Caso Dreyfus Ganha a Tela do Cinema


 

…“Meu dever é de falar, não quero ser cúmplice. Minhas noites seriam atormentadas pelo espectro do inocente que paga, na mais horrível das torturas, por um crime que ele não cometeu”…

Emile Zola

Roman Polanski afirmou recentemente à revista Le Film Français que pretende começar a rodar ainda este ano um filme sobre o “Caso Dreyfus”. O tema não é inédito nos cinemas, mas até o presente momento ainda não foi feito um filme com a contundência e a representatividade que o caso merece. Polanski é um cineasta com a capacidade para fazer a transposição de maneira digna para tela. Pode-se discutir seu caráter, arrogância e até mesmo sua “folha corrida”, mas trata-se inegavelmente de alguém que tem a bagagem e a personalidade para levar tal empreitada à frente, mais inclusive que por exemplo, um Steven Spielberg, também afeito aos temas judaicos, mas que adora resvalar numa pieguice.

Polanski deseja fazer um thriller político, uma história de espionagem. “Podemos mostrar a pertinência absoluta desta história, sobretudo com a visão do que passo hoje no mundo, este espetáculo ancestral de caça às bruxas, de tribunais militares secretos, de agências de informações fora do controle, das hipocrisias governamentais e de uma imprensa enraivecida”, afirmou Polanski. Ou seja, uma temática bastante atual. “Faz tempo que quero rodar este filme sobre o ‘Caso Dreyfus’, mas não como um drama tradicionalista, continuou Polanski, cujo ator principal ainda não foi definido.

Em 1894, uma agente de contra-espionagem francesa, disfarçada de faxineira na embaixada alemã de Paris descobriu uma carta oferecendo documentos militares aos alemães com informações sobre a artilharia francesa. Tal carta foi entregue ao Departamento de Inteligência Militar francesa. Não havia dúvida, existia no seio da oficialidade francesa um traidor. O caso tornou-se conhecimento público e tal carta passou a ser conhecida como “Le Bordereau”.

Peritos em caligrafia, em vão, foram convocados para determinar a autoria do documento. O único oficial judeu no círculo oficial em que estavam os suspeitos era Alfred Dreyfus. De família abastada, era o primeiro judeu a servir no Estado Maior e sua presença causava claramente desconforto entre a elite do exército. Logo foi transformado no bode expiatório ideal e levado aos tribunais militares.

Se sua caligrafia só tivesse uma vaga semelhança com o autor da carta, isso era apenas um detalhe irrelevante. Laudos periciais atestaram uma “semelhança” entre a caligrafia de Dreyfus com a do autor da carta. Agravando sua situação, durante seu julgamento o coronel Henry testemunhou afirmando ter importantes informações que implicavam Dreyfus, informações estas que não podiam ser reveladas e nem levadas a público para não colocar em risco a segurança militar da França.

Dreyfus foi considerado traidor e foi condenado à pena de prisão perpétua a ser cumprida na longínqua Ilha do Diabo, na costa da Guiana Francesa. Após a condenação foi realizada cerimônia pública de degradação militar aonde os galões de sua patente foram arrancados e a sua espada quebrada ao meio. Durante esta cerimônia Dreyfus clamava publicamente sua inocência, enquanto do lado de fora eram ouvidos gritos de populares pedindo “morte aos judeus”. Poucos meses depois foi embarcado para a Ilha do Diabo para cumprir sua pena.

Começou então enorme campanha liderada pela família de Alfred Dreyfus tentando provar sua inocência. Em novembro de 1897, quando Dreyfus já se encontrava há mais de dois anos preso, seu irmão Mathieu, consegue um fac-símile do memorando original que foi usado na acusação e o submete a apreciação de vários peritos, que afirmam que a letra era de outro oficial francês, Charles Esterhazy, que seria o verdadeiro traidor.

Tal prova dava margem para solicitar um segundo julgamento e caiu como uma bomba na sociedade francesa detonando inclusive uma onda antissemita. A campanha pela revisão do processo rachou o país ao meio, numa luta feroz e apaixonada entre dois lados antagônicos.

De um lado se encontrava a nobreza, o clero, os militares e os conservadores. Acreditavam que uma revisão no processo colocaria em risco a honra do exército francês, um exército que ainda carregava nas costas a humilhação da derrota para a Prússia e caso fosse provado que a condenação de Dreyfus teria sido um crasso erro judicial, a honra das instituições e do país como um todo estaria na lama.

