Crítica: A Última Cápsula


 
Foto: Elisa Mendes

Foto: Elisa Mendes

Por Renato Mello

A Última Cápsula” é um exemplo de como a utilização de elementos do nonsense permite uma maior clareza na reflexão crítica. Cumprindo temporada no Teatro 1 do Sesc Tijuca, com atuação/direção de Ana Abott e Raquel Alvarenga, e codireção de Chia Rodrigues, o texto assinado por Clara Meirelles aprofunda uma série de questões da condição feminina contemporânea através justamente da projeção ficcional do seu futuro, em que formas de totalitarismo assumem aparências envolventes e a tecnologia se torna ferramenta do controle tanto comportamental, quanto emocional do quadro civilizatório.

A dramaturgia de Clara Meirelles conta a história de uma mulher moderna que envolta pelas típicas angústias do seu mundo, decide congelar os óvulos. Mas ao contratar a “prestação de serviço”, se deixa seduzir por uma promoção adicional, que lhe vende mais do que necessita. No futuro, inteiramente refém da tecnologia, percebe os equívocos de um sistema que não funciona para seus anseios.

Primeiro trabalho do grupo Vendaval Fulminante, o espetáculo se originou de uma pesquisa que gerou duas cenas curtas, apresentadas em diversos festivais. Desse processo de amplificação do texto, a curva dramática encontra um bom envergamento e a opção por evitar o prolongamento desnecessário é uma virtude a ser considerada, diria até mesmo que um exercício de síntese, pela amplitude de discussões expostas em cena, como a ditadura da beleza, o envelhecimento feminino, adiamento da gravidez, além de refletir questões comportamentais tão presentes em tempos atuais. Ainda assim há um ratear durante o percurso, refletindo numa ligeira oscilação do tempo narrativo do meio para o final da apresentação. A utilização do humor e da ironia potencializa o discurso, criando uma interessante dicotomia com o tom orwelliano do controle opressivo de uma tecnologia que privilegia o processo de uniformidade humana.

A proposta carrega especificidades em sua natureza que nos permite buscar próprias referências. As diretoras Ana Abott, Raquel Alvarenga e Chia Rodrigues  constroem uma atmosfera “futurista retrô”, que de início me remeteu a aspectos de “Barbarella”, um ícone do feminismo dos anos 60, mas posteriormente me vinham em mente elementos mais próximos ao universo criado por Woody Allen para “Sleeper”, até mesmo por aspectos de um humor que beirava o absurdo, mas também por uma visão clean e teoricamente asséptica do mundo. Outros elementos equilibram a fluência narrativa com a concepção cênica, como a instalação branca, com diversas portas paralelas, que ganham funcionalidade na dinâmica das diretoras e projeções de Maria Altberg. A trilha de Marcelo H também representa papel destacável nesse processo de criação, assim os figurinos de Desiree Bastos, que conjuntamente se encerram dentro do universo das diretoras.

Ana Abott e Raquel Alvarenga encontram sincronicidade em suas atuações não somente física, mas um mutualismo de funções, que permeia com integridade o equilíbrio harmônico, algo que nesse espetáculo é condição para permanência das linhas centrais da proposição, permitindo a identificação una de um trabalho de compartilhamento de sentimentos e emoções, em que ambas atingem equilibradas gradações nos tempos da angústia sob o humor emergindo tempestivamente, utilizando-se com expressividade também dos elementos corporais.

A Última Cápsula” é bem-sucedida na forma como evidencia todo um vazio existencial contemporâneo, se utilizando de sutileza e bom humor para propor sua crítica social.

 

Foto: Elisa Mendes

Foto: Elisa Mendes

FICHA TÉCNICA
Dramaturgia: Clara Meirelles
Colaboração dramatúrgica: Ana Abbott e Raquel Alvarenga
Direção e elenco: Ana Abbott e Raquel Alvarenga
Codireção: Chia Rodriguez
Supervisão artística: Alessandra Colasanti
Direção de arte: Raquel Alvarenga
Cenário e figurino: Desirée Bastos
Cenotécnico: Maranhão e Djavan
Adereços: Bidi Budjonski
Visagismo/Maquiagem: Diego Nardes
Assistente de Visagismo/cabelos: Lucas Souza
Iluminação: Lara Cunha
Trilha Sonora: Marcello H
Projeções: Maria Altberg
Fotos: Elisa Mendes
Assistência de fotografia: Juliana Chalita
Projeto gráfico: Raquel Alvarenga
Assessoria de imprensa: Daniella Cavalcanti
Produção executiva: André Roman e Raquel Alvarenga
Assistência de produção: Naomi Savage
Direção de produção: MS Arte & Cultura / Aline Mohamad
Idealização e realização: Vendaval Fulminante

SERVIÇO
Local: Teatro I – Sesc Tijuca (Rua Barão de Mesquita, 539 – Andaraí. Tel.: 3238-2139)
Horário: sextas, sábados e domingos, às 20h
Ingresso: R$30,00 (inteira) / 15,00 (meia)
Capacidade: 228 lugares
Duração: 70 minutos
Classificação: 14 anos
Bilheteria: de terça a sexta, das 7h às 20h30 | sábado, das 9h às 20h15| domingo, das 12h às 20h
Gênero: comédia de ficção científica

Temporada: de 15/03 a 07/04


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