Crítica: Argo


 

Tinha nove anos, mas me lembro de maneira nítida a turba enlouquecida pelas de ruas Teerã gritando palavras de ódio aos americanos e dando vivas ao Aiatolá Khomeini, enquanto mantinha vários reféns norte-americanos na sua própria embaixada. Lembro-me das imagens granuladas do Jornal Nacional em um tempo em que as matérias eram em película. Lembro-me ainda do enviado especial, um Roberto Feith jovial e de longas madeixas, em meio ao turbilhão da Revolução Islâmica, bem antes dele optar pela calmaria reflexiva do ramo editorial como estilo de vida. Embora uma criança de 9 anos como eu não pudesse ser um expert em política internacional, as imagens produzidas daquele momento histórico me hipnotizavam em frente da TV, a ponto de nunca tê-las esquecidas(até já escrevi sobre elas aqui  no Botequim). Entre as grandes consequências para o mundo ocidental daquele episódio foi a perda da reeleição por parte de Jimmy Carter, um das maiores reservas morais que já assumiram aquela cadeira na Casa-Branca.

É justamente sobre esse período e episódio que trata o filme “Argo”, uma história real dirigida e protagonizada por Ben Affleck. Em decorrência do asilo político concedido ao antigo soberano do Irã(e grande aliado norte-americano no xadrez geopolítico do Oriente Médio), o Xá Reza Pahlevi, os protestos nas ruas de Teerã se intensificam e radicalizam a ponto da população, devidamente incentivada pelo novo governo, invadirem a representação diplomática americana. Seis diplomatas conseguem escapar instantes antes da invasão e conseguem se esconder na casa do embaixador canadense. Lá vivem por meses em segredo absoluto, enquanto a CIA planeja uma estratégia para resgatá-los. Entre as péssimas ideias apresentadas para tal ação, a “menos pior” é a apresentada pelo agente Tony Mendez(Ben Affleck), que sugere que a produção de um filme fictício seja usado como fachada para a empreitada. As filmagens em locações exóticas no Irã da ficção científica “Argo” seria o argumento utilizado para a entrada do agente no país, sendo que os diplomatas teriam que se passar por técnicos de cinema canadenses, sem que jamais na vida tenham sequer visto uma câmera cinematográfica.

Ben Affleck se utiliza com muito êxito de uma estética típica de filmes produzidos nos anos 70, que ajudam ao expectador a mergulhar no clima e na aventura que propõem. Assim como conta com uma excelente reconstituição de época, desde a atmosfera(direção de arte, figurinos), passando pelo visual típico dos atores. Affleck tem uma boa direção de atores, incluindo sua interpretação, assim como de Alan Arkin(muito bom) e dos diplomatas resgatados.

Enquanto Affleck trabalha no drama o filme funciona muito bem, sendo bastante envolvente e instigante. Mas americano, por mais fiel que tente ser sobre a história contada, não consegue se segurar. Não adianta, o sentimento é mais forte que eles e acaba sendo-lhes impossível se conter para não usar e abusar de todo o repertório de clichês possíveis e imaginários dos filmes de suspense em sua parte final, a ponto de ficar totalmente previsível seu desenlace e consequentemente acaba por perder toda da credibilidade conquistada até aquele momento, que vinha sendo muito bem contada.  Chega a ser ridículo, por exemplo, todo o aparato da polícia iraniana e os carros invadindo a pista do aeroporto para impedir a decolagem do avião, quando bastaria um mero telefonema para a torre de comando para fechar e interditar a pista.

O filme é muito bom enquanto fica no terreno do drama, mas quando vira suspense resvala feio no inverossímil, a ponto de duvidarmos se realmente se trata de uma história real.


Palpites para este texto:

  1. Recomenda-se, mas poucos realmente entendem. Só vi ela em http://www.hbomax.tv/movies foi a minha segunda vez e eu devo admitir que eu gostava e entendido de forma diferente, porque, sinceramente, eu perdi o interesse que eu tinha quando eu primeira ocasião. Eu convido você a dar uma olhada (para quem ainda não viu) e julgar por si mesmos o que eles chamam a isto uma obra-prima.

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