A Comissão da Verdade nas Livrarias e na Imprensa


 

Como consequência do início dos trabalhos da Comissão da Verdade, que procura apurar crimes cometidos durante a ditadura militar e tenta encontrar respostas para o desaparecimento de opositores do regime, começam a pipocar para todos os lados fatos novos, aonde militantes de ambos os lados dessa guerra começam a narrar experiências vividas e testemunhadas. É confissão para todos os lados, só faltando agora o delegado Fleury baixar em alguma sessão espírita para também dar sua contribuição.

Ironias à parte, chegaram recentemente às livrarias 2 trabalhos escritos por jornalistas com confissões e relatos de 2 nomes intimamente ligados à maquina da repressão. “Mata! – O Major Curió e as Guerrilhas no Araguaia”, escrito pelo jornalista Leonencio Nossa e lançado pela Companhia das Letras e “Memórias de uma Guerra Suja”, de Marcelo Netto e Rogério Medeiros, publicado pela Topbooks. Estou nesse exato momento lendo os 2 livros simultaneamente. Seus protagonistas: Major Curió, figura central no extermínio da guerrilha rural na região do Araguaia e Cláudio Guerra responsável pelo aniquilamento da esquerda nos centros urbanos país. Ambos abrem seus arquivos, vasculham suas lembranças e tecem comentários sobre a maneira como mataram ou torturaram presos políticos. O trabalho dos jornalistas é tentar elucidar uma série de mortes e desaparecimentos de inúmeras vítimas da ditadura. Os “depoentes” esclarecem as circunstâncias da morte e desaparecimento de várias vítimas que até o momento permaneciam insepultas para seus familiares.

Em relação ao livro “Memórias de uma Guerra Suja”, Cláudio Guerra relata ainda suas visitas à casa da Morte em Petrópolis, sua atuação durante o processo de redemocratização do país juntamente com militares descontentes com o processo de redemocratização do país e explica como foram eliminados 2 importantes membros do sistema: Mariel Mariscol e Sérgio Paranhos Fleury. Sobre a morte de Fleury, tem a dizer:

“O delegado Fleury tinha de morrer. Foi uma decisão unânime da nossa comunidade, em São Paulo, numa votação feita em lugar público, o restaurante Baby Beef…

…Fleury estava na praia, na região de Ilhabela, para passar um feriado prolongado. Depois de ser dopado, deu-se início à operação de descarte de mais um colaborador. Não sei qual substância usaram para dopá-lo, mas sei que foi colocada na bebida com a droga. Depois Fleury ainda levou, de um homem de sua confiança, uma pedrada na parte de trás da cabeça.

Toda a polícia de investigação foi até lá. Montou-se um teatro em que seus companheiros marcaram presença; tudo isso para justificar como acidental a morte do delegado…”


Caso Rubens Paiva – Globo News

Na televisão, a matéria que mais causou impacto foi uma reportagem de Miriam Leitão na Globo News sobre o caso Rubens Paiva. Relata Miriam:

“Os militares que capturaram Rubens Paiva, em 20 de janeiro de 1971, diante da família, queriam saber a identidade de Adriano, deputado cassado pela ditadura, Rubens Paiva, mesmo sob tortura, não contou quem ele era nem que iria à sua casa naquele dia. Hoje, Adriano, elo perdido do caso Rubens Paiva, está sentado na cadeira de vice-prefeito e secretário de Meio Ambiente do Rio Seu nome é Carlos Alberto Vieira Muniz”.

Outra revelação importante dessa matéria é sobre a prova física da presença de Rubens Paiva nas dependências da Polícia Política no Andaraí, fato sempre negado pelas autoridades militares. É mostrado um recibo com carimbo do Exército, que foi entregue a irmã de Rubens Paiva quando essa foi buscar o carro do Deputado dentro das dependências da Polícia Política. Se Rubens Paiva nunca esteve naquele local então porque seu carro estava? O recibo é a prova cabal que desmonta a história oficial contada por décadas.

Um jornalista que tem sido atuante buscando novas frentes nesse tema espinhoso é Geneton Moraes Neto. No último fim de semana na Globo News, trouxe um depoimento importante do então comandante militar da ALN, organização que combatia a ditadura através da luta armada, Carlos Eugênio Paz, o Clemente. Questionado se teria participado da execução de um companheiro da luta armada, o militante Márcio Leite de Toledo, Clemente relata:

“…Participei, sim, da ação. Um comando de quatro companheiros participou. Não fui sozinho. Os outros três estão mortos. Era decisão da organização…”

Quebrou assim um voto de silêncio que deveria durar por toda a vida. Os “justiçamentos”, como se chamavam as execuções de companheiros(normalmente por suspeita de traição ou defecção) é um tema tabu para a esquerda brasileira e para quem combatia a ditadura militar. Alega Clemente que quer dar o exemplo nesses tempos de Comissão da Verdade:

“se um ex-guerrilheiro confessa participação num ato ‘nada glorioso’, militares envolvidos em atos violentos deveriam, também, relatar o que ocorreu nos porões”…

A casa da morte, em Petrópolis

A Casa da Morte de Petrópolis, aonde podem ter sido executados 22 presos políticos, também ganhou nos últimos dias as páginas de alguns importantes órgãos de comunicação. No Globo, numa matéria assinada por Chico Otávio, Juliana Dal Piva e Marcelo Remígio, o tenente-coronel reformado Paulo Malhães, o “Doutor Pablo” quebrou o silêncio sobre o que ocorria dentro desse imóvel que veio a receber esse nome macabro. Daquela casa, todos os prisioneiros que ali entraram saíram mortos, com uma única exceção, Inês Etienne Romeu, única pessoa que até então havia dado algum testemunho sobre o que ocorria ali dentro, Mais recentemente, como já citei acima, o ex-delegado Cláudio Guerra, através do livro “Memórias de uma Guerra Suja” também deu seu testemunho. Entre os inúmeros fatos chocantes a respeito dessa casa, revelou-se até a presença de jacarés e cobras, utilizados como instrumento de tortura e pressão psicológica.

Por fim, no último domingo no Globo , o jornalista Thiago Herdy, revelou o nome e a foto do homem que torturou a então militante Dilma Rousseff em 1970, o capitão Benoni Arruda Albernaz. A matéria relata detalhes da tortura sofrida pela futura presidente do Brasil, o modus operandi do capitão Albernaz e seu fim de vida melancólico, condenado por aplicar golpes e por falsidade ideológica. Aonde a Comissão da Verdade vai desaguar é cedo para dizer.

Pelo menos a imprensa já está fazendo a parte dela.


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