Botequim Cultural em SP: Caravaggio no MASP


 

Havia uma ameaça permanente no ar. Os jornais diziam que a exposição “Caravaggio e Seus Seguidores” era maravilhosa, mas a fila era enorme. Durante a 1 hora e 20 minutos da véspera em que ficamos na fila para vermos os impressionistas do CCBB pessoas nos falavam igualmente, “é maravilhosa, mas ficamos 3 horas na fila”. Na TV a Neide Duarte falava que a mostra era maravilhosa… mas lá vinha o maldito aposto novamente: “mas a fila é enorme”, e ilustrava sua reportagem com pessoas aguardando para entrar.  Perguntava a repórter: – Quanto tempo vocês estão aqui na fila? Resposta: – 4 horas!

Segui pro MASP preparado para uma batalha campal. Mas ao chegar estranhei ao não visualizar fila nenhuma. Após comprar as entradas fui subindo as escadas ressabiado achando cedo para comemorar e aguardando uma “fila surpresa” lá no alto. Nada, caminho livre. Ainda perguntei ao segurança: Cadê a fila? “– Até agora não tem não”, respondeu o bravo centurião do MASP.

Adriana e eu subindo as escadas do MASP

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Ao entrar ouvi comentários um tanto decepcionados de pessoas que já estavam de saída: “tanto barulho para ver meia dúzia quadros?”, dizia uma moça. Mas eu gostei da exposição. Além dessas telas de Caravaggio, outras 16 de seus seguidores completam a mostra, que devo dizer, me tocou mais do que as 48 telas dos impressionistas do CCBB.

Existem razões para a dificuldade de se trazer um maior número de obras de Caravaggio, pois grande parte delas se encontra em Igrejas na Itália, que não a deixam sair de lá por nada nesse mundo e dificultando sua circulação pelo mundo, assim como uma parte importante se encontra no Louvre. Essas 7 obras representam mais de 10% do trabalho deixado pelo artista. Sem contar que até nossos dias existem discussões a respeito da autoria de seus trabalhos, até porque Caravaggio não costumava assiná-las.

O que me impressionou no trabalho de Caravaggio é que apesar de utilizar permanentemente um ambiente sombrio e escuro, a técnica que usa para iluminar suas telas com um foco de luz intenso, contrastando essa luz com as penumbras e as sombras. Também me agrada seu despudor em utilizar figuras humanas para representar a feiura e a deformidade, em cenas impactantes e provocadoras. A visualização do seu trabalho emociona, principalmente em “São Jerônimo que Escreve”, em que representa um cardeal trabalhando em um ambiente quase insalubre, austero e despojado de bens materiais. Assim como “Medusa Murtola”, o famoso monstro da mitologia grega, desenhada numa superfície convexa, num escudo. Causa arrepio o olhar da Medusa impresso na frente do escudo, encarando o inimigo, pronta para petrificá-lo.  A intensidade dessas obras assombram e causam impacto visual a nossa retina . Um outro destaque é o “Retrato do Cardeal”, que pela primeira vez é exibida fora da Itália.

 

As outras salas aonde estão os seguidores me passaram a sensação de que estavam ali com uma função meramente de “encher linguiça”(perdoem-me a expressão chula para ambiente culto) para aumentar a exposição. São obras de autoria de Artemisia Gentileschi, Bartolomeo Cavarozzi, Giovanni Baglione, Hendrick van Somer e Jusepe di Ribera. Acabam servindo para ressaltar ainda mais aos nossos olhos a genialidade de Caravaggio. Esse artifício acaba chamando a atenção e consequentemente fazendo com que certas pessoas acabem se decepcionando com a mostra(principalmente quem passou 3 ou 4 horas numa fila). Mas não foi meu caso, porque as telas de Caravaggio já foram o suficiente para emocionar-me e ver que a exposição bem vale um par de horas de espera.

Após a exposição há um enorme painel biográfico do artista, aonde em ordem cronológica podemos compreender de onde vem esse espírito conturbado e provocador utilizado na sua obra, com uma vida curta(menos de 40 anos), mas repleta de confusões, brigas, polêmicas e muitas, mas muitas prisões, fugas de cidades e processos penais. Fiquei pensando se havia algum filme importante retratando sua vida e nenhum veio à cabeça. Essa vida merece um clássico em Hollywood. Pesquisando achei alguns telefilmes e uma produção inglesa da década de 80. Olhando no youtube me pareceu bem sofrível, como podem verificar no trailer abaixo.

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Após visitar Caravaggio vale a pena subir ao 3º andar e fazer uma visita ao excepcional acervo permanente do MASP, inclusive encontrando vários artistas impressionistas que vi na véspera no CCBB. Vendo abaixo de cada quadro a inscrição sobre o doador daquela obra fiquei pensando divertido sobre as extorsões que sofreram de Chateaubriand pra fazer aquela “espontânea” e “singela” doação e ao mesmo tempo meditei sobre o porquê do MASP não ter cedido alguns dos seus Renoir, Gauguin ou Tolousse-Lautrec para a mostra do CCBB. Embora os trabalhos da mostra do CCBB fossem exclusivamente do acervo do Museu D’Orsay, ajudariam a compô-la e enriquecê-la. Mas felizmente tive a oportunidade de vê-los no maravilhoso MASP.


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