Crítica: A Paz Perpétua


 
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Foto: Nil Caniné

Por Renato Mello

Embora já finalizada sua temporada no Oi Futuro, é necessário um registro do espetáculo “A Paz Perpétua” e com o alento de saber que esta crítica poderá ter vida um pouco mais longa em razão do seu retorno aos palcos, dessa vez no Teatro Dulcina em janeiro de 2017.

Texto originalmente escrito em 2007 pelo autor espanhol Juan Mayorga, a montagem brasileira ganhou  tradução e direção assinadas por Aderbal Freire Filho para verter em cena uma potente metáfora da presente ameaça do terrorismo global sobre a sociedade contemporânea. Curioso apenas ressaltar que Aderbal Freire Filho encontrava-se simultaneamente com 2 espetáculos em cartaz que de algum modo tratavam tal temática, no caso “Céus”(AQUI) no Teatro Poeira, embora suas formas, conteúdos e propostas sejam completamente diferentes.

Segundo aponta sua sinopse oficial, “Três cachorros – Odin, Emanuel e John-John – participam de um processo seletivo pela prestigiada “coleira branca”, oferecida a um representante canino do corpo de elite do combate antiterrorismo. As provas secretas são conduzidas por um quarto cachorro e antigo portador da coleira – Cassius, e acompanhadas pelo Humano”.

A partir dessa grande metáfora, Juan Mayorga lança um pensamento agudo, analítico e filosófico sobre o transcurso ético de uma forma de convivência social que atropela todos limites em busca dos objetivos finais, impondo aos seus personagens, híbridos de homem e cão, uma confrontação selvagem que podemos referenciarmo-nos no microcosmos de qualquer corporação, instituição e até mesmo nas inter-relações afetivas. Dentro do seu microcosmo, Mayorga logra em ridicularizar os métodos sádicos com que “gestores” submetem e estimulam seus subordinados para se convencer das suas “aptidões” em desempenhar determinadas funções.

Aderbal Freire Filho compôs uma construção cênica que num ritmo em crescente tensiona a ambientação ao expor um instinto auto sobrevivência que culmina com um espalhar de labaredas que os reduzirá à cinzas. O modo como Aderbal “manipula” essa ação é admirável no sentido que consegue modular as gradações dramáticas como se  notas musicais fossem, no tom exato para cada intenção submersa no texto da Mayorga. Outro aspecto destacável do seu trabalho reside na direção de atores, trabalhando em camadas diferentes, por vezes sobrepostas, mas que e que resultam em 5 atuações de muito bom nível.

João Velho, José Loreto e Kadu Garcia compõem o núcleo dos cachorros candidatos à coleira branca. Há nessa relação interpretativa entre os 3 atores um destacável trabalho coletivo e de suporte mútuo, com complementaridade não somente nas necessidades de composição de cada personalidade, mas no preenchimento por completo do conteúdo dramatúrgico. Importante enfatizar o inestimável trabalho corporal de cada um dos atores. Alex Nader consegue a cada entrada se impor em cena pela carga expressiva, ótima imposição vocal e igualmente pelo competente trabalho corporal. Gillray Coutinho apresenta uma atuação passiva até o culminar dos seus arrebatadores 20 minutos finais, para então percebermos a grandiosidade que forma o todo de sua atuação, na arte de se ocultar para atingir ao mesmo ritmo do texto o transbordar de uma magna interpretação.

O cenário de Aderbal Freire Filho não tem preocupações meramente estéticas, serve bem aos propósitos ao emanar um sentimento de angústia e impessoalidade. Embora tratando-se de cães, mas dentro da proposta de composição, os figurinos de Antônio Medeiros contribuem para a associação dos personagens com suas características. O desenho de luz de Maneco Quinderé interage com consistência com as necessidades da dramaturgia.

A Paz Perpétua” é um texto que apresenta diversas possibilidades de leitura e adequações aos mais diferentes contextos, com capacidade de instigar o espectador pela acertada montagem de Aderbal Freire Filho.

Ficha técnica
Texto: Juan Mayorga
Direção e Tradução: Aderbal Freire-Filho
Diretor Assistente: Fernando Philbert
Elenco: Alex Nader, Gillray Coutinho, João Velho, José Loreto, Kadú Garcia e Manoel Madeira
Iluminação: Maneco Quinderé
Cenário: Aderbal Freire-Filho
Música: Tato Taborda
Figurino: Antônio Medeiros
Projeto gráfico: Radiográfico
Assistência de Produção: Roberta Aguiar
Produção Executiva e Fotografia: Nil Caniné
Direção de Produção: Sérgio Martins
Coprodução: A Freire-Filho, Somart e TEMPO_FESTIVAL
Realização: Somart Produções Artísticas


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