Do outro lado estavam os liberais esquerdistas e progressistas que se postaram de pé pela revisão do processo. Este grupo conseguiu dois de seus principais objetivos: um novo julgamento para Dreyfus e acima de tudo, levar a julgamento o verdadeiro culpado, Esterhazy.

A pena de Dreyfus foi mantida e pior: Esterhazy foi absolvido. A indignação tomou conta de uma parte do país e no dia 13 de janeiro de 1898, apenas 3 dias após Esterhazy ter sido declarado inocente pelo Conselho de Guerra, o escritor Émile Zola, um dos maiores gênios de seu tempo, publicou no jornal “L’Aurore”, o que aparentemente poderia ter sido um mero desabafo de quem tinha perdido todas s esperanças numa revisão do caso, mas que na verdade é ainda hoje considerada a mais importante peça jornalística de todos os tempos. Nele, Zola ataca nominalmente os oficiais responsáveis pelo absurdo que o caso havia se transformado.

Escrita na forma de uma carta aberta ao presidente da França, Felix Fauré, “J’Accuse…!”(“Eu Acuso…!) é um apelo indignado em nome de um homem inocente condenado injustamente, é igualmente um libelo contra um sistema judicial corrupto e uma opinião pública contaminada pela manipulação da verdade e pelos seus preconceitos, algo que nos dias de hoje ainda é de uma atualidade assustadora. Cruzando jornalismo com manifesto, descreve a forma como um homem foi desonrado publicamente, julgado e condenado à prisão perpétua com base em provas falsas que, sendo consideradas secretas, sequer foram reveladas inclusive ao próprio réu e ainda demonstra como o verdadeiro culpado foi absolvido por juízes inteiramente cientes da sua culpa.

Os 300 mil exemplares do L’Aurore esgotaram-se em pouquíssimas horas. Começava ali o ponto de virada do caso. Vários intelectuais assinaram petição defendendo a revisão do caso, como Anatole France, Georges Courteline, Octave Mirbeau e Claude Monet, assinaturas estas recolhidas por estudantes e jovens escritores como Marcel Proust. Zola conseguiu virar a França de vez a favor de Dreyfus e conseguiu mais uma vez reabrir o caso, mas não sem sofrer fortes consequências: reações violentas contra ele e Dreyfus, motins antissemitas e teve que responder a processo penal. Condenado à pena de 1 ano de cadeia por seus ataques ao Estado-Maior, fugiu para a Inglaterra para não ser preso.

Outro importante escritor, Anatole France, também teve importante papel na defesa pública de Dreyfus. No livro “O Anel de Ametista” descreveu os manifestos populares, a perseguições contra quem discordava da sentença e os bastidores do jornal “L’Aurore. Criticou veementemente a confiança cega que os franceses tinham em suas instituições como o exército e o clero.

Numa tentativa de apaziguar os ânimos no País e apagar a enorme fogueira que o Caso Dreyfus se transformou, o presidente Émile Loubet concedeu o indulto a Dreyfus em 1899. O perdão lhe dava a liberdade, mas não lhe devolvia a honra. Criticado por seus defensores por ter aceitado o benefício, Dreyfus alegou que não conseguiria sobreviver mais tempo à prisão, aonde contraiu uma série de doenças. Morto, não teria como provar sua inocência.

Somente em 1906, quando sobe à presidência um dos principais defensores de Dreyfus, Clemenceau, a Corte de Cassação finalmente reconhece de maneira definitiva a inocência de Dreyfus. Zola, arruinado financeiramente pela defesa de Dreyfus, já tinha morrido sem poder ver cumprida sua exigência de justiça. Dreyfus foi reintegrado ao exército pelo qual chegou a lutar na guerra de 1914, Morreu em 1935.

Se Dreyfus passou de maneira oficial a ser um homem inocente, o fim do caso não significou necessariamente o fim do antissemitismo. A partir desse episódio, na verdade, o preconceito contra os judeus passou a conquistar inclusive certo grau de respeitabilidade, tendo entre os mais destacados antidreyfusistas escritores como Maurice Barrès e Charles Maurras.

Polanski tem em mãos uma história que mais do que lhe proporcionar a realização de um filme magistral, a possibilidade tocar numa ferida que o século XX jamais conseguiu cicatrizar, ao contrário, só a aumentou.


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