“A Vida de Pi” e Pequenas Considerações Sobre Plágio


 

Não vi “As Aventuras de Pi” e nem pretendo ver. Dizem que é um ótimo filme. Acredito. Ang Lee não faz nada que não seja bom. Mais do que isso, torço para que perca a tudo que está indicado nessa temporada das premiações de Hollywood.  Assumo minha antipatia pelo filme em virtude da polêmica sobre o possível plágio do livro do qual foi adaptado,”A Vida de Pi“, de autoria do escritor canadense Yann Martel, ao livro “Max e os Felinos” de Moacyr Scliar. Se é plágio ou não é uma discussão técnica e acadêmica, o maior problema foi como ocorreu o imbroglio.

No livro de Scliar, um menino judeu, fugindo da Alemanha nazista, sobrevive a um naufrágio e se vê num bote acompanhado de um jaguar. Já no livro de Martel, o protagonista, um menino indiano também sofre um naufrágio e sobrevive num barco acompanhado de um tigre. Quando o caso ganhou repercussão mundial, Martel afirmou não ter lido o livro de Scliar,teria descoberto a história através de uma resenha assinada por John Updike e ainda comentou: “uma grande ideia tratada por um escritor menor”. Para piorar, John Updike veio a público afirmar que jamais resenhou o livro de Scliar.

O caso ocorreu no auge da crise diplomática entre Brasil e Canadá agravada pela guerra Embraer X Bombardier. A grande mídia canadense afirmava que tal polêmica tratava-se apenas de mais um capítulo na guerra Brasil X Canadá, ou seja, um golpe baixo vindo do Brasil. Em meio à histeria que se produziu na mídia letrada canadense, Scliar escreveu um artigo extremamente lúcido na imprensa canadense aonde expunha com muita propriedade que não era uma guerra ou um revide à questão diplomata-comercial, mas se tratava de uma discussão técnica. Para evitar um processo de plágio, Martel acabou por reconhecer publicamente a influência de “Max e os Felinos” e numa nova reedição do seu livro fez um agradecimento a Scliarpor uma faisca de vida”. Scliar resolveu não seguir o caminho dos tribunais, apesar de ter sido altamente insuflado a fazê-lo e deu o caso por encerrado.

Abaixo, posto este video do youtube com Scliar comentando o assunto:

 

A discussão sobre o plágio na arte é uma discussão interessante e por vezes polêmica. O que é plágio? Aonde termina a influência na obra alheia e aonde ela passa a ser plágio?  Na música essa definição é um pouco mais objetiva, o plágio é caracterizado pela cópia de uma quantidade superior a 8 compassos idênticos de uma outra música, mas mesmo ali há divergências jurídicas, porque o tamanho dos compassos varia de acordo com o padrão rítmico e com o andamento da música plagiada. Um caso relativamente recente que me vem à mente foi o ocorrido com a música “Feelings”, um dos maiores sucessos mundiais dos anos 70 e composta pelo brasileiro Morris Albert. As primeiras notas dessa canção seriam iguais a “Por Toi”, do francês Loulou Gasté e o compositor brasileiro terminou condenado a indenizar o francês em 3 milhões de dólares.

Já na literatura e no cinema a discussão é mais complexa e necessita de um aprofundamento maior.

Ainda no século XIX, os 2  maiores escritores da língua portuguesa, Machado de Assis e Eça de Queirós tiveram seu “arranca rabo” sobre  plágio. Em abril de 1878 Machado escreveu dois artigos para a revista O Cruzeiro, aonde com sua peculiar elegância na forma, porém violento no conteúdo, afirmou que “O Crime do Padre Amaro” seria um plágio de “O Crime do Padre Mouret“, de Émile Zola e “O Primo Basílio” uma cópia mal feita de “Eugénie Grandet“, de Honoré de Balzac. Esse assunto já tratamos AQUI
Um outro caso famoso foi “Rebecca, a Mulher Inesquecível”, um suposto plágio de “A Sucessora”, livro de Carolina Nabuco publicado em 1934. Quando Hitchcock adaptou “Rebecca”, o livro de Daphne du Maurier para o cinema, advogados da United Artists procuraram Nabuco para que assinasse documentos aonde afirmaria que as semelhanças entre ambos os livros seriam mera coincidência, com direito ao recebimento de uma boa remuneração financeira. Carolina se recusou a assinar e muito menos receber qualquer valor para afirmar tal coisa. Carolina teria traduzido o livro para o inglês com a esperança de publicá-lo nos Estados Unidos e seu agente era o mesmo de Du Maurier. Não levou o caso aos tribunais e Du Maurier sempre negou ter feito plágio.

