Crítica: A Hora Mais Escura


 

Há um debate estéril, que beira o ridículo em relação “A Hora Mais Escura”, de Kathryn Bigelow, filme que retrata todo o longo caminho de investigação e a preparação da ação que acabaram por encontrar e eliminar o maior fantasma do incosciente norte- americano, Osama Bin Laden. O filme iniciou a corrida para o Oscar com um relativo favoritismo, mas ao longo do percurso perdeu fôlego diante das polêmicas em relação a acusações feitas de defender a tortura nos interrogatórios e ainda sofreu pressões do Senado americano para que abrisse as fontes utilizadas pelo roteirista Mark Boal.

A serviço de quem está uma representação da tortura que se apresenta como neutra?” Questionou o polêmico filósofo esloveno Slavoj  Zizek. Ao que Bigelow respondeu através do Los Angeles Times que “representação não é aprovação, elogio”.

Ninguém precisa ser um moralista, ou ingênuo sobre as urgências da luta contra ataques terroristas, para pensar que torturar um ser humano é, em si mesmo, algo tão destruidor que representá-lo de maneira neutra, isto é por si uma maneira de apoiá-lo…Sem sombra de dúvida, Kathryn Bigelow está aliada à normalização da tortura”, prosseguiu Zizek em sua ofensiva contra o  filme,

O incrível é darem peso para essas declarações de Zizek, mas são apenas exemplo, talvez o mais eloquente, dos ataques sofridos pelo filme. Debate, ao meu ver absolutamente inconsistente e inócuo. O filme de Bigelow realmente mostra a tortura como um eficaz meio de informação e é explicitada a contrariedade contra a mudança de rumos nessa política da tortura sistematizada a partir da subida de Barack Obama à presidência da República. Se “A Hora Mais Escura” brilha no seu todo pelo realismo impresso, tais representações estão sim contidas nesse contexto.

Há sim uma neutralidade, o filme mostra, mas não condena e nem glorifica. Nem haveria obrigação de fazê-lo, o que só ajuda a aumentar a sua potência, sem lições de moral e sem o irritante panfletarismo que inunda as boas intenções de muitos cineastas politicamente corretos.

A Hora Mais Escura” é um filme amoral sim.  Por vezes cínico, assim como também é um filme forte, instigante  e de muita relevância.

Conta com um roteiro forte, apoiado numa montagem extremamente ágil, que mesmo que saibamos o que vai acontecer no fim, deixa nossa respiração ofegante em muitos momentos.

A direção de Bigelow é correta, seu posicionamento de “voyer”, sem interferir ou julgar as ações só ajudam.

Conta com a interpretação brilhante de Jessica Chastain, vivendo a agente do FBI obcecada por descobrir o paradeiro de Bin Laden, batendo de frente com superiores pelas suas convicções. Chastain talvez seja a atriz mais talentosa de sua geração e é uma das favoritas a levar o Oscar de Melhor Atriz, embora deva perdê-lo para Jeniffer Lawrence, mas caso ganhe.

Em relação à polêmica aqui descrita, Chastain tem sua visão: Não creio que Kathryn quis fazer um filme político. Ela quis mostrar todos os fatos que levaram à morte de Bin Laden. Isso inclui o lado feio. Muita gente não se orgulha dessas sessões de tortura e seria fácil não incluí-las, mas não seria verdade“.

Pode ganhar o Oscar de montagem e roteiro, mas não seria nenhum absurdo ganhar o de Melhor Filme. Absurdo vai ser quando anunciarem a vitória de um filme tão medíocre quanto “Argo”, que deveria lamber as botas de “A Hora Mais Escura”, esse sim um grande filme de espionagem e investigação, sem apelação, patriotismo barato e clichês.


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