Botequim na Copa: Íntegra da Falsa Entrevista de Luiz Felipe Scolari para Mário Sérgio Conti


 

 

felipao

É inacreditável que um jornalista com a bagagem e a experiência de Mário Sérgio Conti tenha sido responsável pela maior barriga que eu tenha conhecimento na história dos mundiais. Conti é um dos maiores jornalistas do país e autor de um dos mais importantes livros políticos editados no Brasil, “Notícias do Planalto”, aonde conta em detalhes todos os bastidores do impeachment do ex-presidente Collor de Mello, sob o ponto de vista do que ocorria dentro das redações da grande imprensa nacional.

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Homem de vastíssima cultura, tradutor de Proust, responsável pela criação e concepção da Revista Piauí, Conti acabou de demonstrar que até o mais experiente dos jornalistas pode ficar cego diante da possibilidade de um furo, mesmo com todas as improbabilidades para que isso ocorra.

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Para quem não sabe o que ocorreu, Conti teria se encontrado num voo entre Rio e São Paulo com os sósias do técnico da seleção Luiz Felipe Scolari e do jogador Neymar. Entrevistou-os em pleno voo acreditando ter conseguido mais um furo jornalístico com os verdadeiros Felipão e Neymar.

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Em nenhum momento lhe passou pela cabeça como diabos Felipão e Neymar em plena Copa do Mundo estariam num voo de carreira, sem nenhum jornalista por perto. Ou seja, para Conti Felipão e Neymar caíram de paraquedas ao seu alcance, completamente livres e desimpedidos, pronto para ele fosse o único a conseguir uma entrevista com o técnico da seleção no meio da mais importante competição do planeta. Fica mais patético quando o próprio Conti em seu texto descreve a cena em que o falso Felipão lhe entrega um cartão aonde le-se “Vladimir Palomo – Sósia de Felipão – Eventos”., achando o jornalista em sua santa ingenuidade que era uma mera brincadeira de Felipão. Também não achou estranho que apenas um único passageiro tenha pedido para fazer uma selfie com o suposto Neymar. Completamente cego, repleta de absurdos do início ao fim, Conti colocou a entrevista simplesmente no site dos 2 maiores jornais do país: O Globo e a Folha de São Paulo.

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O Globo e a Folha tiraram o texto do ar poucas horas depois, mas o estrago já estava feito. Botequim Cultural reproduz na íntegra a maior barriga jornalística da história das Copas do Mundo. Mas antes, gostaríamos de avisar a Mario Sérgio Conti para tomar muito cuidado, porque circula a notícia que um sósia de Barack Obama tem sido visto pelas ruas do Rio de Janeiro. Corre o risco do jornalista pedir uma entrevista acreditando que vai ganhar o Pulitzer.

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No momento em que escrevo esse post, percebo uma tentativa corporativista de alguns jornalistas afirmando que Conti sabia que eram sósias e que na verdade tratava-se de uma crônica. Se é assim, pergunto: Por que Conti pediu desculpas? Por que O Globo e a Folha também pediram desculpas e deletaram o texto de seus sites?

errata da folha

errata da folha

 

globo

errata do Globo

Caso seja verdade que era apenas uma crônica, então O Globo e a Folha erraram muito, mas muito feio, porque trataram a entrevista como uma notícia jornalística e ao tirarem do ar pedindo desculpas expuseram seu contratado ao ridículo de maneira irresponsável.

Ao site Portal da Imprensa, o diretor de redação do Globo, Ascânio Seleme declarou: “Foi um equívoco, por isso tiramos a história do ar. Estava errada“.

UPDATE 19/06 – 19:07

Após longa discussão que tomou conta das redes sociais e meios jornalísticos, Mário Sérgio Conti confirmou para o site do jornal Zero Hora que realmente tratou-se de um erro e não de uma “licença poética”, apesar de alguns colegas jornalistas tentarem fazer crer que o problema é que “burros”(como eu) não estariam entendendo o “refinamento” da “crônica” do jornalista. Para mim, como admirador que sempre fui de Conti, custa-me crer que um jornalista com sua experiência tenha cometido tal equívoco. Sabe-se que edições já impressas tanto do Globo e da Folha foram pro lixo e que caminhões dos jornais, que já estavam circulando com a “falsa” entrevista, voltaram com as tiragens para as gráficas antes de leva-las às bancas.

Abaixo, um trecho da sua entrevista ao ZH:

Zero Hora — Foi uma brincadeira ou o senhor realmente confundiu o sósia de Felipão com o próprio técnico?

Mário Sergio Conti — Pensei realmente que era o Scolari. Nunca estive com Felipão. Sequer vi entrevistas dele na televisão; só nas partidas, ao lado do campo. Achei todas as respostas dele sensatas.

ZH — O texto publicado pelo O Globo (que foi atualizado quase 30 min depois da publicação) termina com a história do cartão de visitas do sósia. Essa informação constava na primeira versão ou foi acrescentada depois?

