Crítica: 1789


 

 naestante22

.

4-estrelas12 Um dos aspectos que mais me agradam no interesse cada vez maior de jornalistas em contar a história do Brasil é a contribuição que tem dado para a difusão e a amplificação do seu estudo, ajudando a desmistificar alguns mitos que ainda estão incrustados no inconsciente coletivo. Não me recordo de nenhuma revelação que os acadêmicos da história já não tenham divulgado, mas possuem inegavelmente uma maior fluidez no seu texto e um rigor com a apuração dos fatos, tal como sempre fizeram em todas suas carreiras na redação de um jornal ou uma revista.

Um dos nomes que começa a despontar como importante figura desse movimento é Pedro Doria, editor-executivo e colunista do jornal “O Globo” que lançou há cerca de 2 nos atrás o livro “1565”, abordando a fundação do Rio de Janeiro, livro sobre o qual falamos AQUI. Doria acaba de lançar mais um livro, dessa vez colocando seu foco no final do século XVIII através de “1789”,lançado pela Editora Nova Fronteira, aonde conta a história não só de Tiradentes, o que poderia parecer óbvio, mas não é. O trabalho de Doria abrange o movimento como o todo, aonde procura levantar todos os nomes e fatos que deram origem “Inconfidência Mineira”. A intenção de Doria já se explicita na própria capa através do subtítulo “A História de Tiradentes e dos contrabandistas, assassinos e poetas que lutaram pela independência do Brasil”.

Doria não se deixa cair nas armadilhas que o tema poderia lhe conferir, consegue se desvencilhar de todas. Foge dos romantismos, dos mitos e da pureza que o tema levanta. Tal como “1565”, nesse novo livro também não faz nenhuma nova revelação, mas consegue contar uma história com todo o rigor de apuração que se exige de um jornalista.

Embora o livro comece sua narrativa com o episódio da prisão de Tiradentes, através do capítulo “Um Homem Chamado Liberdade”, Doria não poupa o herói da inconfidência com adjetivos que não combinam com a imagem moldada que se criou em torno de si pelos mais diferentes interesses. Sobre esse homem, Doria qualifica ao longo do livro:

“Não é à toa: era um empolgado”

“Homem de pouca capacidade, maníaco, louco”

Cita mesmo o posicionamento de outros inconfidentes, após a prisão, como o também inconfidente  Manuel da Costa que sugere um perfil inconsequente para o alferes. Ainda afirma sobre os outros participantes do movimento:

“em todos os depoimentos do processo que buscou apurar a conspiração dos mineiros, quem pôde tentou se afastar do menos discreto de todos os réus”

Continua Doria:

“Muito menos era, como leram alguns, um dos menos capazes de exercer influência. Seus últimos dias de liberdade no Rio mostram um dos traços mais notáveis de sua personalidade: a capacidade de envolver gente de todas as classes, de seduzir, de cultivar alianças. Assim como mostram sua inconsciência, seu agir sem pensar pela ansiedade, sua exposição demasiada. No período de prisão apenas um detalhe o distingui dos outros: após inúmeros interrogatórios, foi o único réu confesso”

A mais perfeita definição de Doria, que coincide em muito com a minha visão pessoal do mito Tiradentes, se encontra nesse parágrafo:

“E há Tiradentes. Em seus primeiros três depoimentos, não diz quase nada. No quarto, em janeiro de 1790, confessa. E persiste réu confesso, se posicionando na liderança do movimento e aliciador de todos, a partir daí. Herói, talvez. Ou ególatra.

Possivelmente ambos”

Mas como já informamos, Tiradentes é apenas um de vários personagens do livro, um dos principais, mas não o único. Doria é extremamente feliz em fazer um levantamento minucioso não só de Vila Rica como de outras importantes cidades da região. Sobre Vila Rica, existe inclusive um mapa da cidade com a localização precisa da casa de alguns dos principais envolvidos com o levante.  Detalha a vida de cada um daqueles homens condenados e de certa forma um tanto desprezados pela história, como se tivessem “deixado Tiradentes na mão”, quando, independente da confissão foram todos condenados e sofreram demasiadamente em prisões e degredos. São nomes como Tomás Antônio Gonzaga, personagem interessantíssimo, excepcional poeta que no final do processo foi condenado ao degredo e Angola, Padre Carlos Correia de Toledo, Padre José da Silva e Oliveira Rolim(outro personagem que desperta grande atenção), José Álvares Maciel, Inácio José de Alvarenga Peixoto, entre outros, todos citados individualmente por Doria, lógico que também há espaço para entendermos(não justificarmos) Joaquim Silvério dos Reis.

