Crítica: 2500 Por Hora


 

2500 por hora 1

Por Renato Mello.

O Teatro Oi Futuro do Flamengo está apresentando o espetáculo teatral “2500 Por Hora”, com direção de Moacir Chaves, numa temporada que se estenderá até o dia 30 de agosto.

Escrito originalmente em 1997 por Jacques Livchine,  2500 à l’heure” tem uma  premissa ousada: Contar 2500 anos da história do teatro num espaço de tempo de pouco mais de 1 hora. A partir da apresentação e representação de 5 atores, dá-se início à execução da tarefa proposta, desrespeitando alegremente a cronologia do tempo, começando por Pirandello, voltando ao teatro de Eurípedes, vindo para Feydeau e passa quase que anarquicamente por Shakespeare, Tchecov , Molière, Brecht e todos que realmente importaram para a história do teatro universal ao longo dos séculos.

A ideia é bastante instigante, mas do ponto de vista teórico parecia-me de antemão uma proposta de difícil concretização. Na prática tal fato acabou por se confirmar com uma dramaturgia confusa e pelo modo corrido como realiza a costura dos diferentes tempos e contextos históricos. Embora à princípio a proposta seja justamente essa velocidade, a complexidade e heterogeneidade da abordagem resultou num espetáculo irregular.  Apesar disso, “2500 Por Hora” tem méritos e bons momentos, principalmente para os apaixonados pela arte teatral, criada e desenvolvida através desses séculos pela necessidade que os homens tem de se reunirem para ouvir e contar histórias.

A tradução e adaptação realizada por Monica Biel inseriu algo do contexto nacional, sendo a princípio bastante original a ideia de encenar todas as 17 peças de Nelson Rodrigues em 3 minutos. Feito de forma divertida e propositalmente atabalhoada, com muita correria e trombadas em cena, porém depois da 10ª peça a sequência começa a se tornar cansativa.

Tal como a construção da dramaturgia do espetáculo, a direção de Moacir Chaves apresenta altos e baixos, com a criação de sequências bastante divertidas, como quando encenam Feydeau ou Molière e outras mais arrastadas. Utiliza de modo inteligente o exíguo espaço cênico do teatro e consegue realizar uma direção de atores bastante competente. Um aspecto que me desagrada em particular é o artifício de incumbir de modo excessivo os atores a tarefa de mudança de ambientes e cenários, o que do meu ponto de vista quebra o ritmo do espetáculo.

O elenco é um dos pontos altos. Composto por Claudio Gabriel, Henrique Juliano, Júlia Marini, Joelson Medeiros e Monica Biel, formam uma equipe homogênea e de grande empatia com o público. Destaque para Claudio Gabriel, ator que tem uma fácil comunicação com o público, bela presença e sabe utilizar o humor com grande maestria. Joelson Medeiros, um brilhante ator que este ano tive a oportunidade de assistir numa bela atuação como Charles Bovary, também tem ótima participação, com um destaque especial para sua representação de Molière, que arranca gargalhadas do público pelo modo como o ator parece se divertir em cena remexendo a característica peruca desse grande mestre da comédia satírica. Julia Marini, excelente atriz, com um ótimo uso da expressão corporal, enorme capacidade de emocionar para em seguida partir para o humor acentuado.

O cenário assinado por Sérgio Marimba é móvel, funcional e para compor épocas tão distintas, optou por uma concepção atemporal, sem deixar nenhum tipo de marca de época.  Uma avaliação correta para o desenvolvimento do espetáculo.

O trabalho realizado por Inês Salgado é primoroso e de um enorme grau de dificuldade, tendo que trabalhar figurinos desde o teatro grego até épocas mais próximas. Tudo muito bem contextualizado, adequado e bom gosto. Excelente trabalho!

Aurélio di Simoni mais uma vez criando um ótimo desenho de luz que em determinados momentos interage e realiza um jogo cênico com os atores.

Apesar de falhas, a maioria inerente ao desafio proposto, “2500 por Hora” é um espetáculo que tem um interessante resultado final, oferecendo um mergulho apaixonado ao que de mais belo e relevante o teatro nos proporcionou nesses últimos 2500 anos.

FOTO © GUGA MELGAR

FICHA TÉCNICA
Autor: Jacques Livchine e Hervée de Lafond
Tradução e Adaptação: Monica Biel
Direção: Moacir Chaves
Elenco: Claudio Gabriel, Henrique Juliano, Júlia Marini, Joelson Medeiros e Monica Biel
Músicos: Miguel Mendes e Tomás Correia
Figurinos: Inês Salgado
Cenário: Sergio Marimba
Direção Musical: Miguel Mendes e Tomás Correia
Iluminação: Aurélio de Simoni
Boneco: Marcio Newlands
Fotos: Guga Melgar
Programação Visual: Sandro Melo
Produção Executiva: Jaqueline Roversi
Direção de Produção: Monica Biel
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Realização: BB Produções Artísticas Ltda

SERVIÇO
2.500 Por Hora
Autor: Jacques Livchine e Hervée de Lafond
Tradução e Adaptação: Monica Biel
Direção: Moacir Chaves
Elenco: Claudio Gabriel, Henrique Juliano, Júlia Marini, Joelson Medeiros e Monica Biel
Músicos: Miguel Mendes e Tomás Correia
Sinopse: Cinco atores e dois músicos “contam” de forma humorada parte da história de 2.500 anos de teatro.
Temporada: De 2 de Julho até 30 de agosto, de quinta a domingo às 20h. Nos dias 30/07 e 20/08 não haverá espetáculo, a reposição será nos dias 05 e 12/08, quarta-feira, às 20h.
Local: Teatro Oi Futuro Flamengo. Rua Dois de Dezembro 63, Flamengo (tel. 21 3131-3060)
Lotação do teatro: 63 pessoas
Ingressos: R$ 20,00 (inteira)
Classificação indicativa: 12 anos
Gênero: Comédia

 


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