Crítica: 1889


 

 

O lançamento de “1889” marca o fim de uma bem sucedida trilogia escrita pelo jornalista Laurentino Gomes sobre o século XIX, iniciada com “1808”, passando por “1822”, até que agora chegamos aos eventos que acabaram dando na Proclamação de República.

O trabalho realizado por Laurentino Gomes é de alta relevância porque conseguiu levar para o grande público os principais acontecimentos da vida nacional em um século fundamental para a formação e consolidação do país que temos. Atingiu com seus livros um enorme leque de leitores e mostrou que existe um grande contingente de pessoas dispostas a estudar e devorar nossa história e talvez não o fizessem pela então falta de opções mais palatáveis e menos acadêmicas, algo que mudou nos últimos anos e que não se resume a Laurentino, mas certamente o tem como figura de proa, afinal, até o momento são mais de um milhão e meio de livros vendidos(pouquíssimos vendem tanto no Brasil quanto Laurentino), inúmeros prêmios(incluindo até o momento 4 Jabutis), transformando seus livros em um enorme êxito editorial. Quando falamos de êxito editorial estamos nos referindo a algo muito maior que simplesmente vender muitos livros.

Com “1889”, Laurentino mantém a mesma linguagem direta e objetiva dos livros anteriores, que tão bem o jornalista Klester Cavalcanti definiu para o Botequim Cultural em uma entrevista:

“O Laurentino tem um texto de revista, um texto de Veja, muito agradável de ler, com uma linguagem que chega ao grande público…Acho o Laurentino fantástico e as pessoas estão entendendo a história do Brasil de uma maneira agradável, pop, sem academicismo e com sabor”.

Klester Cavalcanti foi muito feliz e soube sintetizar em poucas linhas as qualidades de Laurentino, embora, dependendo do ponto de vista, tais afirmações possam ser um demérito, já que existe atualmente um grande debate nos meios literários e acadêmicos sobre a presença cada vez maior de jornalistas no campo da história, aonde Laurentino Gomes aparece em destaque e também sob fogo cerrado. Sobre esse assunto, com sua postura sempre elegante costuma ser diplomático e sai pela tangente do debate, como recentemente nos afirmou em entrevista (AQUI) que nos concedeu:

Às vezes encontro algum antagonismo, mas procuro não me preocupar muito com isso. Felizmente são casos isolados”.

Como não poderia deixar de ser, em “1889”, Laurentino usa a mesma fórmula dos trabalhos anteriores. Não trabalha em ordem cronológica, procura narrar os acontecimentos que deram no 15 de novembro focando em capítulos temáticos. Há capítulos dedicados vultos envolvidos, dos dois lados: “O Marechal”, “O Professor”, “D Pedro II”, “A Redentora”. Sobre movimentos e grupos determinantes como “A Mocidade Militar”, “Os Abolicionistas”. Análises de contexto: “O Império Tropical”, “O Século das Luzes”. Sobre fatos determinantes como “O Baile”, “A Queda” e o mais interessante para mim, “O Golpe”, aonde narra em pormenores toda a movimentação do dia D que deu na queda definitiva da Monarquia. Vai montando ao longo do livro de maneira “aleatória” um mosaico que nos leva ao entendimento global da Proclamação da República.

Laurentino não trás nenhuma revelação que já não seja de conhecimento público e nem procura fazer julgamentos, mas sabe fazer com maior clareza interessantes análises, como por exemplo, a República se impôs mais pela fragilidade da Monarquia do que necessariamente pelo vigor do movimento republicano, ou como Deodoro foi utilizado mais como instrumento de um golpe de estado do que como o líder de um movimento ideológico que visava mudar a forma de governar o país. Assim como alguns fatos curiosos são levantados, quase pitorescos tal como uma mera disputa por uma bela viúva pode ter mudado os rumos da história do país e que Deodoro, ao contrário do que aprendemos nos bancos escolares, em nenhum momento do dia 15 de novembro proclamou a República.

Como a formação do Brasil foi feita de cima para baixo é também algo destacado, aonde em todos os momentos Laurentino realça a falta do elemento “povo” e de um país que permaneceu apático diante da importância do episódio que ali se desenrolava por conta daqueles militares sobre cavalos marchando sobre as principais ruas do Centro do Rio de Janeiro enquanto a família imperial era escorraçada do país.

Outro fato muito bem destacado e realçado é a maneira como grupos pertencentes ao poder então vigente abandonam o barco afundando para fazer parte da nova ordem instituída. Tal situação ganha grifo e síntese no telegrama que o capitão Felicíssimo do Espírito Santo(bisavô de Fernando Henrique Cardoso) envia ao filho, que a luz dos nossos dia se torna uma engraçada ironia:

 Vocês fizeram a República que não serviu para nada. Aqui agora, como antes continuam mandando os Caiado”.

As reflexões são fundamentais para compreendermos o que somos nos dias atuais. O caráter e a formação do povo brasileiro tem naqueles dias parte de suas raízes plantadas e para isso, Laurentino Gomes dá sua contribuição para um melhor e mais claro entendimento, num livro extremamente prazeroso de se ler. Como ninguém. Laurentino é um mestre em descrever “como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil”.

Crédito das fotos: Alexandre Battibugli


Palpites para este texto:

  1. Jose Carlos Mota Recacho -

    Gostei bastante do três livros do autor Laurentino Gomes , foram objetivos, esclarecedores, fornecendo um grande conhecimento da Historia do Brasil monárquico e inicio da Republica Federativa.

    Parabéns

  2. GOSTEI BASTANTE DOS TRES,MAS O MEU PREFERIDO FOI 1822

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