Corações Sujos


 

Cotação: Bom.

Quando soube que “Corações Sujos”, o excelente livro escrito de Fernando Morais, iria ganhar uma adaptação cinematográfica fiquei imaginando o filmaço que poderia se transformar, tamanho o potencial que havia para a narração fluida e instigante que Morais imprimiu ao seu livro e pelos pequenos dramas dentro de uma grande história real.  Mas infelizmente o roteiro escrito por David França Mendes para essa adaptação dirigida por Vicente Amorim não conseguiu imprimir a força da história que tinha nas mãos. Não que o filme seja ruim, mas é frustrante quando se vê uma grande história ser desperdiçada.

O filme narra a história de um conflito ocorrido no seio da comunidade japonesa de São Paulo, logo após a 2ª Guerra Mundial, aonde há a relutância em reconhecer que o Japão tenha se rendido para o exército aliado. Quem acredita na “propaganda enganosa” da derrota do “invencível exército imperial japonês”, que em 2600 anos jamais perdeu uma guerra, é um derrotista, um coração sujo, que merece a morte por traição à pátria.

O grande problema do filme é que faz com que uma organização grande e poderosa como a Shindo Remnei(que não tem sequer o nome citado no filme) pareça apenas um grupelho de fanáticos, quase que paroquiais, que saem a assassinar vizinhos, quando na verdade o movimento da seita foi muito mais amplo e contundente. Para se ter uma ideia do tamanho do alcance dessa organização, havia na comunidade japonesa algo em torno de 200 mil imigrantes no estado de São Paulo e a Shindo Remnei percorreu todo a região realizando atentados que levaram à morte de 23 pessoas e deixaram mais de 150 feridos. Mais de 30 mil suspeitos foram presos, 381 condenados e 80 deportados para o Japão.

Mas o filme tem virtudes, principalmente nas interpretações. Amorim foi muito feliz na escolha do elenco, composto basicamente por atores japoneses. Se fosse um filme de Bruno Barreto ou Jaime Monjardim iriam fazê-lo todo falado em português(quiçá em  inglês, no caso de Barreto) com atores “japoneses” made in Brazil e ainda iriam colocar a Dani Suzuki como heroína do filme. Mas Amorim preferiu um tom mais realista, com quase todos os diálogos em japonês e foi bem sucedido no seu objetivo. Aliás, deve ser dificílimo dirigir um filme inteiro numa língua que se desconhece, trabalhando intenções e emoções. As interpretações do elenco japonês de Amorim está no tom correto, exprimindo toda a angústia, dúvidas e dramas dos personagens, principalmente Tsuyoshi Ihara(que atuou também em “Cartas de Iwo Jima”, de Clint Eastwood) e Takako Tokiwa.

Dizem que uma bela trilha sonora é aquela que quando entra o espectador nem percebe. Não é o caso de “Corações Sujos”, cuja trilha é grandiloquente e incomodativa. Aparece a todo o instante, marcando presença mais do que seria necessário para pontuar os momentos dramáticos. Não chega a ser melosa como aqueles violinos cafonas de “Olga”, mas martela a cabeça do espectador.

Corações Sujos” é um filme de altos e baixos, mas trata-se de uma história importante e pouco conhecida de um passado recente e que merece ser descoberta pelo grande público.


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