Crítica: Como Vencer na Vida Sem Fazer Força


 

 

A famosa falta de criatividade na pauta da grande imprensa nacional fez com que quase todos os principais jornais abordassem prioritariamente o espetáculo “Como Vencer na Vida Sem Fazer Força” como um encontro de gerações. A “Folha de São Paulo”, por exemplo intitulou sua matéria como “Comédia musical aproxima gerações do humor”, já o “Globo começa seu texto com “Quase 38 anos separam os atores Luiz Fernando Guimarães e Gregorio Duvivier. De gerações distintas, mas…”.

Se o Globo e a Folha não souberam sair do apelo fácil, quem sou eu para fazê-lo? É impossível negar que tal encontro geracional dá um grande sabor e gera imensa expectativa, afinal Luiz Fernando Guimarães é um dos melhores e mais engraçados atores do Brasil há décadas, enquanto Gregorio Duvivier é, ao lado de Marcelo Adnet, o mais interessante humorista surgido nos últimos 10 anos no cenário nacional.

Além de sua dupla de protagonistas, o simples fato de ser um musical de Charles Möeller e Claudio Botelho faz com que ansiosos, como eu, ficassem contando os dias para sua estreia. A angustiante espera não foi em vão. “Como Vencer na Vida Sem fazer Força” cumpre tudo o que promete. É um maravilhoso espetáculo.

Trata-se da versão nacional de “How to Succeed in Business Without Really Trying”  que foi lançada na Broadway em 1961, com texto de Abe Burrws, Willie Gilbert e Jack Weinstock, com músicas de Frank Loesser e coreografia de Bob Fosse.  Em 1995 Matthew Broderick trouxe a peça de volta, alcançando enorme sucesso e ainda ganhou o prêmio Tony. A primeira vez que foi encenada no Brasil foi em 1964, no Teatro Carlos Gomes. Tinha no seu elenco Procópio Ferreira, Moacyr Franco e Marília Pêra, numa tradução de, pasmem, Carlos Lacerda. A história é um grande deboche com o mundo corporativo e os manuais de autoajuda que tinham como objetivo dar um empurrãozinho na carreira de ambiciosos e megalômanos executivos. Um tema atual não só hoje, como será ainda por um longuíssimo tempo, afinal puxar o saco e derrubar o colega continua existindo em todo lugar.

O mercado dos livros de autoajuda corporativos que tiveram seu boom nos Estados Unidos nos anos 50 e aqui mesmo no Brasil transformou, já nos anos 80, nomes como Lair Ribeiro em um milionário vendedor de livros. Em tempos mais atuais, esse universo vive assolado pelos “consultores de RH”, que ganham fortunas fazendo palestras motivacionais nas grandes empresas, completamente desconectados da realidade e que parecem ter seus discursos extraídos de manuais de MBA da Fundação Getúlio Vargas, das quais volta e meia eu mesmo sou obrigado, por força do ofício, a participar.

Mas voltando a falar do espetáculo de Möeller e Botelho. Nessa nova versão nacional é impossível tirar o olho em cena dessa dupla formada por Guimarães e Duvivier. Ambos surpreendem permanentemente e transbordam carisma. Cantam, dançam e arrancam gargalhadas da plateia da primeira a última cena. Luiz Fernando interpreta JB Biggley, o chefe da grande corporação World Wide Rebimboca Company, empresa cuja verdadeira atividade em nenhum momento fica clara, parece que nem mesmo para seus funcionários. Já Gregorio interpreta o ambicioso limpador de vidraças J. Pierrepont Finch, que tem carreira meteórica dentro da empresa, graças aos conselhos de seu inseparável livro de autoajuda, muita esperteza, puxadas de tapete e bastante bajulação. Mas não fazem isso sozinhos, o ótimo elenco da peça dá a Guimarães e Duvivier todo o suporte necessário para exibirem seu enorme talento, graças a nomes bastante experimentados como Adriana Garambone, maravilhosa em cena como a burra secretaria Hedy LaRue, contratada por sua “competência” e “colaboração”, não necessariamente profissional, com JB Biggley; a solteirona, prepotente e amarga secretaria do grande chefe, interpretada por Ada Chaseliov, mas que se deixa seduzir pela primeira puxada de saco que recebe de Finch; a ingênua, romântica e doce secretaria Rosemary, interpretada por Leticia Colin; a divertida Smitty, interpretada pela sempre carismática  Gottsha; e mais 13 ótimos atores/cantores/bailarinos, permanentemente e harmonicamente em cena.

A peça recria com grande competência todos os ambientes típicos das grandes empresas, com locais propícios para muita intriga, lobbys e alianças, como o coffee break, gabinetes e saguões. Para criar toda essa ambientação, os cenários que vão e voltam ao longo de toda a peça, utiliza 6 painéis que correm, que vão se transformando e mudando os ambientes. Essa cenografia é assinada por Rogério Falcão, que consegue imprimir com seus cenários a sensação de opressão do indivíduo diante grandiosidade da força avassaladora do poder capitalista numa Nova York dos anos 50 e 60, num estilo puxado para o art déco.

Já a direção musical é de Paulo Nogueira, que conta com belas versões para as canções assinadas por Claudio Botelho, realçadas ainda pela ótima coreografia de Alonso Barros, que contribui decisivamente para a narrativa, que mesmo em números musicais com várias coisas acontecendo simultaneamente em cena, o espectador jamais perde a visão global e o foco no todo.

Como Vencer na Vida Sem Fazer Força”, é mais um trabalho perfeito da dupla Möeller e Botelho, com o respaldo de uma equipe que exacerba competência e criatividade. O espetáculo fica em cartaz por 4 meses no Teatro Oi Casa-Grande e depois segue em agosto para São Paulo.


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