto:

  1. Ótima indicação, vou acompanhar mais de perto o Boletim Cultural

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