Crítica: A Filha do Pai


 

 

Marcando a estreia do ator Daniel Auteuil  na direção “A Filha do Pai” é uma nova versão do filme “La Fille du Puisatier”, de Marcelo Pagnol, uma produção de 1940. A tradução do título para o português é péssima, mas se tratando de Pagnol é normal, afinal a peculiaridade do seu universo não é algo facilmente traduzível, a tradução literal seria “A Filha do Poceiro”, mas às vezes esse tipo de tradução fiel acaba por não ajudar a encontrar o espírito de sua obra, mas “A Filha do Pai” tampouco contribui.

Pagnol foi um genial Artista(com “A” maiúsculo mesmo) francês,  escritor, cineasta, historiador, ensaísta, tradutor e membro da Academia francesa. Possui obra singular e única, retratando como ninguém conseguiu(talvez só Giono) o regionalismo típico da sua Provence,  seja em  imagens, seja nas páginas de seus livros. Todo o ambiente pitoresco, as colinas, o aroma da lavanda, o sotaque meridional dos seus “nativos”, o tipo matreiro e desconfiado. Mas Daniel Auteuil não é um turista acidental no universo humanista de Pagnol, sabe do que está falando. Coube a Auteuil protagonizar duas exitosas adaptações cinematográficas da obra de Pagnol na década de 80, aonde interpretou Ugolin em  “Jean de Florette” e “A Vingança de Manon”, ambas dirigidas por Claude Berri. Isso para não lembrar que Auteuil cresceu na Provence(embora seja natural da Argélia).

Patricia(Astrid Bergès-Frisbey),  a mais velha das 5 filhas de uma família pobre, cuida das 4 irmãs mais novas e do pai, o poceiro Pascal Amoretti(Daniel Auteuil), um homem  honrado, trabalhador, mas rude, tudo isso às vésperas da 2ª Guerra Mundial. Sua vida pacata vai sofrer uma grande transformação quando se apaixona por Jacques(Nicolas Duvauchelle), piloto da aeronáutica, filho de um bem sucedido comerciante da pequena cidade em que vivem. Jacques é convocado às pressas para o front de batalha, sem tempo para despedir-se de Patricia e sem saber de sua gravidez. Tal situação, em meio a um ambiente conservador é um problema insolúvel para os padrões de moral de Amoretti, que acaba repelindo a própria filha, assim como os pais de Jacques, que também renegam tanto Patrícia quanto seu filho.

O filme conta com delicadas e eficientes atuações. O destaque é Kad Mérad, que interpreta Felipe, papel que na versão original foi interpretado por ninguém menos que o grande Fernandel. Um tipo tão ingênuo e generoso que acaba por jogar Patricia nos braços do outro pretendente, Jacques. Conta ainda com a presença luxuosa dos excepcionais Jean-Pierre Darroussin e Sabine Azéma. A “heroína” do romance, Astrid Bergès-Firsbey tem atuação discreta, mas correta. A reticência que faço é ao desempenho de Nicolas Duvauchelle, que considero inferior ao resto do elenco.

Quanto a Daniel Auteuil, é para mim o maior ator do cinema francês dos últimos 20 anos. Não tem tanta notoriedade no exterior quanto seu (ex) compatriota Gérard Depardieu, que nos últimos anos tem vivido só do nome e de atuações no piloto-automático. Auteuil, ao contrário, tem feito grandes filmes e tido ótimas atuações. Em “A Filha do Pai” novamente acerta no tom, seja na graça involuntária do seu personagem, seja nas cenas mais densas. Sendo que aqui não tem um diretor para lhe dar um caminho, uma referência, já que ele faz a auto direção no filme, o que não deve ser lá muito fácil.

Tecnicamente é muito bem feito, com uma trilha sonora muito bem escolhida e composta. Assim como a fotografia, o que convenhamos, não e difícil na Provence. Ali basta apontar a câmera que a natureza da região mesmo cuida de se enquadrar. Há em certos momentos algum problema de ritmo, na narrativa e talvez o roteiro carece um pouco menos de didatismo.

Porém “A Filha do Pai” é um filme agradável e que nos dá a oportunidade apreciar as luz, os matizes, a beleza e os tipos humanos de um dos lugares mais bonitos do planeta, que no passado inspirou os impressionistas, Pagnol e Giono a dar para a humanidade alguns dos maiores trabalhos artísticos dos últimos 150 anos.


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