Recentemente o caso que ganhou maior repercussão foi no livro “La Carte et le Territoire”, do polêmico escritor francês Michel Houellebecq, aonde a partir de um texto do site Slate.fr, houve a afirmação de que o livro continha trechos transcritos da Winkipedia, sem os devidos créditos em pelo menos 3 passagens. Plágio ou não, Houellebecq acabou por ganhar o prêmio Goucourt, o mais importante da literatura francesa.

No cinema, a questão de plágio também é tema de discussões e muitas vezes sem chegarmos a uma conclusão definitiva. Recordo-me agora de 2 casos: “Cães de Aluguel” e “A Rosa Púrpura do Cairo”.

No caso do filme de Quentin Tarantino houve a acusação de ter copiado descaradamente “City on Fire”, de Ringo Lam, um filme de Hong Kong, inclusive na célebre cena final do qual Tarantino recebeu loas e glórias pelo seu “brilhantismo”. Tarantino afirmou que sua influência teria sido “O Grande Golpe”, de Kubrick. Assisti os 2 filmes, de Tarantino e de Lam, Não vi plágio, vi sim inspiração. A famosa cena final, aonde todos se apontam as armas, são de fato parecidas, mas há diferenças. Há influência, não plágio. Esse foi o pecado de Tarantino, não admiti-lo.

No caso de “A Rosa Púrpura do Cairo”, o “genial” filme de Woody Allen, a acusação foi de plágio sobre um filme esquecido e obscuro de Buster Keaton, “Sherlock Jr”. Não vi o filme de Keaton, mas o crime de Woody Allen foi ter sido traído pela vaidade. Levou paras as telas uma ideia “originalíssima”, aclamada no mundo inteiro. Quando desencavaram o filme de Keaton é que Allen veio a público reconhecer a inspiração, até então estava quietinho.

O assunto é tão polêmico quanto fascinante, mas o que é definitivo nesse tema é que eu não verei “As Aventuras de Pi”. Mas lógico que Ang Lee não vai deixar de dormir por causa do meu boicote.

 

UPDATE 16/02/2013 10:50

Quero colocar o link de uma interessante crônica escrita pelo Luiz Schwarcz, editor de Moacyr Scliar, para o Blog da Companhia das Letras no dia 14 de fevereiro de 2013 contando alguns detalhes do auge da polêmica envolvendo “Max e os Felinos” e “A Vida de Pi“:

http://www.blogdacompanhia.com.br/2013/02/scliar-e-o-felino/


Palpites para este texto:

  1. Ainda não li “Max e os felinos” mas pretendo fazê-lo em breve para analisar melhor a questão, mas gostaria de incluir uma outra “referência” do Yann Martel.

    Acabo de ler “A narrativa de Arthur Gordon Pym” de Edgar Allan Poe e qual não é a minha surpresa quando descubro um personagem que fica a deriva no mar com o personagem principal e mais dois homens e propõe a eles que um sirva, com sua morte, de alimento aos outros. Até aí ok, canibalismo não é um tema exclusivo de um só autor, mas qual o nome desse personagem? Richard Parker! O mesmo nome do tigre em “A vida de Pi”!

    Não sei como essa referência não veio a baila quando da discussão acima, talvez esse único romance do Poe não seja tão lido, mas a referência é gritante demais!

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