A Canção Francesa


 

Ainda recordo meu primeiro contato com a canção francesa. Era um disco de vinil de Edith Piaf na casa de minha avó, tinha aproximadamente 10 anos e minha primeira impressão não foi das melhores. Meu comentário foi: “- Nossa! Quem é essa gralha?”, no que recebi de retorno olhares severos de reprovação.  Errei de pássaro(Piaf em francês é pardal ou passarinho), mas para um típico adolescente aquela maneira de cantar era inteiramente usual para meu parco nível cultural. Mas aos poucos, com o exercício da repetição, passei a assimilar o seu estilo grandiloquente e estridente. Hoje em dia, já com um ouvido mais apurado consigo perceber as camadas, tons e facetas de sua personalidade, sua busca eterna pela felicidade e pelo amor desenfreado, a dor e a angústia existencial de uma mulher que viveu de maneira intensa. Na sua música a visceralidade chega às últimas consequências.

De origem humilde, teve infância, adolescência e juventude bastante conturbadas e conheceu o real significado da palavra “sarjeta”. Viveu a pobreza(quase indigência) e a riqueza, a decadência familiar e a glória artística. Tudo isso fez dela um ser contraditório, na mulher forte e poderosa convivia igualmente a mulher sofrida e carente.

Apoiou a carreira de muitos cantores e compositores então desconhecidos que, cada um a seu tempo, foram seus amantes de ocasião, como Yves Montand, Charles Aznavour, Gilbert Bécaud, Georges Moustaki e Charles Dumont. Pelo leque de nomes é inegável seu olho clínico para perceber o talento a seu redor e todos de alguma maneira lhe retribuíram sua paixão infinita, mas não eterna, com grandes composições que Piaf eternizou como: “Jezebel” e Plus Bleu que tes Yeux”, ambas de Aznavour; “Je t’ai dans la Peau” e “Bravo pour le Clown”, ambas de Bécaud; “Milord”, de Moustaki; e “Non, Je ne Regrette Rien”, de Dumont.

“Non, Je ne Regrette Rien”, por sinal, talvez tenha sido seu maior sucesso em vida e é a canção que melhor sintetiza sua vida: “Não, eu não me Arrependo de Nada”.

Piaf foi meu batismo, o ponto de partida para um longo processo de aprendizado e assimilação que teve continuidade com outra personalidade que conheci pouco depois: Yves Montand.

Creio que foi em 1982 que Montand veio ao Brasil fazer um show no Maracanãzinho. Não fui ao show, me lembro apenas de cenas mostradas no Fantástico que chamaram minha atenção e fiquei interessado naquele simpático senhor que cantava, dançava, fazia sketchs, um grande show-man. Pouco tempo depois assisti uma longa entrevista concedida a Roberto D’Ávila para seu ótimo programa na extinta TV Manchete: “Conexão Internacional”. A partir dessa entrevista passei a me interessar pelo homem além do artista, lendo algumas biografias, ouvindo seus discos e vendo seus filmes.

Centralizei minhas atenções durante muito tempo em Piaf-Montand e conhecia “em passant” Charles Aznavour, mas a princípio o colocava num patamar inferior aos 2. Lógico que associar Charles Aznavour à canção francesa é um exercício de obviedade. Só com o tempo e com o meu amadurecimento pude compreender a grandiosidade de Aznavour. O último dos chansonniers praticamente reinventou a música francesa, compôs mais de 600 canções e vendeu mais de 100 milhões de discos. Suas canções fizeram parte da trilha sonora de gerações, sendo um dos poucos artistas franceses que conseguiram fazer grande sucesso nos 2 lados do Atântico, mas confesso que me causa certo incômodo vê-lo cantar em inglês. Entre seus incontáveis sucessos uma canção sua me emociona em especial, “Hier Encore”, uma das mais belas letras escritas na música francesa.

A partir do tripé clássico pude partir para outros lados e conhecer nomes que passaram a se tornar referências para mim, principalmente Brassens, Moustaki, Barbara e Brel. De quem falarei a seguir. Lógico que minha admiração é mais abrangente e envolve Michel Legrand, Leo Ferré, Yves Duteil, Serge Gainsbourg, Henri Salvador, Maxime Le Forestier, entre outros.

Georges Brassens:

Brassens foi um verdadeiro patrimônio artístico francês do século XX. Na medida que conseguiu criar uma imagem própria e um estilo único, permaneceu afastado do vedetismo sensacionalista, podendo assim escapar das vicissitudes da moda e manter um público fiel, sempre consciente de sua originalidade, de seu anticonformismo às vezes truculento e da qualidade literária de seus textos(tanto que recebeu o Grande Prêmio de Poesia da Academia Francesa). Falecido em 1981, em decorrência de um câncer, Brassens continua até hoje sendo um artista de referência. Um criador generoso e humanista, o homem do célebre bigode, ocupa uma lugar especial na memória de seus admiradores, através de suas melodias simples e de letras fortes, muitas vezes até um pouco brutas(mas nunca sem sensibilidade), que são verdadeiras obras-primas. Brassens foi talvez, um dos mais autênticos trovadores do século passado.

