Carlos Reichenbach


 

O falecimento ontem de Carlos Reichenbach é uma perda irreparável para o cinema autoral brasileiro. Era daquele raro tipo de cineasta que mesmo se perdessemos os créditos iniciais de seus filmes poderíamos distinguir facilmente sua assinatura nos filmes, pois tinham a marca de sua personalidade nítida na tela. Fazia parte de um time de cineastas em extinção, que perdeu recentemente Paulo Cézar Saraceni e nos últimos anos nomes como Walter Hugo Khoury e Rogério Sganzela. Talvez o único grande cineasta autoral do cinema nacional em atividade seja Julio Bressane.

Sua morte o eleva ao patamar dos grandes ícones do cinema paulista, ao lado de nomes como o já citado Khoury e Luís Sérgio Person. Era o grande mestre de toda uma geração de novos cineastas surgido nas escolas de cinema de São Paulo, principalmente da USP, da qual era professor. Conhecedor profundo de cinema, seja como teórico, seja como um prático, procurando realizar seus filmes tal qual um artesão, movido pelo amor extremo que possuía pela arte cinematográfica, atuando não só na direção, mas também gostava de fotografar seus filmes, roteirizá-los, montá-los e até fazer a trilha sonora para alguns deles.

De início começou ligado ao cinema marginal e a Boca do Lixo paulistana em fins dos anos 60. Seu primeiro filme a ter repercussão foi “Lilian M: Relatório Confidencial“, em 1974. Seu grande êxito comercial ocorreu em 1977 com “A Ilha dos Prazeres Proibidos“, que levou quase 2 milhões de espectadores ao cinema, relacionado com a pornochanchada, mas que num olhar mais atento podemos perceber que na verdade o filme vai mais além, trata-se de um filme com profundas reflexões políticas e estéticas e feitos com extrema sofisticação. Sua grande obra foi “Filme Demência“, de 1985, vencedor de inúmeros prêmios em Gramado(quando ganhar prêmio em Gramado significava algo) e em outros em festivais internacionais como Roterdã. Logo em seguida lançou outro filme importantíssimo na sua filmografia “Anjos do Arrabalde“.

Foi um dos primeiros cineastas a colocar filme nacional nos cinemas após a paralisação total da produção brasileira nos anos 90, com “Alma Corsária“, de 1993. Filme de produção modesta e orçamento apertado, porém de grande qualidade artística. Assistir um filme nacional e de qualidade naquele período negro foi um grande prazer para quem, como eu, sentia carência pela sua ausência. “Alma Corsária” foi o grande vencedor do Festival de Brasília daquele ano e também ganhou prêmio de melhor filme em Festival de Lugano, Itália.

A partir de “Alma Corsária“, tornou-se um dos mais atuantes cineastas da chamada “retomada” do cinema nacional, Em 1999 lançou o lindo e poético “Dois Córregos“. Nos seus últimos anos vinha colocando seu foco na periferia da grande São Paulo em filmes como “Garotas do ABC” e “Falsa Loura“, que foi seu último trabalho.

Carlão, como era conhecido no seu meio, dirigiu entre curtas e longas 22 produções desde “Esta Rua tão Augusta“, de 1966 até “Falsa Loura” em 2007. Teve grande reconhecimento em vida da classe cinematográfica nacional, mas em minha opinião, faltou-lhe um pouco mais de reconhecimento internacional, tendo seus filmes exibidos em festivais de nível médio e quando lançados no exterior, em poucas e modestas salas de exibição. Pior para eles.


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