Crítica: A História dos Ursos Panda


 

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Por Renato Mello

Matéi Visniec é sem a menor sombra de dúvida o autor mais encenado nos palcos brasileiros nos últimos 3 anos. A sala multiuso do Sesc Copacabana apresentou em temporada mais um texto desse autor romeno, radicado na França, contando inclusive com a sua presença na noite de estreia: “A História dos Ursos Panda”, cuja temporada se encerrou no último dia 31 de agosto e sobre  a qual esta análise chega com atraso.

O responsável principal por essa nova montagem é o ator e produtor Alexandre David, conhecedor profundo de toda desconstrução que seu texto codifica de uma maneira muito particular toda a maldade que habita o totalitarismo a partir de uma reflexão sutil da falência geral do exercício do poder. Um autor que se permite trabalhar nas mais diferentes percepções, mesmo as sensoriais, como na original montagem que a Academia de Palhaços fez para “Adeus, Palhaços Mortos”, ou pelo grito que ecoa do fundo d’alma de seus personagens, como na construção de Fernando Philbert para “O Corpo da Mulher Como Campo de Batalha”. Nessa nova empreitada teatral de mais uma obra de Visniec, Alexandre David repete a parceria com o diretor Márcio Meirelles, após a montagem de “Paparazzi”. Apenas como registro, Márcio Meirelles igualmente já se debruçou em outro texto do autor, “Espelho Para Cegos”.

Mas ao contrário de “Paparazzi”, que no meu entender foi uma montagem equivocada, “A História dos Ursos Panda” tem um resultado final bem mais positivo.

Como aponta sua sinopse oficial, “Tudo começa em… Uma cama. Um homem, uma mulher. De manhãzinha, um acordar estranho. Ele está um pouco perdido, não deveria mais estar ali. Ela está com um pouco de pressa, já deveria estar em outro lugar. Um olhar e Ele não quer mais deixar que Ela vá embora sem saber se irá vê-la novamente… Ela lhe faz uma promessa. De quantas noites ele precisaria para render-se ao amor? Combinam nove noites”.

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A resumida descrição acima já é suficiente para permitirmo-nos mergulhar numa poesia sonhadora que coabita o universo de Visniec, em que a realidade vai se borrando, as imagens começam a perder as cores em favor da imaginação. Ela(Mariana Nunes) envolve seu parceiro de uma noite eventual dentro de um jogo sentimental quase mágico, bloqueando-o, desfiando um véu que lhe encobre as fragilidades e transformando cada noite num encontro terno em que a provocação faz com que Ele(Alexandre David) involuntariamente acabe vasculhando seu Eu profundo. Cada noite apresentará surpresas e explorações sensuais que os isolará numa bolha irreal, em que o mundo tangível ficará cada vez mais afastado.

A concepção cênica de Márcio Meirelles consegue adaptar algumas limitações que o último dos espaços da sala multiuso impõe, conseguindo criar uma ambientação íntima para a profusão emocional de seus personagens. A cenografia de Mina Quental é um achado, não somente pela maneira como dispõe do espaço cênico, mas acentua todo o processo de desconstrução emocional dos personagens, utilizando de extrema engenhosidade com elementos que se revelam simples. Assim como as delimitações físicas de uma iluminação mais detalhada é amplamente contornada com boas soluções por parte de Paulo César Medeiros, que juntamente com a cenografia de Mina Quental, com os elementos sonoros estridentes adicionados por Caíque Botkay e Alexandre Negreiros e a construção narrativa de Márcio Meirelles, revelam toda uma noção de profundidade que ressaltam o abismo emocional que suga os personagens para seu interior.

Márcio Meirelles igualmente estimula uma boa química entre os atores Alexandre David e Mariana Nunes, em que a cumplicidade lhes permite como que incorporar a suavidade de uma valsa sentimental, mas de modo que Ela o conduza para caminhos turvos de suas próprias contradições, como um voo irreal que se choca de encontro com a pureza que existe no fundo de suas essências, mesmo que pelas vias do absurdo.

Os figurinos assinados por Flávio Souza atuam com correção dentro das necessidades narrativas, utilizando tonalidades escuras, que ampliam todo um conceito imbuído na concepção de Márcio Meirelles.

A História dos Ursos Panda”, recebe um bom tratamento cênico para um autor que devido a própria complexidade de sua obra, nem sempre se consegue levar a bom termo teatral suas intenções.

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Ficha técnica:
Texto: A História dos Ursos Panda – De Matéi Visniec
Tradução: Alexandre David
Direção: Márcio Meirelles
Atores: Mariana Nunes e Alexandre David
Direção Musical: Caíque Botkay e Alexandre Negreiros
Iluminação: Paulo César Medeiros
Cenografia: Mina Quental
Figurino: Flávio Souza
Direção de Produção: Mina Quental
Produção Executiva: Flávia Menezes e Fernanda Camargo
Assistente de Direção: Felipe Koury
Idealização: Alexandre David

Assessoria de Imprensa: Mônica Riani


Palpites para este texto:

  1. Regina Cavalcanti -

    Os figurinos são do Flavio ou da Carol???
    Encenação instigante, amei o desfecho!

  2. Olá Regina.
    Como disse o Marcio Meirelles, os figurinos são do Flavio.

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