A Caça aos Abstêmios


 

“Quem convive comigo de perto sabe que não bebo. Nunca bebi. Não gosto do paladar, o que posso fazer?? Nasci assim. Mas as pessoas não se conformam e dizem: Como vc aguenta sair sem beber nada? Nem vinho? Nem caipesake? Já experimentou a bebida x, y, z…? Toma só um golinho… De um tempo para cá, para tentar acabar com a chatice das pessoas que não se conformam com minha recusa em beber, adotei uma idéia que tem dado muito certo: faço uma cara sofrida e digo simplesmente que PAREI DE BEBER. A pessoa acha que fui alcoólatra, que é por problema de saúde… e nem insiste. Portanto meus amigos: NÃO ME OFEREÇAM BEBIDA ALCOÓLICA PORQUE PAREI DE BEBER”.

Identifiquei-me muito com esse desabafo feito no Facebook pelo meu ex-colega dos tempos de Colégio Andrews, Ricardo Brajterman. Tal como ele nunca senti nenhuma espécie de prazer em bebida alcoolica, mas em inúmeras situações da minha vida me senti impelido a beber, mesmo sem estar com a menor vontade. As pessoas de um modo geral não percebem, mas é um saco você estar num ambiente feliz da vida com um inofensivo copo de refrigerante e fica todo mundo querendo trocar sua bebida. Por que ter alguém a sua volta que não quer beber(mesmo que seja uma única pessoa) incomoda tanto?

A pressão começa na família, simplesmente por ser homem. Recordo-me lá pelos meus 16, 17 anos de meu pai em tom de deboche e sarcasmo dizer que eu já estava na idade de começar a apreciar certas coisas da vida, depois de eu ter recusado uma taça de vinho, um copo de whisky ou mesmo um chopp. “- Toma aqui, experimenta, vê se você gosta?” Eu tomava um gole, aquilo descia queimando pela minha garganta como se fosse ácido e mentia:

– É bom
– Toma uma taça?
– Da próxima vez eu tomo.

Desconversava, achando que na “idade certa” e com a maturidade meu organismo iria saber degustar e apreciar aquela bebida.

Comecei a trabalhar com 18 anos e era disparado o mais novinho. Era visto quase que como uma donzela virgem. Gostava da turma, bons de papo, boas companhias, engraçados e nas sextas-feiras se reuniam no boteco em frente do trabalho após o expediente. Na primeira vez me dirigi ingenuamente ao garçom: “- Uma Coca-Cola, por favor“. Pronto! Foi uma gritaria, como se eu tivesse cometido um sacrilégio, o absurdo dos absurdos. Trocaram meu pedido na marra. Consenti afirmando que iria tomar só um copo. Concordaram. Mas como eu era burro, bastava o líquido ainda estar na metade do meu copo para já ser trocado por uma nova rodada, com uma nitida troca de olhares gaiatos entre os demais membros. “Garçom, mais um chopp aqui pro garoto“!

Com 18 anos não tinha uma personalidade lá muito consolidada. Tomei ali meus primeiros porres…mas felizmente meus últimos também. Creio que no meu último porre eu não tinha nem 19 anos. Aquela sensação de ficar ajoelhado no banheiro, com a boca na privada e com a sensação de que até meu estômago, intestino, pâncreas e fígado estavam saindo pela minha boca era por demais repugnante para me manter naquele estilo de vida. A partir dali passei a ser categórico e se fosse preciso, até grosseiro.

Ao longo desses mais de 20 anos, bebi sim em algumas ocasiões, mas de maneira bastante esporádica e raríssimas vezes cheguei a uma segunda taça. Normalmente em algum evento social ou porque alguém me pedia para acompanhá-la. Nunca o gesto partiu espontaneamente de mim.

Adriana não é de beber muito, alguns drinks daqueles bem coloridos, uma caipirinha ocasional ou um prosecco eventual. Normalmente me acompanha no refrigerante. Quando nos conhecemos ela achava graça que eu tomava Fanta Laranja.

É comum estarmos em um restaurante um pouco mais gabaritado com nossos refrigerantes, como 2 criancinhas e nas mesas ao redor sofisticadas garrafas de vinho ou super drinks. Mas somos felizes assim, que adianta pedirmos uma garrafa de vinho se aquilo não será um prazer para nós.

Fico feliz ao avistar ao longe aquele balão gigante da Lei Seca e ter a consciência que não tenho o que temer. Ao contrário de carros na frente da gente, em que já vi a mulher correndo pela rua para trocar de lugar com o marido no volante do carro. Pois é, até o dia em que tomei uma única e inofensiva taça de prosecco e fui levar minha cunhada ao hotel em que estava hospedada no Rio. Foi a única vez na vida que bebi e peguei o carro. Com quem dou de cara? A Lei Seca. Bateu-me um certo desespero: “Meu Deus! Uma taça de prosecco em mim deve ter o efeito de 8 em uma pessoa normal. Vão me pegar!!!! Injustiça!”. Me pararam(pela primeira vez na vida), abri o vidro do carro e não sei porque cargas d’água, mandaram-me seguir. Nunca respirei tão aliviado.

A insistência é grande, as pessoas não entendem porque você simplesmente não tem prazer em beber. Sento na mesa, gosto de um bate papo num boteco, mas com meu refrigerante do lado. Não importo-me se os outros vão ficar bêbados. Têm algumas pessoas que até ficam engraçadas bêbadas, tem o outro tipo que quando bebe confessa seus segredos mais íntimos(o famoso: “a bebida entra e a verdade sai”, acontece mais com mulher) e lógico, tem o que fica chaaaato. Mas por favor, me deixem tomar minha Fanta Laranja em paz. Ok?


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