Crítica: A Estrela Sobe


 

ENSAIO ESTRELA 16_face

Por Renato Mello

Uma obra envolvente e fundamental para compreendermos o estrato social brasileiro da década de 40, “A Estrela Sobe”, escrito por Marques Rebelo, carrega na sua essência uma riqueza de possibilidades tão grande que lhe asseguraram manter-se como importante expressão artística quando adaptada para o cinema por Bruno Barreto. Por melhores expectativas que tivesse, me deixa frustrado que o mesmo não tenha ocorrido com seu primeiro tratamento teatral.

A Estrela Sobe” cumpriu temporada até o último dia 2 de julho na Arena do Sesc Copacabana, sob direção de João Batista, numa adaptação dramatúrgica de Marcus Alvisi.

Ambientado no Rio de Janeiro, então capital cultural do país e de onde se difundiam as tendências, modas e os sucessos que formariam a base da história de nossa música, em plena era de ouro do rádio, conta a história de Leniza Mayer(Andressa Bonatto), vendedora de produtos de um laboratório farmacêutico que ambiciona ser uma cantora do rádio. Para alcançar seus objetivos, se vale do todos os meios, “inclusive recusando o amor verdadeiro para com outros, menos sinceros e mais vantajosos”.

Adaptar um romance é sempre um processo tortuoso. Há que se fazer escolhas, ainda mais, como já mencionei, quando a obra matriz aponta para vários caminhos e sem se preocupar com os espaços temporais para os infindáveis voos que só a literatura propícia. Marcus Alvisi não obteve êxito em suas opções e acabou construindo uma dramaturgia que tenta apontar justamente para vários caminhos, mas não se aprofunda em nenhum deles e sem fazer com a mesma maestria do autor as alterações nos personagens quando afetados diretamente pelas mudanças de ambientes. As ações e intenções passam batidas no dimensionamento da toda a carga social e psicológica descrita na obra de Marques Rabelo, se tornando pueril no texto de Alvisi, sem jamais delinear os traços da profundidade que move sua protagonista.

Quando a base dramatúrgica já se revela falha, a construção do espetáculo se torna árdua, como que se tentar consertar um avião em pleno voo. A direção de João Batista não encontra uma formatação cênica que dê consistência para a proposta, com uma disposição que não me parece adequada, movimentações que dispersam a intensidade narrativa e construções de quadros que pouco acrescentam na acentuação dramática.

O elenco, segundo o apontamento que recebi, seria formado por Andressa Bonatto(Leniza Mayer), Leandro Caris(Mário Alves), Ivone Hoffmann(Dona Manuela),  Douglas Amaral(Astério e Porto),  Antonio Alves(Sr. Martin),  Daniel Dalcin(José Carlos Oliveira), Gedivan Albuquerque(Seu Alberto) e Bel Machado(Dulce Gonçalves). Salvo não ter compreendido bem o  discurso final dos atores ao final da apresentação, houve 2 substituições na sessão que assisti, mas não consegui até a publicação desta crítica a confirmação dos nomes. Numa análise geral, a direção de atores de João Batista não conseguiu modular as tonalidades, com atuações destoantes dentro de um mesmo quadro, prejudicados pela fragilidade na construção dramatúrgicas de seus personagens e suas morais relativas, incluindo a protagonista Leniza Mayer.

A cenografia desenhada por Doris Rollemberg se constrói por 2 estruturas em lados opostos da arena e algumas cadeiras, que a partir de suas disposições busca alterar as ambientações, seja a pensão, um estúdio de rádio, um consultório médico. Os figurinos de Mauro Leite realizam boa  pesquisa de época, se adequando corretamente nas exigências do meio retratado.

A direção musical de Edvan Moraes acompanha os números musicais através de violão, percussão e teclado. Independente do responsável pela escolha das músicas, entendo que havia melhores opções musicais, mesmo no caso de “Hymne à l’Amour”, uma das mais belas canções desse período, mas numa versão em português.

A Estrela Sobe” é uma obra capaz de impulsionar uma montagem teatral aos mais altos níveis, mas a inexatidão existente em qualquer possibilidade artística fez-me deixar o teatro com uma ponta de amargura.

FICHA TÉCNICA
Texto: Marques Rebelo
Adaptação e dramaturgia: Marcus Alvisi
Direção: João Batista

Elenco / Personagens:

Andressa Bonatto / Leniza Mayer
Leandro Caris / Mário Alves
Ivone Hoffmann / Dona Manuela
Douglas Amaral / Astério e Porto
Antonio Alves / Sr. Martin
Daniel Dalcin / José Carlos Oliveira
Gedivan Albuquerque / Seu Alberto
Bel Machado / Dulce Gonçalves

Cenário: Doris Rollemberg
Figurino: Mauro Leite
Iluminação: Renato Machado
Diretor Musical: Edvan Moraes
Direção de Movimento: Dani Cavanellas
Fotografia: Lucio Luna
Projeto Gráfico: Raquel Alvarenga
Direção de Produção: Andressa Bonatto
Produtor Executivo: Leandro Caris
Realização: Andressa Bonatto, Leandro Caris e SESC Rio
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação


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