As Produções de Vanessa Dantas: “O Barbeiro de Ervilha” e “Cinderela, uma Opereta Brasileira”


 

9 - O BARBEIRO DE ERVILHA - FOTO RENATO MANGOLIN

O Barbeiro de Ervilha – Foto: Renato Mangolin

Por Renato Mello

Comecei a frequentar teatro infantil meramente na função de pai. Já havia o Botequim Cultural em minha vida, mas assim como a maioria das pessoas não tinha a menor ideia de todo um mundo que habitava por trás de suas cortinas com toda uma engrenagem já estabelecida através de produtores, atores e técnicos que dedicavam parte considerável de seu tempo profissional para criar uma forma de arte que requer atributos muito particulares, seja maneira de se pensar um espetáculo, no seu modo de produção ou o tipo de público que vai absorvê-lo.

Fui gradativamente mergulhando nesse mundo e começando a realizar um processo de tentar entender “quem é quem” e “quem faz o que”, na mesma intensidade que abria espaços aqui para analisar e compreender como esse trabalho é realizado, buscando ver os objetivos, desejos, problemas e frustrações, através de análises de peças, entrevistas ou reflexões, que publiquei ao longo desses 2 último anos.

Algumas descobertas para mim foram transformadoras, ultrapassando mesmo limitações de “teatro infantil”, mas falando da arte de um modo mais amplo. Lembro-me com detalhes da sensação de grande felicidade assim que assisti pela primeira vez um espetáculo de Vanessa Dantas.

Parado em frente ao Jockey naquele engarrafamento tão comum da Rua Bartolomeu Mitre, minha filha apontou um cartaz: “O Elixir do Amor”. – “Pai! Essa peça ainda não vimos!”

Fomos então ao Teatro do Jockey na mesma semana.

elixir

O Elixir do Amor – Foto Dalton Valério

A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi contactar Vanessa Dantas, que produzia e atuava no espetáculo. Via Facebook mesmo e ela não tinha a menor ideia de quem era aquele “maluco do inbox” que queria saber tudo sobre o trabalho dela. Mas assim mesmo abriu-me generosamente todo o seu histórico de teatro infantil e de sua produtora, a Marcatto Produções, enquanto eu me lamentava não ter assistido seus trabalhos anteriores “A Borralheira” e “O Barbeiro de Ervilha”. Eis um dilema do teatro e sua idiossincrasia com o tempo, negando a quem não presenciou no tempo real a possibilidade de guardá-lo no seu inconsciente, restando apenas a possibilidade de fantasiá-lo. Talvez eu nunca poderia ver “A Borralheira” e “O Barbeiro de Ervilha”.

À época abri meu texto comentando“ quem teve a chance de assistir a montagem de “O Elixir do Amor”, em cartaz no Teatro Municipal do Jockey presenciou um dos mais arrebatadores espetáculos infantis dos últimos tempos.”. Conclui escrevendo que “Poucas sensações são tão boas quanto sair de um teatro com o sentimento de ter visto um trabalho de enorme respeito pelo público infantil e de uma grande qualidade artística.

Meses depois fui presenteado por Vanessa Dantas com o DVD do espetáculo, que até hoje assisto de tempos em tempos com um grande prazer.

Numa entrevista que me foi concedida um ano atrás, Vanessa comentou sobre seu trabalho:

Avaliando meus últimos três espetáculos, eu os considero trabalhos de introdução à ópera. Eles misturam o clássico com o nosso popular. As ambientações europeias originais são transpostas para ambientações brasileiras. As músicas, fiéis aos temas melódicos das óperas, associam os arranjos das mais conhecidas árias, duetos, conjuntos e coros com os ritmos encantadores da nossa cultura popular. O barbeiro de Ervilha (Adaptação de Il Barbiere di Siviglia, de Gioacchino Rossini) foi transposto para o Nordeste, A Borralheira, uma opereta brasileira (Adaptação de La Cenerentola, também de Rossini) foi transposta para Minas e O Elixir do Amor (Adaptação de L’Elisir d’Amore, de Gaetano Donizetti) foi transposto para o pampa gaúcho. Meu intuito com esse trabalho de pesquisa, onde o clássico e o popular se misturam na cena, foi de trazer para o público infantil uma familiaridade inicial com as obras operísticas. Até agora só tive gratíssimas experiências tanto nas estreias no Rio de Janeiro quanto nas circulações em outras cidades. As crianças pedem para voltar e ver de novo o espetáculo. Muitas eu já conheço pelo nome. Os pais vem conversar conosco emocionados e muitos já disseram que a partir do espetáculo assistido irão incentivar mais as crianças às óperas.

