Crítica: A Vida não é um Musical


 
Foto: Carol Pires

Foto: Carol Pires

Por Renato Mello

Última chamada para assistir um dos mais interessantes espetáculos da atual temporada, “A Vida não é um Musical”, encerrando sua estadia na arena do Sesc Copacabana no próximo dia 6 de maio.

Quando somos convidados para assistir um espetáculo pelas suas respectivas assessorias de imprensa, já carregamos uma predisposição do que aguardar, seja através de comentários de colegas de crítica, pela simples leitura do release, pela essência da proposta em si, e principalmente a expectativa(ou falta de) a partir da composição de sua ficha técnica. Se um espetáculo me causou uma surpresa em especial no ano de 2017 foi “Sucesso”, de Leandro Muniz, quando entrei no teatro sem a menor ideia do que veria e me deparei com um texto extremamente inteligente, uma montagem ágil, que me resultaram um imenso prazer. Portanto, me ressentia agora de uma ansiedade pelo seu novo trabalho, dirigido em parceria com João Fonseca. O resultado é muito bom.

Como aponta sua sinopse oficial, “satirizando o universo dos contos de fadas da Disney e o atual cenário político, ‘A Vida não é um musical’ apresenta Liz(Daniela Fontan), uma personagem criada em um vale encantado. Com um humor ágil e inteligente, o musical mostra as mais variadas situações que Liz enfrenta na cidade grande ao se deparar com a violência, a pobreza e outros problemas do mundo real”.

O texto de Leandro Muniz comete de antemão um pecado mortal para qualquer dramaturgia, “atirar” para vários lados simultaneamente, satirizando os contos de fada, o deteriorado cenário político com claras alusões a diversos personagens dessa fauna e as misérias de nossa realidade social, aludindo diversas referências, talvez nem todas necessariamente assimiladas, desde “La Casa de Papel”, “Ayrton Senna, o Musical”, nudez gratuita em teatro, melindres ao spoiler, entre outras mais. Os seus personagens funcionam como arquétipos, delineados propositalmente com largas tintas caricaturais, com os quais constrói uma conflagração irônica que brinca com o destoar de 2 universos opostos, sendo o Rio de Janeiro uma síntese do mundo cruel se contrapondo com a fuga da realidade dos contos de fadas, debochando da sua própria dramaturgia e mesmo com os ditames da estruturação narrativa. É necessário muita habilidade para que um espetáculo sobreviva a tantos caminhos, algo que normalmente os conduz a uma diluição esvaziada, mas é justamente em meio ao caos e ao frenesi sucessivo com as situações altercando uma as outras, que faz d’ “A Vida não é um Musical” algo tão vivo, dosando todos esses componentes, utilizado-os para posteriormente descarta-los sem o menor pudor em voltar a se abrir para novas situações, surpreendendo e divertindo com alguns momentos de puro nonsense, complementando dessa forma um ciclo interno muito particular, fazendo de si um produto híbrido.

A direção de Leandro Muniz e João Fonseca compassa com inteiro acerto o ritmo do texto com a dinâmica cênica, sem oscilações ou excessos desnecessários dentro de uma proposta que em sua própria essência já se debruça no alargamento das situações. Se utilizam com destreza as várias possibilidades que uma sala tão peculiar como a Arena do Sesc proporciona, permitindo a conflagração por distintas possibilidades físicas e surpreendendo pela maneira como constroem  situações e ambientações. Outro ponto destacável é a condução dos seus atores em cena, graduando todas as atuações num nível equânime e de elevada qualidade, sem percebermos qualquer tipo de destoar entre os atores e os diversos personagens que perpassam um universo tão peculiar nos limites de uma fantasia “absurda” e da realidade.

