Crítica: A Sala Laranja


 

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Por Renato Mello

Após uma temporada com lotação quase sempre esgotada no Teatro Candido Mendes, o espetáculo “A Sala Laranja” oferece uma nova oportunidade para quem não assistiu sua excelente montagem. Até o dia 19 de dezembro se apresentará no Teatro Vanucci, Shopping da Gávea, sempre às terças-feiras.

Primeira montagem nos palcos nacionais de um texto da autora argentina Victoria Hladilo, no original “La Sala Roja“, com tradução de Elisa Brites e Robson Torrini, juntamente com Victor Garcia Peralta, que assina igualmente a direção.

Antes de entrar propriamente na análise do espetáculo, gostaria de ressaltar uma safra de autores argentinos contemporâneos inteiramente desconhecidos por aqui e que foi dada recentemente a oportunidade de nos introduzirmos, ainda que de forma parcimoniosa, aos seus trabalhos, como “Fauna”, de Romina Paula; “Esse Vazio”, de Juan Pablo Gómez; “Entonces Bailamos”, de Martín Flores Cárdenas; e agora “A Sala Laranja”, de Victoria Hladilo. Textos completamente diversos em forma e conteúdo, mas que juntos revelam de algum modo um interessantíssimo mosaico teatral do que ocorre na Argentina. Como profundo apaixonado da sua expressão cultural nas mais diversas manifestações, empenho-me em desejar uma presença dramatúrgica ainda mais pungente por aqui.

Toda a ação de “A Sala Laranja” ocorre dentro de uma sala de jardim da infância em que os pais se reúnem para discutir o envolvimento mútuo de convivência educacional de seus filhos aonde “defender as necessidades deles é a desculpa para expressar os interesses de cada um e impor suas opiniões. Os desejos mais íntimos dos pais e suas frustrações aparecem nessa reunião, convertendo-a em uma disputa de ego e poder”. O texto de Victoria Hladilo amplia um senso de observação a partir de um ambiente aparentemente propício ao afeto e sociabilidade, mas que a autora já consegue deixar bem claro de início que não se dará exatamente dentro dessas linhas contextuais. Sua construção narrativa gradativamente vai deixando algumas pistas soltas que possibilitam um melhor entendimento do que move cada um dos personagens, assim como atinge um humor de grandes proporções, talvez até cínico, na maneira como revela todo o aspecto “patético” que existe no comportamento humano. “Patético”, no sentido derivativo de pathos, significando doença, mas também “excesso”, “sofrimento” ou “sentimento”, em que a autora patenteia as idiossincrasias e o despudor que margeia toda sua zona de conflito, revelando traços de uma sociedade doente e contaminada em sua moral. Um caldeirão que transborda à cena por personagens incapazes de superar suas frustrações.

Devo atestar, na condição de quem até 2 anos atrás era um assíduo frequentador desse tipo de reunião, a afinidade do texto de Victoria Hladilo com o plausível, em detrimento de quem possa pensar tratar-se simplesmente de caricaturas ou uma metáfora das relações humanos num microambiente. Quem passou 4 ou 5 anos corriqueiramente nesse contexto, como eu, sabe que a propensão para as situações mais absurdas é amplamente plausível.

A configuração física da sala Candido Mendes apresenta algumas irregularidades que já levaram muito espetáculos a situações difíceis pela incapacidade de explorar sua superfície cênica. No caso d’ “A Sala Laranja” ressalta a capacidade como Victor Garcia Peralta criou toda uma aclimatação de inteira intimidade com público, que parece sentir-se dentro da sala de aula, explorando habilidosamente suas características físicas e espaciais. A condução rítmica é perfeita no crescer das tensões e gradações inteiramente coadunadas com as intenções do texto pela maneira como acentua os momentos dramáticos e cômicos, desnudando todo um ridículo de personagens que constroem uma história comum em prol apenas de suas motivações personalistas.

Victor Garcia Peralta exerce uma direção de atores harmônica por um elenco formado por Renata Castro Barbosa, Robson Torinni, Priscilla Baer, Isabel Cavalcanti, Daniela Porfírio e Rafael Sieg, que se apresenta numa sintonia representativa no decorrer de todo o espetáculo, realizando uma construção cênica de auto sustentação e suporte mútuo, permitindo assim o equilíbrio das ações para um caminho coesivo. Praticamente nenhum dos personagens é de fato o que aparenta, contraditoriamente o que desperta inicialmente os sentimentos mais refratários, talvez seja o mais coerente em sua linha evolutiva, como o marido ausente vivido por Rafael Sieg, casado com a personagem de Daniela Porfírio, bem defendida pela atriz, atormentada por desconfianças na relação conjugal e pelo sentimento de rejeição que percebe em relação aos outros com seu filho. Daniela Porfírio explora com adequação as gradações emotivas da personagem, com bastante êxito principalmente no humor. Renata Castro Barbosa e Robson Torinni são responsáveis pelos principais conflitos do espetáculo. Renata Castro Barbosa interpreta Sandra. Atuação segura, com acerto na maneira como ritma e extrai todo o humor nos seus diálogos para uma personagem que impõe seus conceitos e demonstra intransigência com ideias que lhe são conflitantes, mas que mesmo com alguma leviandade, ainda assim demonstra traços maiores de transparência, enquanto o Robson Torinni expõe eficazmente a dualidade de seu caráter, que numa observação mais aprofundada, se assemelha a Sandra(Renata Castro Barbosa), apenas seus métodos para atingir os mesmos objetivos é que diferem. Priscila Baer representa um personagem que é aparentemente mais desconectada de um jogo que não pretende fazer parte, mas que vai revelando aspectos mais limitadores de suas opções. Daniela Cavalcanti é a professora que deveria comandar a reunião, mas que prefere se esquivar todo o tempo, já prevendo o turbilhão inevitável de uma situação que não tem o mínimo controle.

O cenário de Dina Salem Levy recria com inteira adequação todo uma ambientação lúdica de uma sala de jardim de infância, que acaba se tornando um contraponto para a essência dos personagens, num desenho de cena muito bem detalhado e que interage permanentemente com as ações. Os figurinos de Luiza Fardin compõem de maneira correta as características de cada personagem, contribuindo para suas composições.

A Sala Laranja” chegou aparentemente de maneira despretensiosa na cena teatral carioca, sem buscar levantar bandeiras ou emitir teses, mas que através de um agudo senso de humor e capacidade de observação, concebe um jogo cênico que clarifica a maneira como os pais resvalam na criação dos filhos todas suas mazelas interiores. Um espetáculo que permite sua absorção por diversas camadas e capaz de agradar os mais variados públicos.

 

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“A Sala Laranja: no Jardim de Infância”
Texto: Victoria Hladilo
Direção: Victor Garcia Peralta
Elenco: Renata Castro Barbosa, Isabel Cavalcanti, Priscilla Baer, Daniela Porfírio, Rafael Sieg e Robson Torinni.

FICHA TÉCNICA
Texto | Victoria Hladilo/ Direção | Victor Garcia Peralta / Elenco | Renata Castro Barbosa, Isabel Cavalcanti, Priscilla Baer, Daniela Porfírio, Rafael Sieg e Robson Torinni./ Tradução | Elisa Brites, Robson Torinni e Victor Garcia Peralta / Figurino | Luiza Fardin/ Cenário | Dina Salem Levy / Maquiagem |  Nani Gama


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