Crítica: A Lenda do Vale da Lua


 

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Por Renato Mello.

A sinceridade de princípios talvez seja a grande resposta para se vencer a travessia do tempo e perpetuar-se no imaginário infantil ao longo de 40 anos. Mesmo em meio a uma revolução de costumes no desenvolvimento infantil é gratificante observar a capacidade de uma obra como “A Lenda do Vale da Lua” em encantar um público criado no turbilhão da metrópole, que não hesita um só momento em embarcar na pureza da proposta desse espetáculo.

O Oi Futuro do Flamengo apresenta em sua atual programação a temporada de mais uma adaptação teatral de “A Lenda do Vale da Lua”, dessa vez com a direção assinada pelo próprio autor do livro original, João das Neves e com músicas compostas por Chico César.

Segundo sua sinopse oficial, “o espetáculo conta a história do Boi Bumbá, a partir de uma brincadeira entre os irmãos Lúcia e Carlos e seus pais. Brincando de contar histórias, a família leva o público a soltar a imaginação. Sugerindo a interação entre a plateia e os atores, onde todos têm espaço para inventar e contribuir, ‘A Lenda do Vale da Lua’ pretende mostrar que os sonhos e a criatividade não têm limites”.

A interação ocorre efetivamente, desde a cafeteria na entrada da sala de teatro com o elenco se misturando ao público, propondo ações e convidando os pequenos para assistirem à apresentação no próprio palco do teatro. Esse tipo de conceito que busca abrir um canal de comunicação direta costuma desde o início apresentar desafios para o desenvolvimento do espetáculo, começando pela divisão do espaço cênico, que no Oi Futuro já não é muito generoso, embora no caso específico desse espetáculo tenha ganho um prolongamento.

São questões que as colocações são necessárias para o processo de “pensar o espetáculo”, porém que foram bem equacionadas por João das Neves. Há na sua concepção uma divisão cênica bem construída, de modo que a presença física do público no palco não comprometa a movimentação dos atores, além da condução da narrativa, que dosa com eficiência a disponibilidade dedicada aos convidados no palco com a necessidade de levar adiante esse processo dramatúrgico, retomando o comando das ações, sem que ocorra oscilações no transcorrer da encenação.

A Lenda do Vale da Lua” encanta pela singeleza e delicadeza com que a proposta é conduzida. O espetáculo se constrói a partir de elementos que buscam resgatar nossas tradições, vasculhando valores diluídos pela complexidade dos avanços tecnológicos do mundo moderno através da utilização das cantigas de roda, de velhas brincadeiras e de diferentes técnicas narrativas, convidando para uma imersão dentro da cultura popular brasileira, mas sem buscar uma nostalgia forçada, algum tipo de didatismo ou lições de moral. Simplesmente abrindo caminho para que cada um encontre dentro de uma história fascinante o seu próprio imaginário sobre a riqueza desse universo.

Além de seus vários dotes artísticos, o elenco tem mérito direto para o êxito da proposta na medida em que desde o seu princípio ganha a cumplicidade do público. Formado por Carolina Gomes, Vicente Coelho, Clara Santhana, Luiz Claudio Gomes, João Lucas Romero e Julie Wein, que além de bons atores, demonstram grande habilidade como músicos e cantores. Estabelece-se uma completa troca em cena entre todos, seja elenco, seja o pequeno público que os ladeia, com um correto entendimento de como conduzir uma encenação aberta, levando-a adiante de modo harmônico e com grande empatia por todos os seus membros. Há que se destacar Clara Santhana, uma atriz que deixa sempre uma sensação prazerosa que parece iluminar toda a ambientação ao seu redor pela sua voz encantadora, personalidade carismática e uma certa doçura no olhar.  João Lucas Romero, um ator que já havia testemunhado anteriormente sua grande capacidade artística no premiadíssimo “Bisa Bia, Bisa Bel”, mais uma vez aqui demonstrada neste espetáculo.

Além de perfeitamente harmonizadas com o espetáculo, são belas as canções compostas por Chico César e com letra de João das Neves. Uma poética que alcança uma comunicação eficiente com o público e que contribui efetivamente na linha dramatúrgica do espetáculo.

Os cenários e figurinos levam a assinatura de Samuel Abrantes. Os cenários, são bem realçados pela iluminação de Djalma Amaral, puxando para as tonalidades azuladas e inteiramente de acordo com a construção de um universo terno e lúdico para a atmosfera necessária. Os figurinos são concebidos a partir de uma base neutra, com adereços coloridos e que possuem um bonito resultado visual.

A Lenda do Vale da Lua” é um ótimo espetáculo teatral, dando a partida de forma auspiciosa à temporada infantil de 2016.

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Fotos: Thiago Sacramento.

Texto e Direção: João das Neves
Músicas: Chico César
Direção Musical: Beto Lemos

Elenco: Carol Gomes, Clara Santhana, João Lucas Romero, Julie Wein, Luiz Claudio Gomes, Vicente Coelho

Local: Oi Futuro Flamengo
Endereço: Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo
De 12 de dezembro a 14 de fevereiro, sábado e domingo, 16h
Entrada: R$ 15,00
Classificação etária: livre


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