Georges Moustaki:

Meu primeiro contato com Moustaki foi através de sua música “Alexandrie”, música que fala com muita sensibilidade da sensação de nostalgia e da sensação de ser um estrangeiro. A partir daí veio meu interesse em conhecer mais sobre seu trabalho. Me impressionou seu interesse e o respeito pela música brasileira, da qual adaptou para o francês vários clássicos, entre esses o que mais me impressiona é sua versão para “Águas de Março”, onde conseguiu o que parecia impossível, ser inteiramente fiel a letra de Tom, um música que como poucas capta a essência do Brasil.

Uma boa definição de Moustaki vem de Francis Hime: “é um músico simples, de grande intuição, que toca piano, violão, conhece música e a utiliza para emoldurar suas grandes letras, É um trovador”.  Ainda hoje mantém, como na sua canção “Le Meteque”, os cabelos aos quatro ventos e o hábito de judeu errante. Apesar de morar na linda île Sant-Louis não passa um mês sem viajar e tocar num canto diferente. O autor de tantas lindas canções como “Milord”, “Sarah”, “Joseph”, La Dame Brune”, é um cidadão do mundo que conseguiu fazer amigos e admiradores nos 4 cantos do planeta e levou por onde passou sua revolução permanente.

Barbara:

Barbara foi paixão à primeira vista(ou à primeira ouvida). Fiquei em estado de choque na primeira vez que a ouvi cantar, a música era “Marienbad”. Possui estilo singular tanto para cantar como de compor, com letras de rara força poética e melodias sofisticadíssimas. Perdoem-me se a metáfora é pobre e batida, mas quando ouço sua voz, a imagem que me vem à mente é a de um cristal. Um álbum de Barbara é daqueles que se tem que ouvir da primeira a última música, nada é gratuito, tudo tem uma razão de ser; nada é simples, tudo é sofisticado.  Destaco “L’Aigle Noir”, “Gottingen”, “La Dame Brune”, “Mês Hommes”, “Ma Plus Belle Histoire d’Amour”. Morreu em 1997 aos 67 anos. Desde 1973 Barbara só saia de sua casa de Précy para cantar, se tornando uma ermitã e em 1994 suspendeu todas suas atuações e concertos.

Jacques Brel:

Cantor, compositor, ator e diretor de cinema belga, foi na minha opinião, uma das personalidades mais marcantes do mundo artístico europeu no século 20 e que ganhou fama internacional com a música “Ne me Quitte Pas”, um hino para todos os amantes e um símbolo da dor-de-cotovelo. Música que na época causou certa polêmica, pois teria sido uma das primeiras em que colocava o homem numa posição frágil, se humilhando dizendo “não me abandone” com tanto desespero que na parte final da letra ele chega até a dizer:

Je me cacherai là/A te regarder/Danser et sourire/Et à t’écouter/Chanter et puis rire/Laisse-moi devenir/L’ombre de ton ombre/L’ombre de ta main/L’ombre de ton chien/Ne me quitte pas/Ne me quitte pas,

Ou seja: “fico aqui no meu cantinho só vendo você dançar, sorrir…” Nesses versos ele mostra que sabe que ela vai seguir sua vida, vai ser feliz de novo, mas ele quer apenas ficar ali perto dela, observando-a, mesmo que ela esteja feliz com outro. Já totalmente humilhado e entregue ele diz nos últimos versos: “serei tua sombra, a sombra do teu cachorro”. Canta isso de maneira visceral, angustiada, desesperada. Mais do que cantar, ele interpreta esse sofrimento como um ator. Brel rompe com o estereótipo antigo de que a canção poética é sutil demais para chegar ao grande público. Suas canções de alta voltagem poética alcançaram assombrosa receptividade e fizeram sua fama, com letras líricas e muito bem elaboradas. Brel se utiliza de melodias envolventes, explosivas e contagiantes que arrebatam logo nos primeiros versos.

A presença de Brel é tão marcante que acaba sendo um problema para suas músicas, pois não consigo achar graça em ouvir suas músicas na voz de outro cantor, por melhor que seja esse cantor, pois sempre fico lembrando de como Brel a cantava.

Entre Deux:

Vale a pena citar um nome surgido na década de 80, Patrick Bruel, não necessariamente por sua carreira de estrela da música francesa contemporânea, mas queria falar mais especificamente de um álbum lançado por ele há alguns anos atrás que considero antológico: “Entre Deux”. Nesse trabalho Bruel gravou canções de um período que, excetuando as populares canções de Charles Trenet, não é muito conhecido fora da fronteira francesa, do período entre-guerras(anos 20, 30 e 40). Com arranjos fiéis à época, conheci canções lindíssimas como “Mon Amant de Saint-Jean”, “Menilmontant”, “Si Vous Connaissiez ma Poule”, “Qu’est-ce qu’on Attend pour Être Heureux”, “Le Premier Rendez-Vous”, entre outras tantas. De um período em que a canção francesa tinha uma personalidade própria, algo que se perdeu em tempos mais recentes.


Palpites para este texto:

  1. Botequim Musical, um verdadeiro manjar gourmet da canção francesa, suscetível de ser ampliado, pois muitas iguarias poderão ser servidas. finalmente várias sobremesas igualmente deliciosas. Obrigado, merci, LM

  2. Eu agradeço por comentários tão gentis, que só reforçam o desejo de continuar com esse tipo de postagem. Muito obrigado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

julho 2017
D S T Q Q S S
« jun    
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031