A Paz Encontrada com Dick Farney e Lúcio Alves


 


Ainda recordo-me com precisão da primeira vez que ouvi Dick Farney, uns 20 anos atrás. Era um fim de tarde, o sol começava a se pôr e estava sentado na sala, admirando o mar de Copacabana pela janela do apartamento de minha avó, acompanhado de um copo de licor de menta. O sentimento que me vinha naquele momento pode ser resumido na palavra “paz”. Era daquela maneira que me sentia ouvindo aquela voz aveludada cantando “Copacabana”.

A partir desse momento quis conhecer mais daquele cantor, Farnésio Dutra, o carioca Dick Farney que com sua doce e límpida voz acabaram por exercer sobre mim um enorme fascínio. Acabei comprando uma fita cassete(sim, sou do tempo da fita K-7!!!) de um show ao vivo de Dick numa casa noturna de São Paulo, fita essa que ainda possuo, apesar de pouco escutá-la nos últimos tempos, até mesmo por falta de equipamento adequado para tocá-la.

Era um pouco exótico um adolescente de 16 anos se interessar por Dick Farney e seu estilo musical, óbvio que se eu confessasse no colégio minha admiração por ele, qualquer coleguinha faria uma cara de bovino e perguntaria: Dick o que? Mas o fato é que comecei a estudar um pouco de sua obra e vida e um dos aspectos mais curiosos que descobri foi uma suposta rivalidade entre ele em Lúcio Alves, aliás, a rivalidade era na verdade entre seus respectivos fãs-clubes(aliás, “fan club”, para respeitar a grafia usada à época): O Sinatra- Farney contra o Dick Haymes-Lúcio Alves. Lógico que com 40 anos de atraso acabei tomando partido e aderindo(pelo menos espiritualmente) ao Sinatra-Farney.

No livro “Chega de Saudade”, aonde Ruy Castro narra a história e as histórias da Bossa Nova, é relatado um episódio que mostrava bem o clima de rivalidade entre os “fans clubs”:

“…A provocação era total. Como alguém poderia preferir Dick Haymes, um reles carbono vocal de Bing Crosby, a Sinatra? E desde quando Lúcio Alves poderia ser comparado a Dick Farney, a ponto de merecer um fã-clube? Curiosamente, não ocorria aos membros do Sinatra-Farney que Farney, como cantor, devia tudo, ou quase tudo a Crosby, não a Sinatra – e que, se havia alguém de fato original entre os dois brasileiros, era Lúcio Alves. O que os ligava era o tipo de repertório e o fato de ambos terem, como se dizia, ‘voz de travesseiro’”.

Ruy Castro volta a ilustrar a rivalidade com outro episódio:

“…um de seus associados mais queridos era também membro do Dick Haymes- Lúcio Alves. Houve um alvoroço em busca da serpente no orquidário. E quem era o traidor? João Donato. Donato não apenas era fã de Lúcio Alves como cantos, o que já seria heresia suficiente, mas ainda o admirava como arranjador de conjuntos vocais, que eram a coqueluche da época. A perfídia de Donato se revelou quando ele foi ouvido assoviando distraído – em plenos domínios do Sinatra-Farney – o fabuloso arranjo vocal de Lúcio para ‘Eu quero Samba’ gravado pelos Namorados da Lua. Era o cúmulo. ‘Calabar! Judas Iscariotes!’, gritaram vários, querendo submeter Donato sumariamente à prancha. Joça, Didi e Teresa o encostaram a um canto para a corte marcial. Quando Donato admitiu que havia ido ‘ uma ou duas vezes’ ao Haymes-Lúcio, as moças lhe deram um ultimato: ‘ –Você escolhe. Ou fica conosco e nunca mais põe os pés naquele antro, ou vai de vez’, sentenciou Joça. ‘Está bem, vou ficar com vocês’, balbuciou Donato. Elas o perdoaram e ele, com as mãos enfiadas nos bolsos das calças curtas, foi rir baixinho num canto. E naturalmente, continuou freqüentando o Haymes-Lúcio às escondidas…”.


