2013: Os Melhores na Literatura Nacional


 

Apesar de mais uma vez poucos livros de ficção terem chegado nas listas dos mais vendidos, isso não significa que não tenham sido lançados romances relevantes e importantes, como os novos livros de Bernardo Carvalho, Zuenir Ventura, Daniel Galera, José Luiz Passos e Luís Fernando Veríssimo, escritores diversos tanto em suas gerações como em seus estilos e conteúdos, mas inegavelmente grandes talentos de nossa literatura.

No campos da não ficção, mais uma vez Laurentino Gomes lançou um best  para encerrar sua trilogia sobre a história do Brasil no século XIX, assim como Lira Neto com sua continuação da saga da biografia de Getúlio.

Mas a nota triste do ano ocorreu no campo das biografias, com um grupo de consagrados artistas reunidos numa entidade chamada “Procure Saber” que lutou de maneira anacrônica para restringir ao máximo a produção de um gênero literário tão importante como é a biografia. Felizmente setores dos mais variados da sociedade se levantaram para implodir a tentativa de  censura que tentaram impor.

Reproduzo agora a lista dos livros que escolhi como os mais relevantes do ano.

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Reprodução

O lançamento de um novo romance de Bernardo Carvalho é algo que não pode passar despercebido. Não somente por tratar-se de um dos melhores e fundamentais autores da atual literatura nacional, mas acima de tudo por saber como poucos colocar em discussão temas contemporâneos sem cair no lugar comum e sem precisar abordá-los de maneira política para atingir a relevância com que se apresenta em seus livros. Em “Reprodução”, seu último romance lançado pela Companhia das Letras, é o retrato perfeito e atual do nosso mundo. Aqui Carvalho coloca mais algumas discussões interessantes, entre elas a difusão e a ambiguidade dos discursos nesses tempos de interação on line, aonde todos os absurdos podem ser ditos e difundidos de maneira invisível e sem rostos aparentes, aonde todo mundo tem uma opinião definitiva e contundente sobre qualquer coisa. O mundo apresentado por Carvalho é o retrato de nossos dias aonde o fascismo acontece no lugar do inconcebível.

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Barba Ensopada de Sangue

Um dos livros mais premiados e elogiados do ano foi sem dúvida “Barba Ensopada de Sangue”, o 4º romance do escritor Daniel Galera, lançado pela Companhia das Letras. Dono de um ritmo impecável, alternando com sutileza descrições com ágeis diálogos, o livro resgata temas referentes a trabalhos anteriores do autor, como a construção da identidade. Um livro forte, aonde Galera caminha para sua maturidade artística para atingir o patamar próximo dos grandes autores da literatura brasileira contemporânea.

 

 

 

 

 

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O Sonâmbulo Amador

O Sonâmbulo Amador”, lançado pela Alfaguara, coloca com justiça José Luiz Passos definitivamente em posição de destaque dentro do universo literário brasileiro. Pelo fato de viver há 18 anos no exterior e de pouco circular por aqui, Passos acabava sendo um outsider. Uma pena para nós. Utilizando-se de um tom onírico e por vezes irônico, sobre os feitos pouco memoráveis de um homem marcado pela perda, que apesar de suas crises e incertezas internas, tenta se corrigir para tentar acertar como marido, funcionário e até mesmo com herói. Sem sombra de dúvidas, “O Sonâmbulo Amador” é um livro excepcional, um dos melhores trabalhos lançados em 2013, por um autor que é dono de um estilo sofisticado e com total domínio do ritmo e da técnica literária, sabendo exatamente como e de que maneira quer levar adiante sua trama, atingindo no final uma memorável estética.

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1889

O lançamento de “1889” marca o fim de uma bem sucedida trilogia escrita pelo jornalista Laurentino Gomes sobre o século XIX, iniciada com “1808”, passando por “1822”, até que agora chegamos aos eventos que acabaram dando na Proclamação de República. Laurentino não trás nenhuma revelação que já não seja de conhecimento público e nem procura fazer julgamentos, mas sabe fazer com maior clareza interessantes análises, como por exemplo, a República se impôs mais pela fragilidade da Monarquia do que necessariamente pelo vigor do movimento republicano, ou como Deodoro foi utilizado mais como instrumento de um golpe de estado do que como o líder de um movimento ideológico que visava mudar a forma de governar o país. Assim como alguns fatos curiosos são levantados, quase pitorescos tal como uma mera disputa por uma bela viúva pode ter mudado os rumos da história do país e que Deodoro, ao contrário do que aprendemos nos bancos escolares, em nenhum momento do dia 15 de novembro proclamou a República. As reflexões são fundamentais para compreendermos o que somos nos dias atuais. O caráter e a formação do povo brasileiro tem naqueles dias parte de suas raízes plantadas e para isso, Laurentino Gomes dá sua contribuição para um melhor e mais claro entendimento, num livro extremamente prazeroso de se ler.