Daniela Fontan, interpretando a protagonista Liz, apresenta excelente atuação, plena na forma como se utiliza das ferramentas do humor, sem buscar caminhos simplificadores e fáceis, mas atuando pela leveza de gestos, movimentação e expressão corporal, alcançando pleno êxito em elevar os momentos mais divertidos do espetáculo. Thelmo Fernandes é aquele tipo de ator que tudo parece ser simples, quando sabemos que não é bem assim. Todo o grau de cinismo, sarcasmo e ironia que empresta ao seu vilão, o governador Sérgio Camargo, é atingido na forma como se utiliza com equilíbrio da sua técnica, podando exageros que poderiam ser tentadores, pelo modo como encontra na impostação e na expressividade o tom correto ao humor e vilania. Marcelo Nogueira passa uma agradável sensação como se estivesse permanentemente brincando em cena com um príncipe encantado que se mostra inteiramente apatetado, principalmente na falta de sintonia ao mundo real. Marcelo Nogueira  utiliza sua enorme capacidade vocal para nuances que acrescentam demais ao personagem, assim como compõe seu personagem com detalhes que ampliam todo um deslocamento do seu personagem entre o real e irreal. O elenco se complementa com Augusto Volcato, Ester Dias, Flora Menezes, Ingrid Gaigher, Joana Mendes, Nando Brandão e Udylê Procópio, todos, sem exceção com atuações de muito bom nível se equilibrando na defesa de vários personagens, com um destaque adicional para Augusto Volcato e Ingrid Gaigher e ressaltando a relevância da direção de movimentos e coreografias desenhadas por Carol Pires para o processo interpretativo do elenco e dentro de uma modulação que não soasse um artifício descolado da proposta.

Contribuem com fundamento ao êxito da proposta as músicas originais de Fabiano Krieger, permeando-se com absoluta naturalidade por dentro da dramaturgia e atuando como instrumento fluído para que a proposta amplie seu alcance. Dentro desse enquadramento, sua direção musical, em parceria com Gustavo Salgado, atua de modo harmônico com a altura narrativa do espetáculo.

Os figurinos de Carol Lobato contextualizados com os perfis dos personagens e as mais distintas solicitações narrativas, o cenário de Nello Marrese apresenta soluções práticas e que funcionam muito bem dentro da concepção cênica dos diretores, e a iluminação de Paulo Denizot acentua adequadamente as intenções e sentidos propostos.

A construção de uma dramaturgia nacional é uma pendência do teatro musical brasileiro, ressaltando que João Fonseca foi o diretor de uma dos mais bem-sucedidos projetos genuinamente brasileiros dos últimos tempos, “Bilac Vê Estrelas“. Escrevo isso sem detrimento aos clássicos importados, mas dentro de um quadro limitador composto por fórmulas biográficas(apesar do êxito artístico de algumas produções). É muito positivo que “A Vida Não é um Musical” traga uma proposta ousada e arriscada, com a plena consciência artística do caminho a percorrer.

Ficha Técnica:
AUTOR : Leandro Muniz
DIREÇÃO : João Fonseca e Leandro Muniz
DIREÇÃO MUSICAL Fabiano Krieger e Gustavo Salgado
MUSICAS ORIGINAIS: Fabiano Krieger
DIREÇÃO DE MOVIMENTO E COREOGRAFIAS: Carol Pires
FIGURINO : Carol Lobato
CENÁRIO : Nello Marrese
ILUMINAÇÃO: Paulo Denizot
DESIGN DE SOM: Rossini Maltoni
DESIGN GRAFICO : Pablito Kucarz
FOTOS: Carol Pires
VISAGISMO: Diego Nardes
ASSESSORIA DE IMPRENSA: Duetto Comunicação
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Junior Godim
PRODUÇÃO EXECUTIVA: Juliana Trimer
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO Nely Coelho
REALIZAÇÃO: Quase Companhia
IDEALIZAÇÃO: Leandro Muniz

ELENCO: Daniela Fontan, Thelmo Fernandes, Augusto Volcato, Ester Dias, Flora Menezes, Ingrid Gaigher, Joana Mendes, Marcelo Nogueira, Nando Brandão e Udylê Procópio

SERVIÇOS:
Espetáculo: A vida não é um musical – O musical
Duração: 1h45m
Classificação indicativa: 16 anos
Local: Teatro de Arena | Sesc Copacabana
Gênero: Musical
Apresentações: de 12/04/2018 a 06/05/2018
Horários: quintas, sextas e sábados, às 20h; domingos, às 19h
Ingressos: R$ 30,00 (inteira) | R$ 15,00 (meia-entrada) | R$ 7,50 (associado Sesc)
Lotação: 242 lugares


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