Crítica: A Importância de Ser Perfeito


 

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5-estrelas1Nesta semana encerrou-se a temporada da mais interessante peça em cartaz nessa temporada teatral do Rio de Janeiro, “A Importância de Ser Perfeito”, dirigida por Daniel Herz, no Teatro Vanucci. A ótima notícia é que a montagem voltará aos palcos cariocas agora em junho, dessa vez em cartaz no Teatro Leblon. O Botequim Cultural fará questão de anunciar na época propícia sua reestreia no Teatro Leblon para, modestamente, contribuir que mais pessoas tenham acesso a um teatro do mais alto nível

The Importance of Being Ernest” é uma comédia escrita pelo irlandês Oscar Wilde em 1895, aonde com seu típico humor corrosivo desenha um retrato cruel da sociedade vitoriana, num universo repleto de parasitas falidos que mantém seu status quo através de um hipócrita jogo de aparências. O texto é centrado nos personagens de José e Agenor, que fingem se chamar ”Perfeito” com o objetivo de conquistarem duas jovens que sonham casar com um marido que tenham esse nome.

Uma das grandes virtudes dessa montagem é que em nenhum momento houve o medo de ousar e de arriscar. Pelo contrário, Daniel Herz correu todos os riscos e no final logrou em realizar um espetáculo belíssimo, passando com louvor em cada um dos vários desafios que propôs. Poderia ter resultado num fracasso retumbante e até mesmo vexatório, se não fosse o enorme talento de diretor, na minha opinião, um dos mais interessantes do atual cenário teatral brasileiro. Sua concepção e principalmente, sua direção de atores, fizeram com que “A Importância de Ser Perfeito” fosse o melhor espetáculo teatral que assisti em 2014.

O primeiro desafio dessa montagem se reside na tradução e adaptação, a cargo de Leandro Lopes, começando já no título, aonde Wilde com seu humor arguto que se utiliza com frequência de trocadilhos da língua inglesa, fazendo nesse caso específico de “The Importance of Being Ernest” um eterno dilema para tradutores. Mas Leandro se saiu bem com o achado “A Importância de Ser Perfeito”. Pode até não ser o ideal, mas talvez seja o possível. Assim como houve alguns cortes no texto original, que acabaram não prejudicando o desenrolar da encenação, deixando num tamanho justo e enxuto para a 1 hora e 40 minutos apresentadas.

O outro desafio, de trazer o texto para o Rio de Janeiro e suas adjacências nos tempos atuais também foram bem sucedidos, ao mesmo tempo que o figurino e a postura dos atores nos remetiam por vezes naquela Inglaterra vitoriana, propondo um jogo de idas e vindas na cabeça do espectador entre a Londres do século XIX e esse Rio de Janeiro de moradores de uma aristocracia falida e parasitária do edifício Chopin que se mantém nesse eterno jogo de poses.

Mas a maior ousadia, sem dúvida, é a proposta de utilizar-se de um elenco integralmente masculino, inclusive na representação dos papeis femininos, que realçam ainda mais o tom de farsa. O leitor de certo deve se perguntar se tal situação não criaria um tom um tanto caricato? Sim. Mas ao invés de ser um defeito acaba por se tornar uma adorável e fascinante qualidade, graças a um elenco excepcional e pela maneira como Daniel Herz os conduziu em cena.

É difícil apontar destaques individuais ao espetáculo tal o nível de atuação desse elenco formado por 8 atores, dos quais 5 atuam homogeneamente em cena e os outros 3 com pouca representatividade efetiva. Mas se existe um grande destaque ele é George Sauma, vivendo a cobiçada e geniosa Patrícia. George Sauma tem atuação exuberante e divertidíssima. É o ator a não se perder de vista um segundo sequer em cena. João Pedro Zappa vivendo Cecília também tem atuação deliciosa, em determinado momento nos esquecemos inteiramente que se trata se um homem interpretando papel feminino. Assim como a Tia Augusta de Anderson Mello com suas frases típicas de sabedoria burguesa também agrada em cheio. Ficamos sempre aguardando uma nova tirada da boca de seu personagem. A dupla principal formada por Leandro Castilho(José) e Leandro Soares(Agenor) estão no mesmo nível de atuação e registro, com muito boas atuações.

Ajudam à encenação os belos figurinos de Thanara Schönardie, assim como a cenografia de Nello Marresse, fundamentais para a brincadeira proposta pelo diretor Daniel Herz. Há inserções musicais, que como definiu Barbara Heliodora em uma das suas últimas críticas, “dispensáveis”. Sim é possível que sejam dispensáveis, mas ajuda a criar todo um clima de “nonsense” no todo do espetáculo.

Agora só nos resta aguardar a reestreia de “A Importância de Ser Perfeito” no Teatro Leblon em junho. Absolutamente imperdível para quem quer ver uma montagem ousada, divertida e muito bem realizada.


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