As Ilusões Armadas – O Sacerdote e o Feiticeiro


 

Levei 2 anos para ler a série completa, afinal são 4 tijolos com umas 500 páginas cada. Li o primeiro, só um ano depois comprei o segundo volume, dei mais um tempo mudando um pouco o assunto de minhas leituras e só então comprei numa tacada só o terceiro e o quarto.

“A Ditadura Envergonhada” vai do golpe de 1964 até a edição do Ato Institucional nº 5, a “A Ditadura Escancarada” começa do AI 5 e termina no extermínio da Guerrilha do Araguaia em 1973. Os dois últimos, “A Ditadura Derrotada” e a “A Ditadura Encurralada” focam nas vidas de Geisel e Golbery, o retorno de ambos ao Planalto, os 4 primeiros anos do governo Geisel e terminando em outubro de 1977 no momento em que o general Sylvio Frota foi dormir, depois de ter visto um filme de James Bond, sem saber que Geisel o acordaria chamando-o ao Planalto para demiti-lo.

O grande diferencial da “saga” escrita pelo jornalista Elio Gaspari, ao contrário de quase a unanimidade dos livros que retrataram os anos de chumbo é que consegue fazê-lo por dentro do sistema, sob a ótica de quem estava no poder, como pensavam, porque faziam, quais os seus objetivos. Descreve com detalhes o funcionamento, a estrutura, a hierarquia e a mentalidade das forças Armadas e do sistema operante do período. Para isso teve como interlocutores duas centrais, figuras de todo o período: Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva, o “Sacerdote” e o “Feiticeiro”. Seria impossível realizá-lo sem que Golbery entregasse a Gaspari seu arquivo e sem as demoradas conversas com Geisel a partir de 1979, que chegou a gravar depoimentos pessoais ao jornalista a partir de 1994.

Golbery e Geisel sempre estiveram no olho do furacão, já conspiravam antes do golpe de 1964 do qual foram 2 dos principais artífices. Durante a ditadura só ficaram na “geladeira” durante o governo Costa e Silva. Geisel era Chefe da Casa Militar quando Jânio renunciou e foi um dos líderes do movimento que tentou impedir a posse de João Goulart de 1961. Pós 64 foi também chefe da casa militar de Castello Branco, presidente da Petrobras no governo Médici, até o seu apogeu quando foi catapultado à presidência da República. Golbery sempre foi o intelectual das principais rebeliões militares desde os tempos de Getúlio Vargas, quando redigiu o manifesto que defenestrou Jango do Ministério do Trabalho de Vargas. Mentor intelectual da tentativa de impedir Jango de assumir o governo e novamente estava envolvido com a “gloriosa” de 1964, sempre atuando nas sombras. Foi o criador e primeiro presidente do SNI e Chefe do Gabinete Civil do governo Geisel.

A série é o mais completo e profundo painel da Ditadura Militar, um livro fundamental para as gerações futuras que se interessarem a lançar um olhar sobre esses anos. Descreve com riqueza de detalhes as últimas horas da presidência de João Goulart, a noite em que o exército “dormiu janguista” e “acordou revolucionário”, o endurecimento do regime, a resistência, a criação das guerrilhas, a caçada que foram submetidas, sua extinção e as torturas que foram impostas a militantes e simpatizantes da resistência.

Um de seus maiores êxitos é trazer à luz toda a dificuldade para desmontar toda essa máquina assassina que atuava nos porões do regime. Gaspari mostra como a partir de certo momento os ventos mudaram, os valores eram outros e mesmo aliados de outrora como os Estados Unidos já não pensavam do mesmo jeito na era Carter. As organizações internacionais passam então a pressionar o governo e até a Igreja sai de cima do muro, mas a resistência agora está no seio do poder. A “tigrada” resiste e sabota, utilizando violência e truculência sem limites contra as tentativas de ingerência nos seus poderes de “vida e morte” contra quem consideravam inimigos da pátria, tendo como seu ápice os episódios da bomba do Riocentro e da bomba na sede da OAB, deixando a cada dia o governo brasileiro em situação constrangedora diante de uma nova ordem internacional.

Gostaria que a série tivesse ido um pouco além, adentrando o Governo Figueiredo, período que considero crucial para compreendermos o processo de redemocratização do país. Mas é compreensível, pois tanto o “sacerdote” quanto o “feiticeiro” já não eram mais atores principais, já estavam de pijama. O próprio Gaspari confirma na introdução do 1º volume seu desinteresse pelo período: “Como não tenho interesse pelo governo do General Figueiredo sua administração ficará no esquecimento que pediu”.


Palpites para este texto:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

setembro 2017
D S T Q Q S S
« ago    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930