Conti — A informação constava do texto enviado originalmente. Nada foi alterado nele. Quando perguntei se toparia ser entrevistado na televisão, ele disse que sim, mas que estava muito ocupado naqueles dias. Aí me deu o cartão e rimos. Imaginei que era uma piada dele: entreviste esse sósia meu…

Nas redes sociais, a jornalista Cora Ronai, foi uma das primeiras a levantar a hipótese de tudo não ter passado de uma falta de compreensão por parte dos leitores:

Como todo mundo que não leu o texto original do Mario Sergio Conti, eu também, num primeiro momento, achei muito engraçada a errata da Folha e a barriga que, supostamente, teria ocorrido. Depois estranhei. Não por causa da confusão, que eu teria sido a primeira a fazer, mas porque é óbvio, ululante até, que, em época de Copa, técnicos e jogadores não andam de avião comercial, e o Conti não nasceu …ontem. Fiquei curiosa em ler o texto. E aí cheguei à conclusão de que ou eu estou ficando maluca, ou todo o resto do mundo está ficando maluco.
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Ou então, estamos todos completamente malucos, e nada mais faz qualquer espécie de sentido.
Começa que a “notícia” não é uma notícia, é uma crônica (embora isso não fique claro do ponto de vista editorial — mas aí não é culpa do Conti). Depois, o final deixa absolutamente claro que não houve confusão alguma. Leiam e vejam se é possível um ser humano razoavelmente alfabetizado interpretar isso de qualquer outra forma…
Apesar da contundência inicial, Cora manteve ao longo da postagem uma posição de quem estava tentando entender o ocorrido e por fim, algumas horas mais tarde, até com uma louvável humildade reconheceu:

Estou besta. Chocada. Perplexa. Boquiaberta. Abismada. Estarrecida. Estupefata. Em suma, bege.

Até eu, que não entendo nada de futebol, sei que a poss…ibilidade de encontrar o técnico e o jogador mais badalado da seleção na Ponte Aérea é inexistente, zero absoluto. Vejam se dá para levar a sério, como matéria, este primeiro parágrafo: “Neymar e Luiz Felipe Scolari foram os últimos passageiros a embarcar no avião, às 17h30 desta quarta (18). Como voo da ponte-aérea, do Rio para São Paulo, estava lotado, ambos se espremeram em poltronas entre passageiros, Felipão na 25E e Neymar na fileira da frente.”

É tão ridículo quanto, digamos, “A Rainha Elizabeth e o Príncipe Charles foram os últimos passageiros a embarcar no avião, às 17h30 desta quarta (18). Como voo da ponte-aérea, de Londres para Bristol, estava lotado, ambos se espremeram em poltronas entre passageiros, A Rainha na 25E e o Príncipe na fileira da frente.”

Os dois soltos, sozinhos, na Ponte Aérea, feito pessoas comuns, sem tumulto algum à sua volta — isso é humor, e só podia ser crônica. Óbvio, não?

Não, Cora Rónai, aprenda: não há óbvio nem limite no mundo do absurdo.

Retiro pois — ainda perplexa — o que escrevi no post anterior.

Desculpem qualquer coisa, sim?

ABAIXO, A PSEUDO-ENTREVISTA, NA ÍNTEGRA, de LUIZ FELIPE SCOLARI PARA MARIO SÉRGIO CONTI

“Felipão sobre Neymar: ‘Se tivéssemos três como ele, a Copa seria uma tranquilidade’
Colunista do GLOBO conversa com técnico da seleção durante voo para São Paulo

POR mario sergio conti
18/06/2014 21:19 / atualizado 18/06/2014 21:47

SÃO PAULO – Neymar e Luiz Felipe Scolari foram os últimos passageiros a embarcar no avião, às 17h30 de ontem. Como o voo da ponte-aérea, do Rio para São Paulo, estava lotado, ambos se espremeram em poltronas entre passageiros, Felipão na 25E e Neymar na fileira da frente.

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– Vê se dorme, moleque – disse o técnico ao jogador. Neymar desligou o celular, mas não dormiu, apesar de apenas um passageiro ter-lhe pedido um selfie durante o voo. Tampouco Felipão pregou o olho. Um tanto apreensivo com o céu carregado, ele respondeu de bom grado tudo que lhe foi perguntado.

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– “Acho que, até agora, os melhores times foram a Holanda e a Alemanha – disse.

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– Eles vão dar trabalho. A Itália também. Ela sempre chega às semifinais. É como o Brasil: tem tradição, empenho, torcida.

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O zero a zero com o México não o abalou:
– Pode ter sido até positivo, na medida em que jogou um pouco de água fria no oba-oba, na ideia de que é fácil ganhar uma Copa.

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Num campeonato de nível tão alto, ele acha imprevisível fazer prognósticos.
– Quem diria que a Espanha sairia da Copa logo de cara? – indagou.

