1961 – O Golpe Derrotado


 

Cotação: Muito Bom

Através de uma janela no Manekineko do Leblon não deixo de olhar intrigado o outro lado da calçada com a enorme movimentação da Livraria Argumento. É um entra e sai de gente, garçons circulando, equipe de televisão entrando com câmera, tripé, holofotes e tudo mais que tem direito. Entre um sushi e um harumaki comento com Adriana:

– É alguém de prestígio!

Pagamos a conta e atravessamos a rua para matar nossa curiosidade. Pela vitrine já deu para matar de cara, era a noite de autógrafos do Flávio Tavares, que estava lançando seu último livro “1961 – O Golpe Derrotado”, do qual já tinha lido algumas resenhas dias antes nos cadernos de literatura dos principais jornais.

Adriana insistiu que comprasse o livro e entrasse na fila de autógrafos, afinal sabia ela que sou um grande admirador de Flávio Tavares desde que li seu livro “Memórias do Esquecimento”, aonde relata sua prisão durante a ditadura militar. Ela jurou que se eu quisesse até tiraria uma foto minha com o Flávio Tavares. Mas meu temperamento esquivo e blasé(como ela costuma me qualificar) me impediram de realizar tal ato. Embora no meu íntimo tinha vontade de cumprir integralmente sua sugestão. Dei uma rápida circulada no lotado salão da livraria, avistei Flávio ao longe, bebi uma taça de prosecco e fui embora. No dia seguinte voltei para comprar o livro.

Então, vamos ao que interessa de fato: o livro. Flávio narra quase o tempo todo na primeira pessoa, num ritmo de thriller e com aquela verve que lhe é peculiar esse episódio marcante da história brasileira, reconstituindo o movimento militar de 1961 que tentou dar um Golpe de Estado durante os 13 dias entre a renúncia de Jânio Quadros e a posse de João Goulart. Flávio, então entrincheirado no Palácio Piratini, testemunha toda angústia, tensão, devoção, altruísmo e civismo que tomaram de assalto todo um Estado que se levantou para impedir a violação da Constituição Brasileira pelos ministros militares que estavam determinados a impedir a posse de Jango.

Sua memória é o fio condutor, descrevendo a criação da “Cadeia de Rádio da Legalidade” pelo então jovem Governador Leonel Brizola, mobilizando o Rio Grande do Sul e levando a população gaúcha para a rua impedir a vitória da arbitrariedade, se postando como escudo humano se preciso fosse e aos poucos irradiando a resistência à opinião pública brasileira.

Nos capítulos finais faz algumas considerações de cunho pessoal a alguns dos principais protagonistas daquele momento histórico, como Brizola, Jango e Jânio. Sobre a principal peça daquele jogo de xadrez, Jango, classifica como “conciliador”, mas ao longo do livro a descrição de suas atitudes durante o episódio lembram mais a de um “ser vacilante”. Lendo o livro, fico com a convicção que quem melhor o descreveu foi Elio Gaspari no seu livro “A Ditadura Envergonhada”: “ …Sua biografia raquítica fazia dele um dos mais despreparados e primitivos governantes da história nacional. Seus prazeres estavam na trama política e em pernas, de cavalos ou de coristas…Introvertido e tolerante, era um homem sem inimigos. Os ódios que despertou vieram todos da política, nunca da pessoa…”.

Nas páginas finais, quando a decepção e o desânimo tomam conta daqueles homens entrincheirados no Piratini e Jango capitula a humilhante fórmula do Parlamentarismo para que possa tomar posse, apaziguar os ânimos e promover a conciliação com as forças golpistas, Brizola, discordando que uma tentativa de golpe como aquela e sob o comando dos ministros militares, não podia ser apaziguada, profetiza:

– Tem que ser derrotada, pois se não for derrotada, nasce de novo.

Conclui-se daí, que não se trata de um “Golpe Derrotado”, como diz o título, mas de um “Golpe Adiado”.

Há que se lamentar que alguém com a bagagem de vida, com conhecimento político, o brilhantismo e com a eloquência verbal de Flávio Tavares esteja hoje longe da grande mídia. Quão genial comentarista político as emissoras e os principais jornais estão perdendo.


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