Tudo isso contado com um ótimo recorte, montando todo um quebra-cabeça para o leitor, até o momento em que o movimento da Inconfidência começa a tomar sua forma, quando:

No final da tarde, chovia. A água corria rápido, desviando dos pés de moleque às vezes pontiagudos, noutras roliços. Ladeira abaixo. Rua Direita, direção de Ouro Preto. Fazia um friozinho mineiro. O sobrado do tenente-coronel Francisco de Paula Freire, oficial comandante dos Dragões de Minas…A noite já ameaçava cair quando os homens começaram a chegar, de capotes e botas, seus cajados à mão. Uns vestiam uniformes militares, galões dourados nos braços. Outros, roupas civis. Havia ainda que usasse batina. Vinham de toda parte da capitania…Alguns eram jovens, outros mais velhos. Uns muitos ricos, outros iam levando. Vinham conversando sobre o mesmo tema, conversas sempre furtivas, fazia meses. Conversavam entre si, mas nunca todos juntos, reunidos.

Era hora: 26 de dezembro, 1788”

Após o golpe ter sido sufocado, Doria traça um panorama do comportamento de cada um durante a fase de apuração:

E, naquele primeiro depoimento, enquanto seus amigos se faziam de desentendidos, incriminou a todos um por um, Incluindo o próprio governador, visconde de Barbacena. Quando o dia amanheceu, seu corpo pendia, o pescoço atado a um cadarço vermelho…”(sobre Claudio Manuel da Costa)

“Durante os depoimentos, houve os dignos. Homens como Gonzaga e o cônego Vieira da Silva. Inteligentes, treinados, não assumem culpas, não denunciam ninguém, se fazem desapercebidos. Há os que desmontam. Claudio. E o outro poeta. Em seu segundo depoimento, Alvarenga Peixoto entra num longo e confuso discurso bajulador, recheado de expressões em latim fora de contexto e citações mitológicas. Aí, de repente, se perde e solta uma confissão em jorro, cheia de detalhes. Ao mesmo tempo em que tenta se distanciar, se mostra cada vez mais conhecedor de todo o planejamento. Alguns simplesmente contam o que sabem. Casos dos padres Rolim e Toledo.”

E no final o que foi feito de cada um, a vida que levaram(ou deixaram de levar) após a condenação e a pena que foram-lhes imputadas.

Por fim, conclui:

“A inconfidência Mineira não foi o único movimento pela independência brasileira nas décadas anteriores a 1822. Talvez sequer tenha sido o mais bem-organizado. Mas possivelmente foi o movimento pela independência que envolveu mais gente em mais estados. Nenhum outro grupo contou com tantas mentes brilhantes, tantas personalidades carismáticas ou terminou de forma tão simbólica, na forca, com um mártir esquartejado. E dificilmente outro ensinou tanto a Portugal sobre os limites do seu poder”.

Doria conseguiu fazer um livro amplo, completo, contando informações somente necessárias, resumindo de maneira eficiente toda a história da inconfidência em 270 páginas. Ou seja, não é preciso se escrever necessariamente um tijolo para se resulte um livro com todas as informações necessárias para quem quer ter um bom conhecimento sobre o tema, sem manipulações e romantismos.

É chavão dizer que o livro daria um belo filme, até porque nenhum dos 3 filmes que vi sobre o episódio me agradam nem um pouco, nem mesmo o de Joaquim Pedro de Andrade, “Os Inconfidentes”. O excesso de personagens talvez acabassem por ceifar boa parte do seu conteúdo e entendimento. Mas que daria uma bela minissérie, é algo que deveria se pensar com seriedade.


Palpites para este texto:

  1. Concordo com sua avaliação e que daria um filme interessante. No entanto, fiquei um pouco perdido, não sabendo mais quem era quem, durante a leitura. Gosto do capítulo final, no qual o autor, além de comentar a bibliografia utilizada, deixa claras suas opiniões – o que, infelizmente, não acontece ao longo da narrativa. Em alguns momentos fiquei na dúvida se era a opinião do autor ou uma evidência histórica (e quem afirmava tal evidência).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

outubro 2017
D S T Q Q S S
« set    
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031