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O mesmo raciocínio ele aplica à seleção sob a sua responsabilidade.
– O Oscar fez uma excelente partida na estreia, mas não foi bem no segundo jogo – disse, mastigando um salgado de gosto insosso.

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– O Neymar foi bem, mas não teve a genialidade da partida anterior. São coisas que acontecem. E quem esperaria que o goleiro mexicano defendesse todas? – indagou.

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Felipão concordou com o raciocínio que Neymar parece mais centrado, não se joga tanto no chão ou faz demasiado teatro:
– É verdade, ele está mais objetivo. Mas pode melhorar ainda mais. Não dá para apressar muito esse processo: ele é muito moço, tem que aprender as coisas na prática.

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elogios a neymar

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Mas não tem dúvidas:
– Se tivéssemos três como ele, a Copa seria uma tranquilidade.

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O avião deu solavancos e o técnico comentou:
– Isso sim é que é um especialista, repare como o piloto conduz o avião com mão firme, fazendo mil coisas ao mesmo tempo.

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O que seria mais difícil: pilotar um avião ou a seleção nacional?
– Não tem comparação, avião é muito mais difícil. O piloto lida com vidas humanas, é responsável por elas. Se a seleção perder, será muito triste para o Brasil, para os jogadores, a minha família e eu. Mas ninguém corre risco de morte.

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Felipão se disse satisfeito com o ambiente geral da Copa. Não esperava que tantos mexicanos e chilenos viessem, nem que as torcidas se confraternizassem.
– Até os argentinos estão se dando bem com os brasileiros. Pelo menos até agora.
técnico aprova aeroportos.

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Felipão também disse que os estádios são bons e a organização dos jogos funciona.
– E te digo: tive dúvidas, mas os aeroportos onde estive até agora estão uma maravilha.

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Contou que ninguém do governo o procurou, em momento algum. E ouviu com agrado o relato de meu encontro recente com um ministro, seu fã atilado.
– Pelo que ouço dizer, o governo está torcendo pela seleção, e a oposição nem tanto. Acho uma bobagem misturar futebol e política. Eu mantenho essa separação custe o que custar, não dou uma palavra sobre política.

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Os xingamentos a Dilma no jogo de abertura, portanto, não lhe dizem respeito.

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Perguntado se lia comentários de especialistas nos jornais, ou ouvia o que diziam na televisão, Scolari sorriu:
– Até papagaio fala.

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Ao ouvir os nomes de alguns, ex-jogadores e ex-técnicos, repetiu, divertido:
– Papagaio fala!

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Felipão terminou de tomar a caixinha de suco de laranja e se se explicou melhor:
– Os comentários são necessariamente frios, distantes. A experiência de jogar no Maracanã lotado, de cobrar um pênalti, de ouvir vaias, são coisas que mexem com o jogador, com o indivíduo. Não é questão de aplicar uma receita.

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Para o treinador, as variáveis envolvidas numa partida são inúmeras, não é possível reduzí-las ou quantificá-las.
Deu como exemplo a seleção da Alemanha:
– Ela está na Bahia, no sol, entre mulatas lindas. Claro que isso os influencia.
Felipão riu de novo:
– Desconfio que alguns deles nem voltarão para a Alemanha.

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zaga, o principal problema

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Se não acompanha os comentaristas da imprensa, ele está ciente de dificuldades táticas e de entrosamento na seleção.
– O principal problema é a zaga. Ela cai para o lado, quando deveria ir em frente, buscar o jogo lá na frente.

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O que mais o irritou até agora foram os boatos, divulgados pela imprensa europeia, que o Brasil já ganhou a Copa, já que a Fifa teria orientado juízes a facilitarem a vida da seleção.
– Mais que um absurdo, é um desrespeito. Você imagina comprar a Itália, a Alemanha? Isso não existe.

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O avião sobrevoava São Paulo, coberta por nuvens.
– É como descer a serra de Santos com um nevoeiro fechado, sem enxergar nada. Esse comandante sabe tudo.
Neymar e o técnico tinham participado da gravação do programa “Zorra Total”, no Projac, o estúdio da Globo em Jacarepaguá.
– Não gosto de passar muito tempo longe de São Paulo: veja que cidade interessante – apontou o treinador.

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Felipão estava curioso em saber como seu filho se saíra numa prova naquele dia. Ele estuda Economia nas Faculdades São Judas Tadeu, e pegara uma recuperação.
– Mas o garoto vai bem, é estudioso.

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Perguntei se toparia dar uma entrevista ao programa “Diálogos”, da GloboNews.
– Claro, vamos lá. Só que ando meio ocupado… – disse, rindo.

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Pegou sua carteira, tirou um cartão de visitas e me entregou, afirmando:
– Mas isso pode te ajudar por enquanto.
O cartão de visitas dizia:
“Vladimir Palomo – Sósia de Felipão – Eventos”.

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Depois das gargalhadas, apertou a mão e disse:
– Deus te proteja.”


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