Bernardo Carvalho


 

A decisão e escrever um post sobre Bernardo Carvalho foi algo bastante pensado, talvez por paúra mesmo. A complexidade de sua obra é por si só é um fator inibidor, mas igualmente sua personalidade crítica e a admiração que tenho por seus livros. Ficava imaginando a irritação de Bernardo Carvalho dando um google” e  caindo nessas páginas, até porque nunca escondeu que não gosta de blogs e afins, tanto que escreveu textualmente no seu blog(que ironia) enquanto escrevia seu último publicado, “O Filho da Mãe“:

“O horror confesso que eu tenho dos blogs me pôs numa sinuca de bico (devidamente ironizada pelos amigos mais próximos) quando descobri que durante a minha estada em São Petersburgo também teria que escrever um. Não é que não goste; eu detesto blog”

Mas como o vaidoso ato de “dar um google” não me parece uma ação que combine com sua personalidade, resolvi seguir adiante, com a segurança que ele não passará por aqui e discordar (com toda razão) de qualquer coisa que escreva à seu respeito.

Possui uma obra robusta, complexa, aonde seus personagens estão permanentemente de passagem, fora do seu habitat natural, fustigados, incomodados e acima de tudo fugindo de si mesmos. A paranoia, um traço confessadamente pertencente ao autor, se transfere em muitas ocasiões para seus personagens. Longe, muito longe, de ser um autor intuitivo, Carvalho sabe exatamente que caminho quer seguir, que fim quer alcançar, não fazendo concessões de nenhuma espécie.

Sua obra literária é composta de 9 romances e 1 livro de contos. Entre eles minhas preferências recaem sobre 2 livros especificamente, que reputo estar entre o que de melhor se produziu na literatura brasileira na primeira década do século 21: “Nove Noites” e “Mongólia

A escolha é um pouco óbvia, mas vou me ater neles, “Nove Noites” e “Mongólia“, mais uma vez para desgosto de Bernardo Carvalho, que em entrevista dada em 2007 para o “Jornal Rascunho” criticou durante a “elite iletrada” brasileira, que tem o hábito de tecer interpretações dos seus livros, mais especificamente “Nove Noites” e “Mongólia“, com se fossem baseados integralmente em fatos reais e que o fato de narrar seus romances em primeira pessoa, fizessem do autor um personagem real dos romances. Essa confusão autor X personagem é plausível de ocorrer em “Nove Noites” para um leitor menos atento aos labirintos e armadilhas da obra de Carvalho.

O ponto de partida de “Nove Noites” é o suicídio do antropólogo americano Buell Quain, em 1939, após sua permanência em uma aldeia indígena nos confins do Tocantins.  Que motivos teriam levado Quain a se matar? É em busca dessa resposta que seguimos a narrativa de Carvalho. Aparentemente se trata de um livro de pesquisa documental, mas em determinado momento nota-se que Carvalho levanta voo diante de sua incapacidade de entender a angústia existencial do seu protagonista. O que a princípio parece ser uma viagem documental, acaba virando uma extrordinária ficção. Em entrevista a Deutsche Welle declarou sobre “Nove Noites


“O livro foi escrito num momento em que eu estava muito irritado com essa ideia de que a ficção vale menos do que os livros baseados em histórias reais, o que é uma tendência muito forte no mundo todo. A literatura estava se tornando restrita e elitista.

Um dia, li no jornal uma resenha sobre um livro de correspondências de um antropólogo alemão que havia sido assassinado pelos índios no Brasil em meados do século 20. A resenha citava também Quain, antropólogo americano de 27 anos que havia se suicidado no Brasil em 1939. Aquilo me despertou: eu fiquei obcecado por aquele suicida e comecei a pesquisar.

Você nunca vai descobrir o que leva um suicida a se matar. Esse é o princípio do suicídio. O que me interessou na história é que ela é insolúvel. Era uma pesquisa detetivesca para a qual eu já sabia que não haveria resposta. Chegou um ponto em que eu empaquei e não tinha mais para onde ir e a ficção aflorou. Procuro com os meus livros celebrar a subjetividade, a imaginação e não estar confinado ao funcionalismo da realidade. No livro, a realidade é para o leitor como uma armadilha ou um jogo. Uma espécie de simulacro da realidade.”

Em “Mongólia” o estado permanentemente nômade do personagem é a espinha dorsal da narração, Não há um destino a se chegar, apenas um objetivo a se alcançar. O diálogo entre os seus personagens, que caminham no mesmo espaço físico, mas em tempos diferentes, se dá através de um diário de viagem, com uma narração executada em três vozes. No livro, um diplomata brasileiro com posto na China vai à Mongólia com a missão de localizar um brasileiro desaparecido. Em meio à narrativa, Carvalho vai conduzindo-nos por uma terra misteriosa, descrevendo suas paisagens e costumes, em meio à estranheza causada pela diferença e pelo medo do desconhecido. Essas paisagens descritas pode novamente a levar o leitor ao erro em mais uma armadilha da obra de Carvalho, ao contrário por exemplo das descrições realistas e tópográficas de um Euclides da Cunha, a Mongólia do livro só existe fisicamente na cabeça de Carvalho, que esteve “In loco” por aquelas regiões por vezes inóspitas, mais para poder recriá-las do que necessariamente descreve-las.

Trata-se de um livro absolutamente fascinante, do qual li anos atrás uma notinha que ele iria ser adaptado ao cinema por Walter Salles, depois disso nunca mais ouvi falar sobre o assunto. Uma pena, pois tem potencial para ser um filme fabuloso.

Entre os livros de Carvalho que também considero importantes é necessário uma atenção a “Onze”, seu romance inicial e que já demonstra a complexidade do escritor que estaria por vir e seu último “O Filho da Mãe”. Tanto em “O Filho da Mãe”, como em “Mongólia” é importante ressaltar a fuga da fronteira brasileira, Carvalho procura o que está além, levando a literatura brasileira a caminhos pouco explorados, procurando uma visão sobre o diferente, o exótico, um território que não domina, algo que os escritores ingleses sempre realizaram com maestria, apesar de embutidos de seus sentimentos colonialistas. Tal como Kipling ou Conrad, Carvalho trilhou territórios pelo qual a literatura brasileira jamais procurou se aventurar, talvez pelo medo do que não conhecemos ou até mesmo por um inconsciente complexo de vira-lata.

Obra Completa:

  • 1993 Aberração (coletânea de contos)
  • 1995 Onze (romance)
  • 1996 Os Bêbados e os Sonâmbulos (romance)
  • 1998 Teatro (romance)
  • 1999 As Iniciais (romance)
  • 2000 Medo de Sade (romance)
  • 2002 Nove Noites (romance)
  • 2003 Mongólia (romance)
  • 2007 O Sol se Põe em São Paulo (romance)
  • 2009 O Filho da Mãe (romance)

Principais Prêmios:

  • 2003 – Prêmio Portugal Telecom  – 1º lugar(Nove Noites)
  • 2003 – Prêmio APCA – Categoria Romance(Mongólia)
  • 2004 – Prêmio Jabuti – Categoria Romance(Mongólia)

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