Crítica: A Peça Escocesa


 
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Foto: Paula Kossatz

Por Renato Mello

Vasculhar os arrabaldes subterrâneos de personagens entre os mais complexos que o teatro já produziu é o que propõe “A Peça Escocesa”, que se apresenta em temporada até o dia 1º de abril no Teatro Nelson Rodrigues, reunindo uma mesma tríade que resultou no excelente “ELA”, ano passado, Marcia ZanelattoPaulo Verlings e Carolina Pismel.

Compondo uma multiplicidade de sons e ações na busca pelas purezas essenciais de “Macbeth”, texto escrito provavelmente entre 1603 e 1607 por William Shakespeare,  soa assustadoramente atual, demonstrando inequivocadamente aspectos da universalidade que podem ser extraídos da pureza essencial das linhas legadas pelo bardo, que através de um regicídio demarcado num  espaço temporal ergue uma cadeia de destruição das estruturas vigentes, no que a narrativa de Marcia Zanelatto explora por sentenças, que lidas mesmo soltas, dimensionam uma amplitude para a leitura do funcionamento dos jogos de poder e a movimentação de suas engrenagens em qualquer tempo.

Ao trair percebeu que pode ser traído por qualquer um”.

Foto: Paula Kossatz

Foto: Paula Kossatz

A proposta traz seus riscos e talvez os puristas se ponham em sentidos encasmurrados pelas vestes contemporâneas, não somente no que poderia ser uma mera atualização, mas de toda uma busca polifônica para escoar o que supostamente poderia ser seus sentidos originais. A direção de Paulo Verlings busca despir protocolos cerimoniosos da encenação para traçar uma composição cênica dualística para aquilo que o próprio release define como um “peep show da alma”, demarcando sensações e sentimentos coreograficamente dispostos, aflorando o pantopolismo da obra de Shakespeare com os entendimentos sociopsicológicos do ser humano por arquétipos que a própria antropologia se faz de testemunha, submetendo seus personagens sob os mais diferentes níveis de pressão. Verlings demarca os tambores de guerra, ritmos, angústias e intenções pela pulsão de uma potente banda composta por Antonio Fischer-Band(teclados), Arthur Martau(guitarra), Pedro Velho(baixo) e Victor Fonseca(bateria), cuja direção musical de Ricco Viana tem papel preponderante para a criação da atmosfera planeada.

Conte uma história mil vezes até que ela se torne verdade

A direção de atores traça uma harmonia cênica qual um ritual bailado, permeado por solilóquios que entremeiam  as atuações do próprio diretor Paulo Verlings(Macbeth) e de Carolina Pismel(Lady Macbeth). Sobressai-se a atuação de Carolina Pismel pela maneira como se utiliza da amplitude de seus instrumentos técnicos para dar voz sua Lady Macbeth bem ritmada pela respiração, contração facial, olhar aprofundado e gravidade vocal, alcançando a capacidade manipulável de sua força frente ao marido, com Paulo Verlings encontrando uma tonalidade adequada para expor alguma deficiência personalista de Macbeth face ao magnetismo da esposa.

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Foto: Paula Kossatz

A espera é um fardo muito maior que o ato

O visagismo de Vino Kilesse amolda-se à idealização pelo modo como se utilizada da maquiagem e mesmo dos dreadlocks dos atores. Força, estilismo e ao mesmo tempo sobriedade dos figurinos de FLavio Souza se impõem, como nos tons que variam entre o kilt preto, o blazer vinho de Macbeth e o vestido em tons escuros de Lady Macbeth.

Dentro da proposta do que seria a exposição dos sentimentos de Macbeth e Lady Macbeth, a iluminação de Fernanda e Tiago Mantovani se expressam com adequação, proporcionando um canal de amplificação das ações e colaborando no andamento narrativo, compondo um painel palpável ou meramente sensorial quando se mescla com a proposta cenográfica de Mina Quental.

A Peça Escocesa” é uma idealização que tangencia zonas dramatúrgicas de alto teor de complexidade, com seus riscos e saltos ao escuro. Alcança seus objetivos em maior ou menor grau dentro de um mesmo espaço teatral, mas em nenhum momento renega o enfrentamento.

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Foto: Paula Kossatz

Ficha técnica
 Texto: Marcia Zanelatto 
Direção e Concepção: Paulo Verlings 
Elenco: Carolina Pismel e Paulo Verlings 
Diretor Assistente: Flávio Souza 
Assistência de Direção: Orlando Caldeira 
Músicos Banda Dagda: Antonio Fischer-Band (teclado); Arthur Martau e Kim Fonseca (guitarras); Pedro Velho (Baixo) e Victor Fonseca (Bateria)
Direção Musical: Ricco Viana  
Cenário: Mina Quental 
Figurinos: Flavio Souza
Desenho e técnico de Som: Luciano Siqueira
Visagismo: Vini Kilesse
Iluminação: Tiago e Fernanda Mantovani
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Fotos: Paula Kossatz
Vídeo: Eduardo Chamon
Projeto Gráfico: Raquel Alvarenga
Produção Executiva e Marketing Cultural: Heder Braga
Direção de Produção: MS Arte & Cultura | Aline Mohamad e Gabriel Salabert
Patrocínio: CAIXA e Governo Federal
 
Serviço
CAIXA Cultural Rio de Janeiro – Teatro da CAIXA Nelson Rodrigues
Av. República do Chile, 230, Centro, Rio de Janeiro / Entrada pela Av. República do Paraguai 
(próximo ao Metrô e VLT Estação Carioca)
Telefone: (21) 3509-9600 / 3980-3815
Lotação: 400 lugares (mais 08 para cadeirantes)
Datas: 3 de março a 1º de abril de 2018 (quinta a domingo)
Horário: 19h
Duração: 60 min
Ingressos: Plateia – R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia) / Balcão: R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia). 
Além dos casos previstos em lei, clientes CAIXA pagam meia
As vendas de ingressos iniciam na terça-feira, dia 27 de fevereiro, na bilheteria do Teatro
Bilheteria: de terça-feira a domingo, das 13h às 20h
Classificação indicativa: 14 anos
Acesso para pessoas com deficiência
fotos © Paula Kossatz

 


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