Aventuras e Desventuras de um Noivo no Universo dos Casamentos


 

Encontrava-me no meio da tarde de uma 3ª feira em pleno 20º Ofício no Centro do Rio, tendo como missão reconhecer a firma do Frei José Pereira, que celebrou meu casamento com a Adriana no último dia 12 de maio. Lá estava eu, naquele ambiente nada aconchegante de um cartório, em pé numa fila enorme, enquanto aguardava minha vez. Reparo que o rapaz que se encontrava na minha frente carregava um documento idêntico ao meu, mais precisamente um “Termo de Casamento Religioso”. Pronto! Era tudo que precisava para puxar um assunto e tentar matar o tempo perdido. “Também veio reconhecer a firma do celebrante?”, perguntei. Objetivo conseguido, ganhei um interlocutor! A conversa se desenrolou naturalmente sobre tudo relacionado ao tema: custos, fotos, burocracia, máfia das igrejas, indústria do casamento, enfim, sobre esse mundo que até um ano e pouco atrás ambos desconhecíamos. “- Eu usei copo-de-leite e chuva de prata”, me disse. Repliquei: “- Ah! Que lindo”De repente olhei em volta e observei uns certos olhares daquele bando de Office boys e despachantes, figurinhas típicas de fila de cartório. Sim, estávamos ali 2 recém-casados conversando de flores, mas para aquelas pessoas que ouviam atentamente nossa conversa, não passava de um típico diálogo de 2, hummm…boiolas.

Sim, para preparar um casamento um noivo descobre que tem que tomar decisões sobre temas tão inusitados, sobre temas que jamais esperou um dia ter que decidir, tipo:
· O vestido das daminhas vai ser rosa-bebê ou verde-água?
· Que cor você prefere que sejam embalados os bem casados? Que tal rosa? Então vai ser rosa, mas com que cor de laço?
· As flores você prefere copo-de-leite, cravos ou margaridas?
· Qual você vai usar no seu meio-fraque: um lírio ou uma orquídia?

E ai do pobre noivo se não responder à argüição acima. Se você simplesmente disser que tanto faz, sua noiva certamente reclamará que você não está ligando a mínima para o casamento. São decisões tão complexas, que não fomos preparados nem criados para respondê-las. Normalmente ao sermos indagados se preferimos um laço rosa ou bege para os bem-casados, costumamos fazer aquela cara de bovino: “Como assim?”.

Sim, preparar um casamento é entrar num universo paralelo que até então desconhecíamos, aonde nos deparamos com uma verdadeira indústria feita para nos escalpelar, mas sempre com um sorriso nos lábios.

Recordo-me da primeira importante decisão que tomamos logo após escolhermos a data e a igreja: Quem seria o cerimonialista. Na época não entendia porque diabos seria tão importante assim se escolher um cerimonialista. Aliás, não entendia como alguém podia ter uma carteira de trabalho aonde constasse como profissão o ofício de cerimonialista. Só para fazer aquela procissão antes da cerimônia? Com o decorrer dos meses, fui realmente percebendo a importância de se contratar tal profissional, descobrindo de como uma noiva se apóia nele. Ele acaba se tornando uma espécie de mãe, pai, fada-madrinha, conselheiro sentimental, uma espécie de bom-bril, que ajuda a resolver todos os tipos de problemas. Minha noiva contratou o Sérgio Felipe, aliás, um grande profissional. O problema é que demorei para acertar o nome dele, no início só o chamava de Sérgio Maurício, Sérgio Ricardo, Sérgio Murilo, até que com o passar do tempo consegui acertar seu nome.

Mas o choque inicial se dá no momento de escolher a igreja, quando você se dá conta que caiu numa espécie de máfia. Além, dos preços para lá de salgados das igrejas, em cada uma você tem uma série de limitações. Por exemplo: Na Igreja da Urca só se pode fazer as flores com determinadas pessoas, sendo proibido outros nomes fora da pequena lista que é fornecida. O cerimonial e a música da Igreja só podem ser feitos com uma determinada senhora, sem a menor possibilidade de trocá-la por outro profissional. Na Nossa Senhora do Bonsucesso, se não se fizer a música com um tal de Maestro Rachid(que dizem que é mais desafinado que aquela cantora da Banda Calypso), você paga multa. Se não fizer a decoração com determinada pessoa, você paga multa. E por aí vai. Realmente isso é muito estranho, aonde não seria difícil elocubrar ou insinuar que tem gente ganhando dinheiro e comissões por fora, pelo menos é o que transparece com tais exigências. Uma pergunta que me fazia nesse período era como gente pobre fazia para se casar diante de tanta exorbitância nos preços e da infinidade de aspectos que nos é cobrado.

Depois disso ainda temos que contratar um decorador, uma orquestra. Aí vai um comparação curiosa: Pagamos 3 vezes mais em flores e decoração do que na orquestra com 21 músicos. Ou seja, fica constado o quanto músico neste país é desvalorizado, ainda mais com formação clássica.

Depois vem o DJ, aonde somos obrigados a tomar outras decisões um tanto excêntricas, tipo: Com que música vamos cortar o bolo? Tem ainda o local da recepção(o que é uma facada enorme), fotógrafo, vestido da noiva, das daminhas, aluguel de roupas, bolo, doce, havaianas, gráfica para convites, calígrafa, enfrentar cartórios, carro, hotel para lua-de-mel, marcar viagem, ufa! E mais uma infinidade de coisas, que em determinadas horas fazia me sentir como se fosse um produtor de um mega-show de rock ou de um ópera na Praça da Apoteose.

Um sentimento que compartilhei com meu novo amigo Rafael(pelo menos ele tinha cara de se chamar Rafael) era a perda da noção de dinheiro, pois nesse universo as pessoas apresentam orçamentos na casa dos R$ 4 mil, R$ 5, R$ 6 mil reais com a maior naturalidade do mundo. “- Quanto é isso?” “-R$ 3 mil”. “Então tá!” Sacamos valores tão absurdos com uma naturalidade impressionante, que quando chega algo para pagar com menos de R$ 1.000,00, até tomamos um susto: “-Quanto? Só R$ 800,00?”

Eu e Rafael passamos então uma parte da nossa tarde, já cúmplices, relembrando nossas aventuras e desventuras em nossa passagem por esse estranho universo dos casamentos. “-O Próximo”, grita o atendente do cartório. Era a vez do Rafael e o suficiente para nos darmos conta que estávamos agora definitivamente de volta ao planeta terra e sob o olhar atento dos nossos incrédulos e desconfiados companheiros de fila.


Palpites para este texto:

  1. Interessante artigo.

  2. Muito interessante.

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