A Carne e o Sangue


 

Cotação: Bom

O novo livro de Mary del Priore não trás nenhuma novidade relevante e nem fontes inéditas em relação ao mais rumoroso triângulo amoroso da história do Brasil, envolvendo o Imperador D. Pedro I, sua esposa a Imperatriz Leopoldina e sua amante a Marquesa de Santos. Mas isso não faz do livro menos meritório, porque apesar das informações contidas no livro não serem novidade, poucos trabalhos procuraram jogar seu foco especificamente e de maneira profunda nessa relação. A destacar que recentemente foi lançado o livro de Paulo Rezzutti, “Titília e Demonão: Cartas Inéditas de D Pedro I à Marquesa de Santos”, aonde o autor reproduz as cartas do Imperador à sua amante que se imaginavam desaparecidas e foram reencontradas recentemente num arquivo nos Estados Unidos. Esse trabalho de Rezzutti foi uma das fontes bibliográficas de Mary, que reproduziu parte desse material.
Uma das virtudes do trabalho é a desconstrução da figura da Imperatriz Leopoldina. Se apoiando na enorme correspondência enviada a seu pai, o Imperador da Áustria, sua irmã Maria Luiza e a escritora Maria Graham, traça o perfil de uma imperatriz conservadora, absolutista a quem a palavra “independência” causava temor, chegando inclusive a discordar ideologicamente de D. Pedro. Segundo Mary demonstra, só teria cedido à causa da independência no momento em que percebe que a coroa dos filhos estaria em risco. Quanto a sua intimidade da Imperatriz, o trabalho revela uma Leopoldina que tinha consciência plena das suas obrigações de reprodutivas, em que o sexo era algo diretamente relacionado à manutenção da dinastia, em nove anos de casamento teve nove filhos. Pouco se relacionava com membros da corte, era completamente infeliz no Brasil, desejava ansiosamente retornar a viver na Europa. Leopoldina se torna melancólica e com o passar do tempo, vítima de profunda depressão causada principalmente, pela escalada social e afetiva de sua rival no coração do Império e de D Pedro.
Domitila era o oposto. Alegre, zombeteira, ardente e sensual. Ambiciosa, tencionava tornar-se a nova Imperatriz, após a morte de Leopoldina. Fez de sua casa um grande “escritório de negócios”, vendendo favores e títulos. A Marquesa de Santos era para D Pedro a libertação das obrigações e dos deveres, o turbilhão com quem viveu a mais intensa de suas paixões. Uma personalidade já retratada em diversas obras, sem que se encontre nenhuma grande dicotomia ou novidade em sua personalidade.

Entre esses dois vértices opostos e antagônicos flutua a figura de um Imperador contraditório e ambíguo, dividido entre os seus deveres com a linhagem e com o Estado de um lado e de outro um bon-vivant de vida mundana que não abria mão do sexo e do vício. Dois vértices, duas mulheres: a carne(Domitila) e o sangue(Leopoldina), a sua maneira, cada uma acabou por influir nos principais fatos políticos no nascedouro do Brasil nação.

O talento literário de Mary del Priore é indiscutível. Evita o linguajar empolado e transforma a junção de suas fontes bibliográficas numa leitura agradável para o público fora dos círculos acadêmicos, transformando “A Carne e o Sangue” em um livro encantador. Não é uma obra magistral como seu livro “O Príncipe Maldito”, mas ainda assim altamente recomendável.


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