Crítica: A Reunificação das Duas Coreias


 
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Foto: Victor Hugo Cecatto

Por Renato Mello.

Um dos mais destacados autores e diretores da cena teatral francesa, Joël Pommerat, recebe um belo tratamento em palcos brasileiros para “A Reunificação das Duas Coreias”, em cartaz até o dia 28 de agosto no Oi Futuro Flamengo, sob a direção de João Fonseca, com produção assinada por Maria Siman.

O texto foi montado originalmente em 2013 no Teatro Odeón, em Paris, tendo inclusive recebido o prestigiadíssimo Prêmio Molière na categoria de Melhor Espetáculo Público(há uma distinção no prêmio entre espetáculos encenados em teatros públicos e privados), além do Prêmio Beaumarchais(melhor autor) e  o prêmio do Sindicado da Crítica Francesa.

Joël Pommerat apresenta em “A Reunificação das Duas Coreias” um extenso painel social a partir de um estudo sobre as diversas formas de amar, expostas em 20 histórias que se sucedem com 46 personagens, que acabam por tecer um entendimento da essência humana, reconstruindo uma dualidade real e imaginária em diversos microcosmos.

Como é praxe em dramaturgias que optam por pequenas narrativas inseridas num grande mosaico, ocorre um desnivelamento em suas intensidades, com histórias que tocam camadas mais profundas da sensibilidade, como a mulher sem memória dialogando com o marido que lhe é estranho, a noiva que descobre um passado em comum do seu noivo com suas irmãs ou o casal que deixa os filhos com a babá e ao retornarem não os encontra. Já algumas outras histórias apresentam um menor efeito, mas o resultado final é bastante positivo. Os textos de Pommerat nos revelam a falência de uma existência humana soterrada sob a indiferença brutal do cotidiano, são os fantasmas escondidos no recôndito de nossas almas, os encontros interrompidos ou uma realidade insuportável que nos assombra, aonde os dramas se desenvolvem num espaço íntimo que de algum modo acaba estabelecendo uma conexão entre todos nós.

Foto: Victor Hugo Cecatto

Foto: Victor Hugo Ceccatto

Na montagem brasileira traduzida por Bia Ittah, a direção de João Fonseca tem o mérito de habilmente expor as várias gradações emocionais, criando uma dinâmica cênica que se desenvolve com transições rápidas, utilizando-se da movimentação do cenário, de micro-performances e de uma seleção de músicas francesas propositalmente kitsch, com direito até a uma deliciosa versão francesa de “Nuvem de Lágrimas”, que confesso só ter percebido porque Rodrigo Monteiro(Crítica Teatral) me cochichou no momento da execução. A movimentação é harmônica com uma boa exploração do espaço físico, que devido o tamanho do palco do Oi Futuro, do elenco numericamente generoso e mesmo pela dimensão do cenário, não é das tarefas das mais simples. Conduz com bastante equilíbrio a exacerbação emocional dos personagens, extraindo uma dosagem na altura da necessidade dramatúrgica de cada contexto. Ressalvo apenas o alongamento um pouco mais do que seria o ideal, apesar da versão brasileira já ser mais enxuta que a original francesa, mas chega um momento em que sentimos que não há mais que acrescentar, dando sinais de algum esgotamento na dramaturgia.

Foto: Victor Hugo Cecatto

Foto: Victor Hugo Cecatto

O elenco é sem dúvida uma das grandes virtudes do espetáculo, possibilitando estabilidade para a boa fluência da apresentação. O grande destaque é a brilhante atuação de Solange Badim, que através de uma presença impositiva desperta inteiramente as atenções de cada um dos seus personagens, explorando com perfeição toda escala gradativa que vai da comédia ao drama e mesmo quando por circunstâncias não previstas necessitou utilizar-se com maestria da improvisação.  Gustavo Machado tem também uma boa performance pelo conjunto de suas interpretações nos diferentes personagens, extraindo uma atuação harmônica do início ao fim, independente da diversidade de características a expor. Louise Cardoso é responsável por um dos mais sublimes momentos ao interpretar a mulher sem memória, num registro belo e sensível. Marcelo Valle apresenta-se com força, principalmente quando se deixa levar pelo humor mais acentuado, conduzindo para momentos deliciosos. Bianca Byington se destaca pela expressividade, a utilização do instrumento corporal e também na exploração na medida correta de sua notória capacidade cômica. Bianca Byington é uma atriz que naturalmente exala empatia pela sua enorme capacidade cênica, independente do gênero que represente. Veronica Debom tem uma participação menor, mas que consegue marcar acertadamente em suas presenças e com um bom trabalho nos movimentos e expressões.  Reiner Tenente, tal como Veronica, tem presença em cena menos acentuada, mas por ser um ator de grande capacidade, extrai o máximo de cada participação, mesmo que de maneira sutil, com um destaque para a cena final, impactando juntamente com Solange Badim.

Os cenários de Nello Marrese são eficientes na composição do universo apresentado e estão inteiramente contextualizados na narrativa. Compõe o cenário com o que aparenta inicialmente serem biombos, que em movimento alteram a atmosfera. Durante o espetáculo acrescentam novas possibilidades cenográficas. Funcionais e dão leveza para a cenografia.

Os figurinos de Antônio Guedes apresentam um ótimo trabalho para composição de um extenso número de personagens. Eficiente e prático.

A iluminação de Renato Machado acompanha com exatidão as alterações narrativas, criando um desenho de luz que contextualiza com acerto cada necessidade que se apresenta.

A Reunificação das Duas Coreias” é um feliz acerto de um bom texto que ganhou na montagem brasileira um ótimo elenco sob o comando de um diretor que tem a perfeita consciência das zonas de sensibilidade que pretende atingir.

Foto: Victor Hugo Cecatto

Foto: Victor Hugo Cecatto

Ficha Técnica:
Texto: Joël Pommerat
Tradução: Bia Ittah
Direção: João Fonseca
Direção de produção: Maria Siman e Ana Lelis
Elenco: Louise Cardoso, Bianca Byington, Solange Badim, Marcelo Valle, Gustavo Machado, Veronica Debom e Reiner Tenente
Luz: Renato Machado
Figurinos: Antonio Guedes
Cenários: Nello Marrese
Direção Musical: Leandro Castilho
Assistente de Direção: Reiner Tenente e Pedro Pedruzzi
Produção executiva e administração: Ana Lelis
Assessoria de imprensa: Lu Nabuco Assessoria em Comunicação
Designer gráfico e fotos: Victor Hugo Ceccato
Realização: Primeira Página Produções

Serviço:
Estreia para o público: 24 de junho
Temporada: 24 de junho a 28 de agosto
Local: Oi Futuro Flamengo – Rua Dois de dezembro, 63 – Flamengo
Horário: De quinta a domingo, às 20h
Ingressos: R$ 30,00
Tel bilheteria: 3131-3070
Gênero: Comédia dramática
Classificação: 12 anos
Duração: 100 minutos
Vendas Online: ingresso.com


Palpites para este texto:

  1. Espetáculo maravilhoso! TEATRÃO

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