Botequim na Copa: Hinos Nacionais


 

Allons enfants de la Patrie
Le jour de gloire est arrivé !
Contre nous de la tyrannie L’étendard sanglant est levé !

 Impossível não me arrepiar com os jogadores franceses abraçados, cantando a plenos pulmões os versos revolucionários compostos por Rouget de Lisle. Carrego comigo a tese que “A Marseillaise” é por si só um enorme estimulante para qualquer competição oficial. Eu diria mesmo que passível de um minucioso exame antidoping para se averiguar como esses versos  podem alterar o  metabolismo de uma atleta:

 Aux armes citoyens !
Formez vos bataillons !
Marchons! marchons !
qu’un sang impur
abreuve nos sillons !

 Apesar do meu fascínio, tenho certas dúvidas se é apropriado ou não tanto fervor patriótico e exacerbação nacionalista antes de uma mera competição esportiva em que, analisando friamente, não passa de 22 homens de pernas de fora correndo atrás de uma bola, ao invés de formarem batalhões ou transformarem em ações inúmeras metáforas que cronistas esportivos tanto gostam de associar ao futebol, comparando jogos de futebol com batalhas épicas e históricas, retratando jogadores como guerreiros ou gladiadores, numa sucessão sem fim de analogias bélicas. Mas ao mesmo tempo, me contradizendo e deixando de lado minha posição politicamente correta, não gostaria de me privar das hipérboles maravilhosas de um Nelson Rodrigues ao descrever, por exemplo, a derrota na copa de 50 como “uma tragédia pior que Canudos” ou “nossa Hiroshima”.

Mas voltando ao tema central desta crônica, se observarmos de maneira um pouco mais apurada os diversos hinos nacionais que tocarão ao longo de toda a Copa do Mundo veremos que boa parte deles não possuem necessariamente um espírito de fair-play, a maior parte composta no século XIX, no auge no nacionalismo. Falam de guerra, morrer pela pátria, pegar em armas, derramar o sangue inimigo.

Vejamos alguns exemplos:

Hino de Portugal:
“Às armas, às armas/Pela pátria lutar/Contra os canhões marchar, marchar”

Hino do Irã:
“Ó mártires/Seus gritos de dor ecoam no tempo”

 Hino do México:
Mexicanos, al grito de guerra/El acero aprestad y el bridón/Y retiemble en sus centros la tierra/Al sonoro rugir del cañón”

Nesse aspecto não podemos nos queixar do nosso hino contemplativo com versos como: “deitado eternamente em berço esplêndido” ou  “formoso céu formoso e límpido”. O problema é fazer os jogadores cantarem. Até o “ouviram do Ipiranga” é tranquilo, mas quando chega no “lábaro que ostentas estrelado”…

Já vi gente defendendo a troca do nosso hino pela “Aquarela do Brasil”, mas não sei se resolveria o problema, principalmente quando chegar na “merencória luz da lua”.

Mas o Brasil não é uma ilha de exceção ao louvar seu céu, suas estrelas e seus campos, vejamos alguns exemplos de auto exaltação e ufanismo:

Hino do chile:
Puro, Chile, é teu céu azulado/puras brisas te cruzam também/e teu campo de flores bordado/é a cópia feliz do Éden.

Hino de Honduras:
O audaz navegante te achou/e ao olhar tua beleza extasiado/ao influjo ideal de teu encanto/a orla azul de teu esplêndido manto/com seu beijo de amor consagrou.

Um aspecto curioso é o caso da Espanha em que a letra foi eliminada do hino após o fim da ditadura franquista. Por isso, Xavi, Casillas, Piqué & cia só vão aparecer na televisão cantarolando o tradicional “la-lalá-lalááá…”

Analisando do ponto-de-vista estritamente musical, observamos que poucos hinos possuem alguma relevância nesse campo, além do fato de que poucos foram escritos por compositores ilustres, como Joseph Haydn para a Alemanha, Mozart da Áustria e Gounod para o Vaticano, se bem que esses dois últimos nem estão na Copa. Poucos conseguem escapar da mediocridade musical.

Para terminar esse texto sobre hinos, lembro uma historinha do inesgotável folclore sobre Garrincha. Durante a Copa de 1962. Brasil e Chile em campo perfilados para escutarem o hino, quando começam os primeiros acordes do hino nacional. Garrincha vira-se para Didi, ao seu lado e cochicha:
– Rapaz! Essa marchinha toca lá no fundo da gente!
E então começa o zumviramduipiranga…com Didi tentando segurar a gargalhada.


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