Crítica: A Serpente


 


a serpente 1

Por Renato Mello.

O novo teatro da cidade escolheu o mais contundente de nossos dramaturgos para sinalizar o espaço que pretende ocupar dentro da cena cultural carioca. O Theatro Nathalia Timberg inaugura assim sua sala II com “A Serpente”, o último texto escrito por Nelson Rodrigues, com direção assinada por Nadia Bambirra, cuja temporada oficial se iniciará em 12 de fevereiro e se estenderá até o dia 3 de abril

Como descreve a sinopse oficial desta montagem, “A Serpente” aborda as “relações entre dois casais que dividem um mesmo apartamento, expondo intimamente a vida das irmãs Guida(Maitê Piragibe) e Lígia(Laís Pinho) e de seus maridos. Após um ano de casados, Lígia e Décio(Bruno Daltro) ainda não consumaram a união e, por conta da impotência do marido, ela continua virgem. Frustrado, o casal separa-se, ficando Lígia desesperada a ponto de tentar o suicídio, quando é surpreendida por Guida que, na tentativa de salvar a irmã, acaba oferecendo a ela uma noite com seu próprio marido, Paulo(Tom Moreis)”.

Trata-se de uma tragédia em 1 ato para 5 personagens, resultando num dos textos mais concisos do dramaturgo, estruturado através de diálogos curtos, secos e que a partir da menção ao simbolismo de uma figura mitológica aflora toda a crueza do universo de Nelson Rodrigues, acompanhado de todos os elementos personalísticos de sua obra para desvendar um olhar muito particular da classe média carioca.

Como Nelson explicitou certa vez: “A classe média é formidável. Quando escrevo sobre ela, me debruço sobre ela nas minhas varandas, vejo como é humana, como é interessante. É classe que mata e se mata. Um grã-fino precisa de 25 mil estímulos para se matar. Só mata em último caso. A classe média tem mais heroísmo”. Para desvendar essa humanidade são apresentadas todas as fraquezas espirituais e de caráter daqueles seres que partilham o mesmo ambiente físico, extravasando ao longo de toda a narrativa uma erupção dos sentimentos ocultos para revelar toda a ambiguidade e complexidade que os atormenta, levando-os invariavelmente para os caminhos das traições, dos incestos e dos pactos de morte. Nada mais rodrigueano.

Rodrigo Turazzi (8)_baixa

A ambiguidade se expressa notoriamente desde o título, numa representação da figura da serpente, que pode no decorrer da leitura ser apreendida nas mais recônditas camadas que habitam nessa simbologia.

Nadia Bambirra criou 2 planos distintos, separados por 1 cortina, ao fundo representando o ambiente particular do casal Guida e Paulo, que é acrescido por um elemento estrangeiro que chega para desbalancear a aparente harmonia de um matrimônio plenamente consumado. Sua concepção cênica constrói corretamente uma atmosfera opressiva, tensa, com as janelas permanentemente abertas para o exacerbamento das paixões em que a inveja e o ciúme acabam sedimentando um caminho rumo à destruição.

Há que se destacar a boa construção da cena da consumação do ato entre os cunhados, com todos toda as intenções contidas no texto original, seja na movimentação, nos gestos, na altura das interpretações e os sentimentos ali impregnados. Algumas reticências em relação ao modo como desenha a movimentação cênica da Negra das Ventas Triunfais(Indira Nascimento), ficando seu personagem deslocado em cena. É necessário atentar para algumas características físicas do novo teatro, pois algumas cenas contundentes entre Décio e a Negra das Ventas Triunfais realizadas no piso, já fora da delimitação do palco, impedia inteiramente a visão de quem estava sentado a partir da 3ª fileira.

