Como foi a Palestra de Mário Magalhães na Casa do Saber


 

Na noite de uma 5ª feira do último dia 14 de março, o jornalista Mário Magalhães foi responsável por uma interessante palestra na Casa do Saber, no Rio de Janeiro, aonde por cerca de 2 horas explanou sobre os bastidores e o processo de construção do seu trabalho literário para o resultado final de “Marighella – O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo”, biografia do mítico líder guerrilheiro Carlos Marighella, que até os dias atuais ainda consegue despertar amores da esquerda e o ódio da direita.

No evento, o público presente teve a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a carpintaria necessária para se construir um livro que atraia o interesse do público, diante de uma quantidade monstruosa de informações colhidas ao longo de um extenuante processo de 9 anos, da técnica utilizada para costurar os capítulos, enredando as informações de maneira a deixar ganchos preparados, mesclando técnicas folhetinescas com a jornalística. Para fazer uma biografia interessante, não basta ter um grande personagem e nem todas as informações possíveis, é necessário saber trabalhar a narrativa para que ela tenha um sabor, para que desperte no leitor a curiosidade do que virá adiante, e nisso Mário pôde se estender para que pudéssemos compreender em sua integralidade o êxito editorial que “Marighella” conseguiu, já tendo vendido mais de 30 mil exemplares.

Ainda relacionado à edição final do livro, foi abordado o critério utilizado por Mário para eliminar e lapidar essa quantidade de informações num sempre tortuoso ato de cortar e a dor no coração ao ter que desprezar determinados fatos, informações e histórias para se chegar as 588 páginas do resultado final, fora o trabalho iconográfico e as 150 páginas de notas e agradecimentos . Assim como revelou ao privilegiado público seus dilemas éticos e os critérios utilizados para se revelar ou não uma fonte, para revelar ou não alguma história ou o nome envolvido em determinado episódio.

Um tema que suscitou uma série de indagações dos presentes foi sobre o trabalho de pesquisa nos arquivos e o acesso às fontes documentais. Mário contou como é trabalhar diante de documentos por vezes manipulados, adulterados, cortados, incompletos, censurados e indisponíveis(principalmente os arquivos do Cenimar). Assim como criticou a situação do arquivo do Rio de Janeiro e principalmente de Salvador, que segundo relatou se encontra há 3 anos sem luz.

Assim como a dificuldade de discernir quando há informações antagônicas e contraditórias. Como proceder? Como se chegar a “verdade”? Ou em determinados casos, que optou por expor as diferentes visões e versões. O famoso separar o joio do trigo.

Como não podia deixar de ser, a Comissão da Verdade, que se encontra em plena atividade, foi tema também bastante comentado. Ao contar em detalhes como conseguiu a confirmação de que Marighella estava desarmado no momento em que foi morto, através do policial responsável por tê-lo revistado após a execução, depois de anos de insistência e cerco ao indivíduo, cujo nome Mário não revela por acordo com sua fonte, que fez a confirmação em off. Mário revelou que por causa da Comissão da Verdade hoje não teria mais acesso a essa informação porque como disse, “eles não te atendem mais. Estão todos com medo da Comissão da Verdade”, de onde concluímos que se estivesse escrevendo seu livro hoje, provavelmente não teria conseguido a fartura de informações necessárias para um trabalho tão detalhado e completo como o que fez e que foi responsável por derrubar alguns mitos e lendas sobre o biografado.

“Em nenhum momento eu deixo clara minha posição sobre a luta armada”. Mário explicando seu papel jornalístico, como um mero espectador das informações levantadas, sem tomar partido publicamente. Embora na palestra ele tenha revelado sua posição pessoal sobre a luta armada. Qual é essa posição? Quem esteve na Casa do Saber soube.

Foi uma agradável noite, com uma plateia atenta e curiosa, um palestrante generoso que não teve pudor em repartir com seu público alguns detalhes e pequenas confissões, que no fundo acabou por ser uma bela aula de jornalismo e literatura. Fim da palestra, Mário ainda teve que aguardar para ir embora, atendendo as pessoas que foram lhe dizer algumas palavras e levar seus exemplares para serem autografados.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

dezembro 2017
D S T Q Q S S
« nov    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31