Crítica: A Moça da Cidade


 

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Por Renato Mello.

Está por terminar a temporada de “A Moça da Cidade”, que se encontra em cartaz no Teatro Leblon, Sala Fernanda Montenegro, com apresentações até o próximo dia 12 de março.

A Moça da Cidade” marca a estreia na direção do ator Rodrigo Pandolfo, cujo resultado final é encantador, daquele tipo de espetáculo que saímos do teatro leves e felizes. Lamento apenas que não tenha sido descoberta por um público maior, pois méritos tem de sobra.

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Escrita por Anderson Bosh, conta a história de Ambrosina(Lu Camy), uma jovem que sai do interior do nordeste para terminar seus estudos regulares na cidade grande, mais especificamente no Rio de Janeiro dos anos 60. Passa a morar numa pensão do Catete, cuja proprietária, Dona Rosa(Victor Varandas) acaba se incumbindo da tarefa de ser uma espécie de protetora na então capital federal e tem como vizinho de quarto o ingênuo e desajeitado Leitinho(Gabriel Delfino Marques), que nutrirá uma forte paixão por Ambrosina. Mas diferente do atrapalhado Leitinho, Ambrosina sonha mesmo é em encontrar um grande amor.

Olhando a sinopse acima, aparentemente não passa de uma história banal como outra qualquer. Mas o encanto e o charme dessa encenação se dão justamente COMO se conta essa história. A peça se inicia numa estação de radio em que os locutores(radio-atores) passam a narrar a história de Ambrosina em clima de uma típica radionovela, com direito a jingles históricos e divertidos efeitos sonoplásticos, dando por vezes à apresentação um onirismo e fantasia, tal como os sonhos românticos de Ambrosina, até que de repente é confrontada a uma realidade um pouco diferente da projetada.

A ambientação criada por Rodrigo Pandolfo tem papel importante para a proposta, com um cenário criado por Miguel Pinto Guimarães que “dialoga” diretamente com a representação, incluindo igualmente as projeções nos telões de Felipe Bond. Rodrigo monta lindas sequências, como por exemplo a que se passa no interior do cinema sob a projeção de “Um Bonde Chamado Desejo”, dirigido por Elia Kazan e protagonizado por Marlon Brando, que ao mesmo tempo me remeteu imediatamente a beleza dos lindos versos da canção de Chico Buarque e Dominguinhos, “Trocamos confissões, sons/No cinema, dublando as paixões/Movendo as bocas/Com palavras ocas/Ou fora de si”. Rodrigo também tem a capacidade de realizar com competência a transição para dois universos paralelos, sem que a peça tenha queda na sua estrutura narrativa ou mudança brusca de ritmo, que permanece o tempo todo com uma intensidade bem dosada.

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A proposta exige acima de tudo uma direção de atores muito cuidadosa, que em “A Moça da Cidade” foi executada com êxito por Rodrigo Pandolfo, em que os atores tem  além de viver os protagonistas, necessitam se desdobrar em outros papeis e mesmo funções distintas para de repente “sair da história” para olha-la por fora, como radio-atores. O trio formado por Lu Camy, Victor Varandas e Gabriel Delfino Marques o faz com extrema elegância e refinamento. Victor Varandas tem um maior antagonismo nas propostas de criação de seu personagem e esse contraste é muito bem realizado, seja como locutor, como Dona Rosa ou como a professora da formatura, com uma movimentação de cena muito bem executada, por vezes beirando(propositalmente) a farsa. Suas pausas e ritmos vocais estão muito bem ajustados e dão enorme contribuição a atmosfera e ao resultado. Lu Camy vive a nordestina romântica em busca do amor perfeito, numa composição cativante e adorável, gerando uma empatia ao longo de todo o espetáculo com sua personagem. Gabriel Delfino Marques se divide entre o Leitinho e o projetado amor perfeito de Ambrosina. Gabriel demonstra uma grande habilidade na técnica vocal e corporal, com um ótimo timing e talento para o humor. Três atores que juntos dão ao espetáculo um carisma extremamente peculiar e um perfeito equilíbrio em que bastaria o deslize de um deles para jogar por terra o desempenho dos demais.

Importante destacar a contribuição de Ana Achcar na preparação corporal do elenco. Valiosíssima e complementar ao trabalho de Rodolfo com e o elenco na composição dos personagens.

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Os figurinos estilizados de Bruno Perlatto são adequados a proposta do espetáculo, num bom trabalho de realização. A iluminação de Tomás Ribas tem efeito importantíssimo na ambientação e universo colocado em cena pelo diretor.

A Moça da Cidade” resulta em um espetáculo singelo com um certo tom de ingenuidade, mas é acima de tudo uma adorável peça teatral.

a moça da cidade 3A Moça da Cidade
Endereço: Rua Conde Bernadotte – 26 – Leblon
Lugares: 417 lugares
Horário: Terça a quinta, 21h. Até 12 de março
Preço: R$ 60,00

Ficha Técnica
Texto: Anderson Bosch
Direção: Rodrigo Pandolfo
Elenco: Gabriel Delfino Marques, Lu Camy e Victor Varandas
Direção musical: Marcelo Alonso Neves
Trilha sonora: Rodrigo Pandolfo
Preparadora corporal: Ana Achcar
Direção de movimento e coreografias: Victor Maia
Iluminador: Tomás Ribas
Cenário: Miguel Pinto Guimarães
Figurino: Bruno Perlatto
Visagismo: Sid Andrade
Direção de vídeo: Felipe Bond
Direção de produção: Tatianna Trinxet


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