Rodrigo Turazzi (7)_baixa

As interpretações femininas demonstram superioridade ao desempenho masculino. Guida personifica à princípio a figura simbolizada no título, ao oferecer o próprio marido para curar as frustrações e objetivando aparentemente um efeito regenerativo na vida da irmã.  Maitê Piragibe desenvolve um perfil psicológico a partir da consumação do ato sexual da irmã com o marido, extravasando uma obsessão doentia e um prazer que beira às raias o masoquismo. A atriz conduz uma transição emocional construída através do corpo e do gestual que de uma altivez inicial vai desmanchando-se a partir do momento que começa a perder o controle de manipular a situação. À medida que as máscaras vão caindo, o pêndulo ambíguo que as irmãs personificam muda de direção quando a fortaleza emocional de Lígia começa a revelar-se por trás de uma aparente fragilidade, clarificando-se no momento em que induz o cunhado à extremos para em seguida negar-lhe a cumplicidade. Laís Pinho, transita corretamente por comportamentos tão diversos e por vezes antagônicos como o depressivo, eufórico, leviano e dissimulado.

Tom Moreis tem atuação regular como Paulo, presenteado à cunhada pela própria esposa e é manipulado pelos caprichos ocultos dos desejos femininos. Aceita e aproveita o jogo, sem a consciência de ser um mero peão de um tabuleiro de xadrez, chegando a enaltecer ingenuamente a ambiguidade contida na atitude “monstruosamente linda” da esposa. Tom Moreis utiliza-se da contenção de gestos ao mesmo tempo acerta na  busca da linguagem corporal.  Décio, interpretado por Bruno Daltro, é um personagem bastante complexo, representando o contraste entre a impotência diante da pureza virginal da esposa com a virilidade nos folguedos da Negra das Ventas Triunfais, essa última possibilitando-lhe a “cura” do seu mal, o que o leva a uma busca na intenção de defloramento da esposa como uma resposta ao seu fracasso. Bruno Daltro realizou uma atuação com uma eloquência acima do que seria necessário, com desequilíbrio no modo como procurou sua expressividade. Indira Nascimento teve sua atuação prejudicada pela forma como foi inserida no espaço cênico e na movimentação que lhe foi desenhada, além de uma certa caricatura na sua lascividade.

Na concepção de Nadia Bambirra insere-se a participação de Renan Peruschello, que ao longo da encenação pontua as cenas e a atmosfera através da sua bateria.

Importante contribuição dos figurinos criados por Alex Brollo para a composição dos personagens, com total adequação a cada característica, expresso com maior contundência nos vestuários utilizados por Maitê Piragibe e Laís Pinho. Ótimo trabalho!

A cenografia de José Dias utilizou o negro como tonalidade primordial, desde o fundo, passando pelas criação dos distintos espaços cenográficos. Iluminação correta de Rodrigo Turazzi, sem maiores acréscimos.

Uma boa estreia para a nova sala de teatro.

Rodrigo Turazzi (6)_baixa

Fotos: Rodrigo Turazzi

FICHA TÉCNICA
Texto: Nelson Rodrigues
Direção: Nadia Bambirra

Elenco: Bruno Daltro (Décio), Indira Nascimento (Negra das Ventas Triunfais), Laís Pinho (Lígia), Maytê Piragibe (Guida) e Tom Moreis (Paulo).

Iluminação: Rodrigo Turazzi
Supervisão de Iluminação: Ricardo Fujii
Cenografia: José Dias
Figurino: Alex Brollo
Direção musical e Composição: Renan Peruscello
Programação Visual: Fábio Nóbrega
Produção Executiva: Bruna Fachetti
Fotos: Ricardo Fujii Rodrigo Turazzi
Maquiagem e cabelo: Adriel Pires
Assistentes de Direção: Carolina Alfradique e Marilha Galla
Stand-ins: Carolina Alfrafique, Jeniffer Dias e Marilha Galla
Assessoria de Imprensa: Minas de Ideias

SERVIÇO
A Serpente
Estreia: 12 de fevereiro de 2016
Local: Teatro Nathalia Timberg (anexo à Escola de Atores Wolf Maya ) – Sala Nathalinha
Endereço: Avenida das Américas, 2000 – Freeway – Barra da Tijuca – Telefone: 3388-5864


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