Crítica: Amor


 

 
 

Sobem os letreiros, preto com letras brancas, a seco, não há uma terna canção ou mesmo uma trilha. É mudo mesmo. A plateia hesita em levantar, aos poucos o faz com gestos lentos, discretos, respeitosos. Impactada. Absorta. Ainda sob o efeito de uma forte descarga emocional. Descendo a escada não ouço um murmúrio, um cochicho, um pio sequer. Tudo em volta é um silêncio ensurdecedor.

A experiência emocional daquelas 2h e 10m causa por “Amor” foi arrebatadora. Não recordo-me de ver reação de uma plateia como a que presenciei após a sessão desse último filme de Michael Haneke.

O filme chegou no circuito nacional já consagrado. Ganhou a Palma de Ouro em Cannes, o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e recebeu 5 indicações ao Oscar(entre elas melhor filme, diretor, filme estrangeiro e atriz). Mas o filme está muito acima de ganhar ou perder uma dessas estatuetas que ajudam inflar o ego de cineastas por vezes medíocres, que deveriam ter vergonha de se intitular “cineastas” depois de verem esse filme. “Amor” é cinema como muito raramente podemos ver.

Sensações de mal estar é comum nos filmes de Haneke, seja o desprezo, a fobia, o sadomasoquismo, a intolerância, aspectos que já foram abordados por esse diretor austríaco. Por mais paradoxal que possa parecer para quem leu o primeiro parágrafo, é da sensação homônima ao título que trata “Amor”, mas no seu grau mais elevado, mais sublime e ao mesmo tempo dilacerante e exasperador. Amar é dor, é sofrimento, é compaixão.

Em “Amor”, idoso casal Georges(Jean-Louis Trintignant) e Anne(Emmanuelle Riva) vive rotina pacata num típico apartamento parisiense. A partir de um problema de saúde de Anne, a rotina do casal vai se modificar porque ela entra num processo acelerado de degradação física e mental. Georges se recusa a deixa-la numa casa de repouso, apesar da insistência da filha do casal, Eva(Isabelle Huppert), que mora em Londres. Georges se dedica de corpo e alma aos cuidados e ao bem estar de Anne, enquanto ela vai piorando progressivamente e se entregando ao que parece ser inevitável. Tal dedicação de Georges tem seu preço, levando-o a fadiga física e emocional.

O filme se passa todo dentro do apartamento do casal(excetuando por uma pequena cena no teatro do Champs-Elysée). Haneke cria uma atmosfera sombria e desagradável, não deixando em nenhum momento o espectador em zona de conforto e não fazendo nenhuma concessão. A iluminação das cenas é sempre baixa, dando um aspecto lúgubre ao ambiente em volta. As interpretações de Trintignant(meu ator favorito) e Riva são excepcionais, por vezes chegam a ser desconcertantes, há tanta verdade, tanta força naqueles 2 personagens no seu limite. Haneke não se preocupa em mostrar tudo ou se explicar, prefere os não ditos, os vácuos de tempo. Trabalha com precisão o silêncio, o espaço vazio e não se preocupa com a ocupação permanente da tela com alguma ação. Seu tempo é real. Não há excesso de cortes, planos e contra plano. Sua única concessão é dar tempo ao espectador, para que ele observe, medite, pense, sinta.

Que dor maior pode haver em ver alguém que se ama profundamente ir embora, aos poucos, lentamente. Que dor maior por haver em acompanhar a decadência física, mental e consequentemente moral, morrendo um pouco a cada dia. Uma dor cotidiana, profunda, que dói na alma de quem vai ficar. Um filme que cala quem já viveu essa situação, um ente querido se transformando num fantasma vivo. Quem já o viveu sabe o tamanho da exaustão e da exasperação a que se chega. O limite do corpo e da alma, por vezes cede espaço para a irritação e a impaciência. Logo depois vem o remorso. Há sempre a presença de alguém de fora(por mais próximo que seja) que não vive aquele cotidiano e tem sempre opiniões, teses e sutis críticas a fazer(nesse caso, o personagem da filha do casal, vivida por Isabelle Huppert). Toda essa gama de sentimentos e situações Haneke imprimiu com a mais absoluta precisão e realidade.

Amor”, o maior dos sentimentos, é cinema na sua mais alta grandeza.


Palpites para este texto:

  1. É o filme mais poeticamente doloroso.Dilacerante.Lindo!

  2. Sim, Leandra. Concordo. É lindo, poético, mas cala fundo na alma de quem o vê. Não me recordo de ter visto um filme tão belo nos últimos 2 ou 3 anos.

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