Crítica: A Festa de Aniversário


 

21740647_274326059748899_4863683756478602533_n

Por Renato Mello

Um dos primeiros textos de Harold Pinter, escrito em 1957, “A Festa de Aniversário”(The Birthday Party) cumpre temporada no Teatro Poeira até o dia 25 de outubro, sob direção de Gustavo Paso.

A Festa de Aniversário” conheceu um retumbante fracasso em sua montagem original, tendo sido retirada de cartaz apenas uma semana após sua estreia londrina pelas críticas impiedosas recebidas, com referências ao seu obscurantismo, e mesmo dentre os que perceberam contextos não realistas, não encontravam nenhum simbolismo que fizesse algum sentido.

O tempo tende a ser libertador num sentido de permitir decantar o olhar, afastá-lo das amarras estreitas de um período específico e possibilitando um entendimento mais apurado de um trabalho dentro de um enquadramento mais amplo. Vendo por um viés voltado ao passado, em “A Festa de Aniversário” percebemos alguns elementos temáticos e dramatúrgicos que viriam a ser parte ativa da obra que Pinter ainda estava por construir.

Como sugere sua sinopse oficial, “conta a caça enigmática de Stanley(Alexandre Galindo), um pianista ‘auto exilado’ em uma pensão humilde em uma praia qualquer. Os donos Meg(Andrea Dantase Petey(Marcos Ácher) hospedam Stanley há quase um ano, o que faz dele um hóspede residente, o único em todo esse tempo. No dia do seu aniversário os moradores recebem a inesperada e estranha visita de dois homens(Rogério Freitas e Guilherme Melca). A chegada dos novos hóspedes vai afetar o comportamento dos moradores desencadeando uma série de acontecimentos imprevisíveis”.

Traduzida por Alexandre Tenório, dividida em 3 atos, o texto situa-se numa fase da obra de Pinter que os estudiosos denominam “teatro da ameaça”, com personagens confinados dentro de casa, como que se escudando dos perigos externos que insistem em invadir o espaço do lar. Não é uma obra estritamente cerebral, permite ao espectador construir sua própria reflexão e preencher as lacunas em simultâneo com a cristalização paulatina de situações que o autor enreda com feroz acuidade num ambiente antes tomado pela banalidade do cotidiano. Ao invés de propor o fechamento de um círculo conclusivo, o desenvolvimento dramatúrgico não fornece explicações, subvertendo a fórmula narrativa de sua história desde os primeiros movimentos, quando a ameaça já se prenuncia num prosaico café da manhã pelo desfiar estéril de banalidades entre um casal que nada tem a acrescentar ao outro. Nesse contexto, o aniversário torna-se um pretexto para celebrar, arrastando a todos rumo ao desfiladeiro, exercitando a dominação, a violência física e psíquica.  A representação da visão de Pinter sobre os pilares do totalitarismo pode ser bem medida conceitualmente na cena em que Stanley é inundado de perguntas sem que os inquisidores aguardem um tempo mínimo de resposta, que na atual montagem atingiu uma gradação moral de extrema adequação pela solução cênica impressa na direção de Gustavo Paso.

O diretor é igualmente bastante eficiente no modo como cria uma atmosfera que apreende os momentos em suspenso, impondo o sentimento de confinamento por um ambiente cênico enevoado através da ótima iluminação de Bernardo Lorga, deixando inidentificáveis vultos durante um espaçamento de tempo que alarga a respiração dos personagens pela inquietação que habita nos silêncios e na ocultação das intenções reais.

O elenco se compõe por Andrea Dantas, Rogério Freitas e Marcos Ácher. Apresentando ainda Alexandre Galindo, Guilherme Melca e Raíza Puget.

