Crítica: A Arca de Nina


 

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Por Renato Mello

Apesar de somente quatro apresentações no Parque das Ruínas em Santa Teresa, deixa o ensejo para um retorno em temporada mais consistente, dada a representatividade no universo do teatro infanto-juvenil dos criadores envolvidos.

Com direção de Flavia Lopes e Marise Nogueira a partir de dramaturgia de Aline Macedo em processo colaborativo, “A Arca de Nina”, segundo os apontamentos de sua própria sinopse oficial, conta a história de “uma menina de oito anos que escolheu viver num pequeno mundo inventado no seu porãozinho. Nina confecciona seus próprios bichinhos de estimação, já que ela não pode ter um. Ela está construindo uma arca para levar embora todos os animais e ficar bem longe dos adultos. A mãe de Nina é uma doçura e presenteia a filha com uma câmera para registrar suas aventuras na arca. O equipamento atiça Larissa, uma lagartixa estudante de cinema que mora no porão. Então começa a brincadeira”.

A proposta de Flavia Lopes e Marise Nogueira chama prioritariamente a atenção pela comunhão de diferentes linguagens para construir um conceito cênico expandido na sua  utilização de máscaras  e na técnica da manipulação de bonecos.

Em relação às máscaras cabe ressaltar que ambas diretoras são referência na sua utilização, no caso específico de Flavia Lopes com seu trabalho junto da Companhia dos Bondrés de Fabianna de Mello e Souza, e conjuntamente com Marise Nogueira a frente do Atelier Gravulo, responsável pela confecção de máscaras para uma série de bem-sucedidos espetáculos do segmento infantil que se apresentaram neste ano, como “A Feira de Maravilhas do Barão de Münchausen”, “A Lenda da Menina Água” e “Um Sonho para Méliès”.

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A direção de manipulação coube a outra importante referência, Marcio Nascimento, ator de inestimável contribuição para companhias alicerçantes do teatro infantojuvenil, como a PeQuod e a Artesanal Cia de Teatro.

Ainda dentro de uma linha mais generalista sobre “A Arca de Nina” ressalta-se a utilização da linguagem do audiovisual, algo que também foi muito presente no trabalho anterior de Flávia Lopes, o adorável “Um Sonho Para Méliès”, embora naquele caso o cinema inseria-se com um aspecto mais onírico e explorando uma dramaturgia que de algum modo caminhava contígua ao desenvolvimento da linguagem cinematográfica em seus primórdios. Já em “Arca de Nina” o cinema permeia boa parte da representação nas referências e citações inseridas nos próprios diálogos(de Glauber Rocha a Copolla), nas analogias e nas interações entre a representação viva do palco com  as cenas expostas na tela.

A partir dessas 3 linguagens, da manipulação, máscaras e cinema, ergue-se a construção narrativa que pelas suas diferentes origens deflagram naturalmente um grau de dificuldade na sua harmonização, mas sua formatação resulta positiva e com capacidade de conduzir a encenação sobre temáticas de fundo que igualmente tem desafios para expor-se, como a questão da incomunicabilidade e do amadurecimento. A ressalvar que uma encorpada na dramaturgia seria bem acolhida, pois ainda se percebe espaços a serem ajustados para azeitar mais o texto.

A direção de Flávia Lopes e Marise Nogueira demonstra extrema inventividade, apresentando ótimas soluções cênicas que contribuem para a fluidez da apresentação e com capacidade para gerar encantamento, como a sequência inicial, que com artifícios simples criou um efeito visual belíssimo com planetas “flutuando” pela ambientação, com a conjunção do trabalho físico dos atores, a iluminação de Ana Luzia Molinari de Simoni e a bela trilha sonora. Outra técnica que gerou um ótimo resultado, com influência da linguagem dos cartoons, foram as cenas das pernas cortadas, que acabam por sugerir e contextualizar o entorno da personagem central. Assim como o diálogo entre palco e tela insere uma dinâmica que dá um real ganho na exposição da história contada.

A interpretação e manipulação é feita por Flavia Lopes, Marise Nogueira, Nina Krieger e Tatianne Santoro. Mais do que em qualquer outra circunstância, sendo quase redundante afirmar que o trabalho coletivo se faz necessário num processo de interpretação em que 3 atores(Flavia, Marise e Tatianne) compõem 1 personagem(no caso, a menina Nina). Nina Krieger, a lagartixa, e Marise Nogueira, responsável por dar voz e inflexões para a personagem Nina, formam uma dupla empática. Nina Krieger exprime-se gestualmente com segurança, expressividade e excelente trabalho de voz, enquanto Marise Nogueira ao assumir os comandos emocionais do personagem manipulado, exprime com acerto e sensibilidade os aspectos centrais de suas angústias e aflora as limitações da pequena Nina.

Os cenários de Tuca contribuem pela sua engenhosidade de maneira positiva para a criação cênica e às necessidades dramatúrgicas. Destacável igualmente o belo trabalho da trilha sonora, com direção musical de Wagner Barreto e músicas gravadas com Nina Krieger. Assim como a direção audiovisual de Guilherme Fernandes enriquece sobremaneira o desenvolvimento cênico e dramatúrgico, explorando com eficiência a movimentação da câmera para gerar sensações distintas, de graça, humor e mesmo de estranhamento.

Figurinos são assinados por Cris Muñoz, que em muitas situações desempenham propositalmente um papel coadjuvante para ressaltar a utilização das técnicas de manipulação. Ana Luzia Molinari de Simoni cria um desenho de luz eficiente e que impulsiona a capacidade cênica das diretoras.

Findas as festas de fim de ano, resta-nos aguardar “A Arca de Nina” em uma maior temporada para encontrar seu merecido público.

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Ficha técnica:
Direção: Flávia Lopes e Marise Nogueira
Interpretação e manipulação: Flávia Lopes, Marise Nogueira, Nina Krieger e
Tatiane Santoro
Direção Musical: Wagner Barreto
Direção de Manipulação: Marcio Nascimento
Dramaturgia em processo colaborativo: Aline Macedo
Direção audiovisual e designer: Guilherme Fernandes
Cenários: Tuca
Figurino: Cris Muñoz
Adereços: Juliana Mangorra
Criação e confecção de Mascaras e bonecos: Flávia Lopes e Marise Nogueira
Supervisão de confecção da boneca Nina: Maria Adélia
Iluminação: Ana Luzia Molinari de Simoni
Produção:Pagu Produções Culturais.
Assessoria de imprensa: Lyvia Rodrigues\Aquela que Divulga.
Preparação vocal: Verônica Machado.
Terapeuta corporal: Viviane Vargas
Gravação de trilha sonora: Nina Krieger e Wagner Barreto.
Músicos: Leonardo França, Raphael Freitas, Lis Santos, Dí Luthigardes e Aline Macedo.


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