Finalmente nesse último mês tive a oportunidade de preencher essa lacuna e consegui assistir “A Borralheira” e “O Barbeiro de Ervilha”, o primeiro com direção assinada por Fabianna Mello e Souza e o segundo por Daniel Herz, permitindo-me estabelecer de modo mais seguro os parâmetros para analisar o universo criativo desenvolvido por Vanessa Dantas.

1 - O BARBEIRO DE ERVILHA - RENATO MANGOLIN

O Barbeiro de Ervilha – Foto Renato Mangolin

O Barbeiro de Ervilha

Apresentado no Teatro Maria Clara Machado, “O Barbeiro de Ervilha” traz uma deliciosa adaptação das peripécias de Fígaro, o personagem criado por Beaumarchais e transformado em ópera por Rossini, remetendo-nos a referências próximas de um João Grilo pela sua peculiar articulação e capacidade de manipulação na ambientação da cultura popular nordestina.

6 - O BARBEIRO DE ERVILHA - FOTO RENATO MANGOLIN

Foto: Renato Mangolin

Leandro Castilho dá vida a esse personagem pela segunda vez esse ano após sua memorável atuação no espetáculo “As Bodas de Fígaro”, igualmente dirigido por Herz. Grande ator que é, Leandro Castilho, ressalta as sutilezas do mesmo personagem nos diferentes contextos de cada espetáculo, além do aspecto óbvio que aqui trata-se de um infantil e em “Bodas” teatro adulto. O Fígaro de “Bodas” é mais maduro e contestador de privilégios da nobreza em comparação pela sua composição de um tipo mais juvenil do “Barbeiro”.

O Barbeiro de Sevilha” é por excelência uma ópera-bufa e a dramaturgia original de Vanessa Dantas, juntamente com própria adaptação de músicas e letras assinadas pelo próprio Leandro Castilho exploram essa característica, transpondo à perfeição o humor e os códigos específicos para a cultura popular nordestina.

Há que se destacar a capacidade de compor um elenco de qualidade raramente encontrada mesmo num espetáculo adulto, com atores que em boa parte já tinha tido a oportunidade de assistir em outras relevantes produções neste ano: Leandro Castilho, Leonardo Miranda, Vanessa Dantas, Tiago Herz, Pedro Maia, Carol Garcia, Pedro Gracindo, Ana Bello e Francisco Salgado. Mais que atores, artistas de grande capacidade nas mais diversas características, seja no canto ou na execução instrumental. Há uma constante harmonia e beleza na movimentação e o modo como compõem um painel de tipos e personagens bem delineados e interpretados com muita vitalidade.

Daniel Herz, faz da simbiose do elenco com os elementos cênicos a matéria prima na construção de um universo encantador. Absorve toda a qualidade dramatúrgica desenvolvida por Vanessa Dantas e as adaptações de Leandro Castilho na música para conceber a partir de “O Barbeiro de Ervilha” um espetáculo bonito esteticamente, ritmado e de nível artístico elevado.

O tamanho dessa produção é menor que “O Elixir” ou “A Borralheira”, mas assim mesmo tem um componente técnico que o coloca num patamar de produção superior ao que se faz usualmente no teatro infantil. A cenografia de Glauco Bernardi tem uma capacidade de modificar a ambientação com as necessidades dramatúrgicas, desde a abertura do teto que se transforma num balcão, numa cena que me remetia um pouco a “Cyrano”, até a transformação cenográfica que faz saltar ao cenário um altar. A construção, além da praticidade, interage com o espetáculo no decorrer de toda a encenação. Nas laterais ficam dispostos os instrumentos musicais e as indumentárias necessárias para as transformações físicas de cada personagem, através de baús, manequins.

