Crítica: A Verdade


 
Foto: Dalton Valério

Foto: Dalton Valério

Por Renato Mello

O senso irônico pode ser medido pelo próprio título, em se tratando de um espetáculo que os personagens praticam inesgotavelmente a arte da mentira. “A Verdade” cumpre temporada no Teatro Maison de France, até o dia 26 de maio, sob direção de Marcus Alvisi.

La Verité”, no original, é uma tradução da obra do autor francês Florian Zeller, encenada inicialmente em 2011 no Théâtre Montparnasse, protagonizada à época por Pierre Arditi. O texto de Zeller apresenta virtudes que abrangem aspectos de contemporaneidade em suas linhas principais, sem perder de vista questões interessantes do bom teatro francês, com traços, ainda que sutis, de um vaudeville, mas sem aquele caráter leviano desse estilo e com uma interessante radiografia social. Quando menciono, ainda que com reservas, o vaudeville, se deve a um certo clichê de nossa parte de querer escaninhar todo o humor típico francês com essa nomenclatura, mas se entendermos o gênero como uma comédia ligeira, baseada na intriga e no equívoco, de certa forma há ali uma referência, assim como não é errado perceber elementos da obra de Guitry, porém mais tensionado e menos eloquente.

O espetáculo se constrói em 5 cenas, como um quebra-cabeças que quanto mais juntamos as peças, mais se diluem os resquícios da verdade, com um efeito prático justamente contrário, da desconstrução. Zeller nivela seus personagens dentro de um padrão amoral para abordar como as relações pessoais afetam a dinâmica conjugal, utilizando-se de dois casais que mentem consideravelmente para omitir seus pecados. O enredo evolui de forma divertida, desmascarando padrões comportamentais que gradativamente se esfacelam.

Marcus Alvisi tem êxito na sua direção pela forma como converge os propósitos do texto com uma concepção cênica que permite uma fluência não somente rítmica, mas sobretudo expondo aspectos psíquicos dos personagens, mesmo nos seus não ditos, mas expressos nas intenções de gestos. O cenário diposto(assinado por Ronald Teixeira e Guilherme Reis) é dividido em distintos ambientes, no qual se destaca uma cama de casal centralizada, aonde ocorrerá os elementos propulsores da cena, mas igualmente um consultório médico, uma sala, um pequeno vestiário, que não se chocam em cena, permitindo um compartilhamento das situações. Dentro dessa ambientação, Alvisi conduz seu elenco de forma que atinja as tonalidades exigidas nas disposições dramatúrgicas, guiadas pelo protagonista Michel, interpretado  por, Diogo Vilela,  que encontra um bom equilíbrio entre o humor e a angústia de um personagem egocêntrico, se escusando numa cômoda premissa de que a verdade é portadora das mágoas, portanto, a mentira é benevolente. Claudia Ventura impõe um aspecto enigmático para a esposa de Michel, cujas nuances interpostas acrescentam sabor aos diálogos travados com Vilela. Carolina Gonzalez, a amante, apresenta um matiz pouco acima do necessário, inclusive na emissão vocal. Paulo Trajano, o amigo traído, demonstra boa correção na forma como eleva a inquietação à ambientação.

Um dos autores mais profícuos, dentro de diferentes vertentes, nas artes francesas, Florian Zeller recebe em palcos brasileiros uma boa montagem da sua obra, num espetáculo que se utiliza de um humor, por vezes até nervoso, para aprofundar um retrato das nossas hipocrisias cotidianas.

Foto: Dalton Valério

Foto: Dalton Valério

Realização da NITIREN Produções Art., Cenário e Figurinos de Ronald Teixeira e Guilherme Reis, Luz de Maneco Quinderé, Caracterização Mona Magalhães, Fotos Dalton Valério, Produção Executiva Marco Aurélio Monteiro, e Direção de Produção de Marília Milanez,

SERVIÇO:
Espetáculo “A Verdade”
Local: Teatro Maison de France – 350 lugares
Av. Presidente Antônio Carlos, 58 – Centro – Rio de Janeiro.
Contato: 21 – 2544-2533
Estreia: 15 de março a 26 de maio
Quinta: 17h30min (R$ 80, e R$ 40)
Sexta e Sábado: 19h30min (R$ 90, e R$ 45)
Domingo: 18h30min (R$ 90, e R$ 45)
Duração: 80 min.
Classificação: 12 anos


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