Crítica: A Vida ao Lado


 

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Por Renato Mello

Um interessante retrato cotidiano de cidadãos comuns num momento de ruptura, “A Vida ao Lado”, escrito e dirigido por Cristina Fagundes, já caminhando para o encerramento de sua temporada no Teatro Serrador prevista até o dia 26 de maio.

A implosão de um prédio para a construção de um enorme e exótico aquário é o pano de fundo da observação comportamental da diversidade de tipos humanos num prédio cujo prazo para desapropriação se aproxima. O texto de Cristina Fagundes se alinha ao humor para dele extrair a dor, a solidão, a traição e os preconceitos, em que o fato determinante serve como um inconsciente elemento de propulsão para uma maior exteriorização de suas essências, encadeando situações que definem o caráter dos personagens, de algum modo contrariando uma tendência determinista da espécie humana ao se aproximar mais da visão sartriana em que o homem pode fazer sua história, não nas condições por ele escolhidas, mas sendo responsável por todos os seus atos por ser livre para decidir.

O espetáculo adquire uma boa dinâmica pela forma como a autora/diretora insere na sua concepção a permeabilidade de situações ao propor uma dinâmica sem artificialismos. Essa opção acresce bastante ao resultado por ações que se sucedem de modo circular, numa movimentação angulada de maneira retilínea. O bom desenho dos personagens cria pequenos universos que os acolhem, assim como a autora não necessita de mais que algumas pinceladas para clarear cada delineamento, abrindo mão de maiores caracterizações.

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A coesão do elenco formado por Alexandre Barros, Alexandre Varella, Ana Paula Novellino, Bia Guedes, Cristina Fagundes, Flavia Espírito Santo e Marcello Gonçalves é um dos pilares que sustenta o equilíbrio do espetáculo, ao mesmo tempo que não permite sua oscilação rítmica e encontra em pequenos detalhes a profundidade de tipos díspares que se alteram por gestos simples, como Bia Guedes que soltando ou prendendo o cabelo já clarifica a alteração do personagem que interpreta. O painel composto pelo texto de Cristina Fagundes apresenta um casal amoral, uma idosa solitária, um síndico pacato, o trio de namorados, uma senhora conservadora, o militante gay, a família de refugiados, a dupla apática e o universo infantil, representando nessa opção de personagens a diversidade dentro de um grupo social comum, aos quais podemos dar algum destaque adicional na consistente  atuação de Bia Guedes, principalmente na forma como expandia os momentos de humor; composições repletas de humanismo na forma como Alexandre Barros compõe seus personagens;  algo de singelo na criação de alguns tipos de Marcello Gonçalves; e numa maior contundência por Alexandre Varella, mas sem oporem-se a  um jogo coletivo eficiente por parte de todo o elenco.

Seguindo uma coerência com a concepção cênica da diretora, da cenografia de Alice Cruz e TucaBenvenutti, formando um emaranhado de tubos PVC que se ramificam pelo ambiente, inclusive como forma de objetos, pode-se extrair várias significações e analogias com as questões hidráulicas, vazantes e mesmo referente a iminência final do prédio, com funcionalidade bastante adequada para a formatação do espetáculo, assim como os figurinos assinados por Sol Azulay, com tons neutros, puxados para o cinza, conceituam uma extensão da percepção dos personagens sem a busca de um personalismo entre eles.

Certa vez, se referindo às janelas dos prédios de Copacabana, Antonio Maria escreveu que “cada edifício tem uma média de 50 janelas, três casos de adultério, cinco de amor avulso e solteiro, seis de casal sem bênção e dois entre cônjuges que se uniram, legalmente no padre e no juiz”. Há um pouco disso em “A Vida ao Lado”, percepção de vidas paralelas num mesmo espaço físico, mas aqui sob um momento limite.

Esperemos que “A Vida ao Lado” ganhe novas temporadas. Tem méritos artísticos, empatia e boa capacidade de comunicação.

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ELENCO:
Alexandre Barros, Alexandre Varella, Ana Paula Novellino, Bia Guedes, Cristina Fagundes, Flavia Espírito Santo e Marcello Gonçalves.

FICHA TÉCNICA:
Texto e direção: Cristina Fagundes
Diretor assistente: Fernando Melvin
Produção: Juliana Trimer e Cristina Fagundes
Iluminação: Aurélio De Simoni
Cenário: Alice Cruz e TucaBenvenutti
Figurino: Sol Azulay

SERVIÇO
A VIDA AO LADO – (COMÉDIA)

Duração: 1h30min
Temporada: 03 a 26 de maio de 2018
Local: Teatro Municipal Serrador
Endereço: Rua Senador Dantas – 13 / Centro
Telefone: (21) 2220-5033
Dias: Quintas / Sextas e Sábados, às 19h30min
Ingressos: R$40 (inteira) / R$ 20,00 (meia entrada)
Classificação: 14 anos.


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