Clube da Esquina – 40 Anos


 

Edu Lobo declara em dado momento do excelente DVD “Vento Bravo”:

“Tinha um grupo de Minas, que eu sempre falo também, chamava Clube da Esquina, que foi importantíssimo pra música e ninguém se refere a esse grupo quando divide a música. Eu tava prestando muito mais atenção nessa escola mineira do que na Tropicália”.

Fiquei com essa frase me martelando a cabeça e resolvi escrever esse texto sobre o Clube da Esquina porque concordo com o pensamento de Edu. Musicalmente falando, acho os mineiros mais interessantes que os baianos, lógico que sem deixar de ressaltar a importância dos tropicalistas, tanto na música, quanto em questões comportamentais e mesmo de afirmação política de um momento difícil. Mas talvez pelo temperamento de seus integrantes, o estilo mais acanhado, menos irreverente e menos exuberante tenha feito esse movimento passar mais discretamente, acabando por não se creditar a exata dimensão do seu enorme valor artístico, embora o Clube da Esquina nunca tenha se formalizado oficialmente como movimento.

É interessante falar disso agora até porque em 2012 completa 40 anos do lançamento do disco de Milton Nascimento e Lô Borges, “Clube da Esquina”, de 1972. Este ano inclusive está sendo finalizado um documentário sobre o tema, o cinema nacional deve realmente um trabalho que dê a envergadura que o movimento merece, como tantos que já foram feitos sobre a Bossa Nova, sobre a Tropicália, os Festivais e até sobre o Rock Nacional.

Sobre esse disco, Milton Nascimento relembra:

Eu tava como o Som Imaginário aqui no Rio e o queria uns amigos dele lá para tocar. Eu falei: Leva tudo pro Rio. Primeiro foi o Beto Guedes, depois veio todo mundo”.

, por sua vez ressalta:

o Bituca(Milton Nascimento) que capitaneava. Depois já começou essa história de chamar um cara de Belo Horizonte que ninguém conhece para fazer um disco com ele”.

Completa :

Eu topo se eu levar o Beto(Guedes) comigo. Porque eu vou chegar no Rio e os seus amigos todos tocam samba, bossa nova, jazz, não sei o que mais. Quem vai tocar Beatles comigo? Eu preciso dos meus parceiros de linguagem, de leituras. Preciso levar o Beto comigo”.

Na verdade o disco foi apenas o meio como o Brasil tomou conhecimento da existência daquele grupo de mineiros que já tinha sua notoriedade pelas esquinas de Belo Horizonte, mas, a exceção de Milton Nascimento, eram desconhecidos no resto do país. O Clube da Esquina é algo maior que o disco. O disco pode ser importante para marcar o momento, uma data(além das músicas, lógico), mas o termo Clube da Esquina passou a ser algo muito mais amplo, passou a designar toda uma geração de músicos e compositores mineiros que a partir de 1966/1967 passaram inicialmente a gravitar e se organizar basicamente me torno de 4 figuras:  Milton Nascimento, Lô BorgesBeto Guedes e Toninho Horta, todos grandes músicos, grandes melodistas. Depois apareceram os poetas e letristas, Márcio Borges, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Murilo Antunes e mesmo Tavinho Moura, tão músico quanto poeta, assim como Flávio Venturini. O termo designava para o Brasil uma maneira mineira de se fazer uma música popular moderna e sofisticada, com uma harmonia intricada, não tão simples assim.

Era na, geograficamente falando, esquina das ruas Divinópolis com Paraisópolis, no bairro de Santa Teresa, Belo Horizonte, que Lô Borges e seus jovens colegas de bairro se reuniam para simplesmente tocar violão e cantar juntos. O tal Clube nada mais era do que o meio-fio dessa esquina, o lugar aonde aqueles jovens de classe média baixa podiam se encontrar sem ter que se aproveitar dos parcos recursos de seus pais para que seus filhos pudessem freqüentar um “autêntico clube”.

Segundo declarou Toninho Horta para o programa “O Som do Vinil, de Charles Gavin:

“A grande riqueza musical do Clube da Esquina prá mim foi essa junção. Cada um tinha uma formação. Eu com o regional, o lado Beatle do Beto, o era Bossa nova com um lado pop também, o Bituca aquele neo-cantador, aquela coisa do sertão, aquela coisa rural e com toda influência que ele ouviu de música americana e o Wagner(Tiso) com a escola clássica, a mãe dele era professora de piano, aquela coisa dos arpejos, do lirismo. Eu e o Nivaldo Ornellas éramos mais da praia do jazz da Bossa Nova, com muita coisa do jazz, da improvisação” .

Em 1978 foi lançado álbum “Clube da Esquina 2”, que apesar de não ter causado o mesmo impacto do primeiro é um grandíssimo disco, mas o espírito da Clube ainda hoje permanece e influencia gerações, apesar de uma certa diluição do seu ideário a partir dos anos 80. Clube da Esquina virou uma referência tão forte que nomes como Pat Metheny, Herbie Hankcock, Naná Vasconcellos chegaram a visitar Belo Horizonte para conhecer o famoso  “Clube da Esquina” e se surpreenderam quando só  encontraram um singelo meio-fio.

Grandes músicas foram feitas, antes, durante e depois. Se em Belo Horizonte não se pode encontrar ou adentrar no tal Clube da Esquina, fisicamente falando, já é possível se conhecer o Museu do Clube da Esquina, fundado em 2006 por Márcio Borges: http://www.museuclubedaesquina.org.br/

Abaixo fiz uma seleção de algumas dessas canções inesquecíveis:


Palpites para este texto:

  1. Como é muito bom ver a música mineira ser exaltada num texto seu…

    Espero que Edu Lobo, Bituca e cia limitada tenhão acesso a sua crônica…

  2. Ela merece ser exaltada, Mari, é um movimento histórico muito rico. Quanto a Edu, Bituca & cia já não sonho tanto. Beijos.

  3. Mto bom!Cresci escutando essas músicas e em 2010 tive o prazer de ir em um show do clube da esquina aqui na feira do livro de Ribeirão Preto,foi emocionante! http://www.youtube.com/watch?v=H3qYovPfg8k&feature=related
    *seu blog está ótimoooo!

  4. Muito obrigado pelo elogio, Leandra. Adorei o video que você colocou com o Milton, o Lô e o Flávio Venturini. Só pode ter sido um show maravilhoso.

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