Na verdade, minha preferência por Farney em relação a Lúcio se deveu a minha ignorância em relação a Lúcio Alves, ignorância que se manteve até uns 13 anos atrás, quando me foi emprestado um velho vinil(sim, também sou do tempo do vinil!!) de Lúcio Alves. Com o ar meio blasé coloquei o bolachão na vitrola e foi aí que comecei a me dar conta também da genialidade de Lúcio Alves. Um dos aspectos que mais me encantou em Lúcio foi uma melancolia que senti na sua voz, talvez esteja falando bobagem, porque não sei se alguém percebeu a existência de tal melancolia ou se foi apenas fruto de uma percepção pessoal. Mas é fato que descobri acima de tudo um gênio, uma personalidade marcante e uma grande sofisticação na sua interpretação. Pouco pude curtir esse mineiro de Cataguases em vida, pois poucos meses depois de sua descoberta por mim, ele veio a falecer.

Hoje posso dizer que se tivesse vivido minha juventude lá pelos idos de 49, 50, ficaria numa posição bastante complicada, semelhante a de João Donato. Mas assumiria com prazer meu posto em cima do muro, não saberia afirmar quem admiro mais, Dick e Lúcio fazem parte dos meus momentos de felicidade interior e seria incapaz de apontar uma suposta superioridade de um sobre o outro.

Reconheço que os fãs de Farney tinham suas razões para alegar sua superioridade em relação a Lúcio, afinal, num curto espaço de tempo, Dick gravou músicas que acabaram virando clássicos, como “Uma Loura”, “Nick Bar”, “Alguém Como Tu”, “Sem esse Céu”, e “Ranchinho de Palha”. Mas os fãs de Lúcio também tinham lá suas razões para não se darem por vencidos, pois nesse mesmo período ele lançou “Sábado em Copacabana”, “Manias”, “Valsa de uma Cidade” e “Na Paz do Senhor” e para completar o quadro, o próprio Dick não escondia que era seu fã. Sem contar que os fãs de Dick não se conformavam com o fato de Lúcio ter sido o primeiro a cantar “Copacabana”, no programa “Um Milhão de Melodias” da Rádio Nacional, antes de Dick estourar com a canção.

O que torna essa rivalidade ainda mais curiosa, para não dizer ridícula, é que Lúcio e Dick, na verdade, nutriam uma forte e profunda amizade entre si, se cruzavam pelas noites cariocas e até freqüentavam um a casa do outro. Dick teve então, a feliz idéia de gravarem um dueto, assim convocaram Billy Blanco para escrever uma letra para eles e então surgiu uma pérola da canção brasileira: “Teresa da Praia”. Observando o aspecto estritamente musical, não considero “Teresa da Praia” uma canção merecedora de se tornar tão importante, mas para sua própria sorte, ela foi feita sob medida para esse encontro histórico, aonde em dueto, Dick e Lúcio disputavam a cobiçada Teresa, com seu “nariz levantado, olhinhos puxados, cabelos castanhos e uma pinta do lado”. Essa Teresa que passou o verão todinho com Dick e no inverno se esquentou com Lúcio.
“Teresa da Praia” foi um dos maiores sucessos de 1954, em que elegantemente, ambos dosaram suas técnicas vocais para não sobrepor o outro e não dando motivos para mais intrigas. A partir daquele momento, ambos atingiam o ápice de suas respectivas popularidades.


Tornaram clássico quase tudo que gravaram e foram fonte de confessadas inspirações dos músicos que viriam a formar o movimento da Bossa Nova. Chegaram mesmo a participar da Bossa Nova, mas por ironia do destino, acabaram sendo atropelados pela revolução que esse movimento causou na nossa música. Na passagem da década de 60 para 70, aonde os compositores-intérpretes e os cantores de voz pequena ganharam destaque em cima dos palcos, ambos viram seu mercado encolher drasticamente. Mas jamais se prostituíram, nunca fizeram concessões a estilos que não acreditaram e mantiveram suas dignidades até o fim. Acabaram pagando por isso: morreram tristes, abandonados pelas gravadoras, afastados do público e no caso específico de Lúcio, com dificuldades financeiras. Dick morreu em São Paulo em 1987, aos 66 anos e Lúcio no Rio, em 1993, igualmente aos 66 anos.


Palpites para este texto:

  1. jamil baptista -

    DICK FARNEY e LUCIO ALVES, foram dos grandes interpretes das musica romântica das décadas de 1950 e 1960.Eu era muito jovem,mas vivi essa
    época e pude perceber ao longo do tempo que Dick Farney estava mais /
    próximo a Dick Haymes do que a Frank Sinatra, isto é, bem poderia ser
    Dick Farney/Haymes.o jeito mais romântico de cantar a voz mais melodiosa
    como a de Haymes. Éra apenas uma opinião pessoal e que mantenho até hoje.

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