Andrea Dantas interpreta Meg, a dona da pensão, casada com Petey(Marcos Ácher).  Andrea Dantas tem destacável atuação pela forma com que exprime todo o aspecto patético por sonhos desconectados com o que ocorre ao seu redor, com um personagem que se desvirtua da realidade, inatingível pelo mundo real e por isso mesmo, acomodada em face da desilusão de toda uma vida, que nem mesmo todo o horror ocorrido sob seu teto é capaz de lhe despertar.  Já Marcos Ácher é perfeito na maneira como conduz seu personagem na busca  pelo respiro em veleidades externas, como refúgio da parvoíce cotidiana, já despejado de ambições e desejos. Juntos, Meg e Petey se apegam a uma mediocridade intencionalmente delineada pelo autor.

Alexandre Galindo é Stanley, sob o qual reside os maiores enigmas. Por que permanece tanto tempo naquela pensão? Do que se esconde? Por que tem medo? Poucas informações nos são passadas.  Jovem, frágil e taciturno. Um virtuoso pianista que supostamente conheceu num passado nem tão distante o sucesso com sua arte. Busca no confinamento o reconforto da segurança, mas no momento que sente o perigo se aproximar, alça pontes de salvamento por um sentimento de crescente angustia que de início soa paranoico, que o ator realiza com um tom acertado a gradação dramática que se sucede narrativamente.

Rogério Freitas e Guilherme Melca, vivem respectivamente Nat Goldberg e MacCann, personagens que devastam tudo em sua passagem por razões não confessadas em contas que tem que estabelecer com a história. De certa forma personificam a simbologia da autocracia de um mundo ainda traumatizado pelos efeitos do revolver político da Europa pós-guerra, com componentes irônicos até pela escolha de um nome tipicamente judeu como Goldberg.  Brilhante atuação de Rogério Freitas, atingindo o clímax da repulsão não só pela expressividade, mas na impostura vocal e pela forma tanto como tensiona, quanto ritma os diálogos.

O elenco se completa com Raíza Puget, interpretando Lulu, com uma menor representatividade dentro do contexto dramático, mas que apresenta um caráter que desperta alguma dubiedade, corretamente defendido pela atriz.

O cenário, assinado pelo próprio diretor Gustavo Paso, integra com inteira adequação toda a decadência não somente do ambiente físico, mas também a decadência moral dos personagens que protege, presos em seus próprios imobilismos. Os figurinos de Luciana Fávero contribuem na ambientação pelo acerto com que expressa o estado de ânimo dos personagens e como se permite fluir em paralelo com as intenções irônicas traçadas no texto.

Em “A Festa de Aniversário” persiste um embate de 2 mundos que se chocam. Personagens ordinários que vivem refugiados da brutalidade externa e aqueles que como  bárbaros, invadem um santuário para se aproveitar sadicamente do terror de sua vítima. Dentro do que poderia ser apenas um drama macabro, Pinter reveste sua narrativa por um humor corrosivo que ressalta as discrepâncias absurdas de tempos extremos.

TEXTO: Harold Pinter
TRADUÇÃO: Alexandre Tenório
DIREÇÃO: Gustavo Paso

ELENCO: Andrea Dantas, Rogério Freitas e Marcos Ácher. Apresentando: Alexandre Galindo, Guilherme Melca e Raíza Puget.

CENÁRIO: Gustavo Paso
FIGURINOS: Luciana Fávero
ILUMINAÇÃO: Bernardo Lorga
TRILHA SONORA: André Poyart
PROGRAMAÇÃO VISUAL: Thiago Ristow
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Alexandre Galindo e Luciana Fávero
ADMINISTRAÇÃO DA TEMPORADA: Andre Roman
ASSESSORIA DE IMPRENSA:  Duetto Comunicação
REALIZAÇÃO: Gênese Produções

SERVIÇOS
TEATRO POEIRA – Rua São João Batista
Telefone da Bilheteria: (21) 2537-8053
Temporada de 12/09 a 25/10/2017
Horários: terças e quartas às 20h30
Duração: 80 minutos
Classificação: 16 anos
Gênero: Comédia
Lotação: 134 lugares

 


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

dezembro 2017
D S T Q Q S S
« nov    
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31