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Getúlio 1930 – 1945

Depois de mais de um ano de ansiosa espera, finalmente saiu o 2º volume da longa e hercúlea empreitada que o jornalista Lira Neto se propôs ao se debruçar sobre a vida do mais enigmático e mais controverso de todos os presidentes da história brasileira, Getúlio Vargas. Neste 2º volume, “Getúlio 1930 – 1945, do governo provisório à ditadura do Estado Novo”, lançado pela Companhia das Letras, lança seu foco sobre o período mais estudado e conhecido da vida de Getúlio, começando a partir do êxito do golpe de estado que derrubou Washington Luís(erroneamente conhecido como Revolução de 30), quando o então governador do Rio Grande do Sul assume o governo e se encerra em 1945, quando é enxotado do poder, após 15 anos na presidência. Lira Neto manteve nesse 2º volume a honestidade e a coerência que fez na 1ª parte dessa vasta biografia, deixando claro que seu objetivo não era julgar o biografado, mas acima de tudo compreendê-lo, assim como todo o universo que o cercava.

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As Duas Guerras de Vlado Herzog

Sem dúvida “As Duas Guerras de Vlado Herzog”, editado pela Civilização Brasileira, é um dos livros mais relevantes do ano não só pela sua qualidade, mas principalmente pelo seu conteúdo. Escrito como se fosse uma extensa reportagem, o jornalista Audálio Dantas abriu arquivos, buscou depoimentos e utilizou suas memórias como principal fonte para relatar aqueles dias sombrios entre a prisão e morte do jornalista Vladimir Herzog pela máquina de tortura da Ditadura Militar. Narrando do ponto de vista dos acontecimentos em torno do Sindicado dos Jornalistas de São Paulo, do qual era presidente, relata com riqueza de detalhes todas as angústias, incertezas e posições que teve que tomar naqueles tenebrosos tempos. Com justiça acabou levando o mais importante dos prêmios Jabuti deste amo.

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O Castelo de Papel

O lançamento de um livro de Mary del Priore é algo que sempre chama minha atenção e assim não poderia deixar de ser com seu último trabalho, “O Castelo de Papel”, editado pela Rocco, que tem seu foco na vida e na relação da Princesa Isabel com o Conde D’Eu. “O Castelo de Papel” é um livro é interessante, tem entre suas principais fontes as longas e detalhadas correspondências do Conde D’Eu, assim como a Princesa Isabel. As cartas de D’Eu com seu pai, o Duque de Némours, são bastante esclarecedoras e são documentos valiosíssimos para entendermos com maior precisão a turbulência dos acontecimentos que acabaram por expelir toda a família imperial brasileira da vida nacional. Na vida familiar e conjugal, o casal D’Eu e Isabel, descrita por Mary leva uma vida pacata, que preferia passar seu tempo na calmaria bucólica de Petrópolis ao tumulto a ao jogo político da côrte no Rio de Janeiro, alheios ao que se passa em torno, numa vida ociosa, preocupados com pequenas festas, saraus, viagens para a Europa e a educação dos filhos, apesar de massacrados pela opinião pública da época.

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O Silêncio Contra Muamar Kadafi

Na passagem de 2012 para 2013 um importante trabalho foi lançado pela Companhia das Letras, o livro “O Silêncio Contra Muamar Kadafi”, escrito pelo correspondente do “Estado de São Paulo” em Paris, Andrei Netto, aonde relata detalhes dos últimos momentos de vida do ditador Líbio Muamar Kadafi. Andrei Netto dá ao leitor todas as informações necessárias para o perfeito entendimento do processo Líbio, suas diferenças e similitudes com os eventos da chamada “Primavera Árabe” em países próximos como Tunísia e Egito. Descreve a formação político-histórico-geográfica do Estado Líbio, sua divisão étnica, a maneira como Kadafi chegou ao poder e o método de governo que manteve esse poder durante mais de 40 anos. Analisando o passado e o presente do país, Andrei Netto tenta colocar uma luz no futuro do país pós-revolucionário para que o leitor análise o processo Líbio, em meio aos grupos que hoje disputam o controle de um país que os viveu últimos 42 anos debaixo de uma feroz ditadura e num total isolamento do mundo. Quais os desafios daqui para frente? Como reconstruir um país que precisa renovar sua infraestrutura, seu sistema político e educacional?

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Sagrada Família

Lançado pela editora Objetiva, esse livro foi mais um grande êxito tanto editorial quanto artístico do jornalista Zuenir Ventura. Misturando ficção com memória, aonde cria um ambiente lírico e cativante sobre os amores que resistem ao tempo e a perda da inocência. Mais conhecido por seus trabalhos literários mais ligados ao jornalismo, Zuenir sabe com igual maestria transformar memórias pessoais em um grande livro de ficção, como foi o caso de “Sagrada Família”.

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Diálogos Impossíveis

Luiz Fernando Veríssimo, o mestre da síntese, volta a trazer mais um grande sucesso literário com esse livro de contos “Diálogos Impossíveis”, lançado pela Objetiva. Com seu humor refinado, podemos nos deliciar com sua prosa narrando uma discussão entre Batman e Drácula num asilo, com Robespierre tentando subornar o carrasco ou ainda contemplarmos uma discussão entre Goya e Picasso sobre o sol da Côté d’Azur. Veríssimo escreve como poucos sobre temas como a incomunicabilidade, a impossibilidade, os mal-entendidos, enfim, sobre a vida.

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