Apesar de adaptado de um grande clássico, é uma obra teatral híbrida e autoral, em que é possível enxergar perfeitamente por trás de sua forma harmônica as assinaturas de Daniel Herz, Vanessa Dantas e Leandro Castilho.

4 - A Borralheira Foto Dalton Valerio

A Borralheira – Foto: Dalton Valerio

A Borralheira, uma Opereta Brasileira

O espetáculo foi apresentado no teatro Carlos Gomes, um palco com a estrutura perfeita para o tamanho dessa produção.

Dirigido por Fabianna Mello e Souza, “Borralheira, uma Opereta Brasileira” tem uma construção cênica bem diferente de “O Barbeiro de Ervilha” e mesmo de “O Elixir do Amor”, mas não deixa de ser igualmente um espetáculo de grande beleza.

Nos cenários, adereços e figurinos há uma pesquisa muito bem realizada, com inspirações da Europa do século XVIII , porém sem deixarmos de notar referências ao estilo barroco, realizando uma junção muito bem pensada para a composição estética do espetáculo.

1 - Borralheira - Foto Dalton Valerio

Foto: Dalton Valerio

No elenco Julia Gorman, Vanessa Dantas, Anna Bello, Marcelo Sader, Wladimir Pinheiro, Leonado Miranda e Zé Rescala, além da composição de um coro de mais 6 atores, que juntos dão uma dimensão de grandiosidade artística ao espetáculo. As atuações são muito bem conduzidas por Fabianna, mas o grande destaque fica por conta do trio Julia Gorman, Vanessa Dantas e Ana Bello, formando o núcleo da Borralheira e suas “irmãs”, que quando juntas em cena despertam um enorme magnetismo pela força das suas presenças cênicas, o adorável jogo realizado pelas atrizes e com caracterizações fascinantes. Julia Gorman, que esse ano já havia visto numa ótima atuação em “A História de Elvis”, tem igualmente em “Borralheira” uma atuação de altíssimo nível técnico, demonstrando sua(já notória) qualidade vocal e capacidade na construção de sua Cinderela, que mesmo sendo já um personagem bastante popular no imaginário coletivo, tem nuances muito particulares pela destacada personalidade da atriz

O cuidado de Vanessa com todos os aspectos de uma produção pode ser notado em cada segmento, numa permanente busca pela perfeição. Só para utilizar um exemplo podemos citar a qualidade do coro formado por Kiko do Valle, Saulo Vignoli, Guga Sabatiê, Arthur Rozas, Rafael Tavares e Tomaz Nogueira. Kiko do Valle é protagonista de “O Elixir do Amor”, aonde esbanja talento e capacidade ou Arthur Rozas, um ator que vi este ano protagonizando diversos espetáculos infantis e dotado de ótima técnica vocal.

A direção musical de Wladimir Pinheiro desponta pelo modo como utiliza os elementos da música mineira e seus tambores para captar a essência da obra de Rossini, numa recriação musical que sustenta a dramaturgia e que contextualiza toda a proposta do espetáculo.

O belíssimo cenário Glauco Bernardes, que tem um aspecto mais vultuoso e com uma proposta estética completamente diferente da peça anterior, que permite uma amplitude de movimentação, sendo muito bem explorada por Fabianna, sem que ocorra em nenhum momento qualquer tipo desequilíbrio ou desarmonia em cena

Cinderela, uma Opereta Brasileira” é a síntese de como um trabalho de alto nível de sofisticação tem a capacidade de ser extremamente popular.

10 - A Borralheira - Foto Dalton Valerio

Para que trabalhos desse requinte artístico se tornassem realidade foi necessário alguém com uma obsessão pelo perfeccionismo e uma entrega total para propor obras de grande complexidade de produção e artística, que somente o profundo amor pelo que realiza poderia atingir: Vanessa Dantas.


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