Crítica: A Visita da Velha Senhora


 

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Por Renato Mello

Segundo Nietzsche, a mulher é um “animal” que fere. Dá amor, mas arranha quando se sente ameaçado. É nesse momento que esse “animal”, em estado de vingança, “é mais bárbaro que o homem” e capaz de “passar a perna no destino” em busca do seu objetivo. A devastação que a vingança de uma mulher ferida pode provocar ganha personificações desde o mito de Medeia, que pelos relatos de Eurípedes, de todas as coisas que tem vida e razão, são as mulheres as mais desventuradas, validando os atos mais vis para justificar o mero desejo de ver o extermínio do adversário. Dentro desse contexto, Claire Zahanassian se inclui entre os mais notáveis personagens que o teatro do século XX produziu.

Claire Zahanassian se apresenta mais uma vez na cidade através da nova montagem d’ “A Visita da Velha Senhora”, em cartaz somente até o próximo dia 25 de março, no Sesc Ginástico, com direção de Luiz Villaça.

Escrita em 1956 pelo suíço Friedrich Dürrenmatt e traduzida por Christine Röhrig, “A Visita da Velha Senhora” tem como cenário a pequena Güllen, cidade arruinada em que os trens passam ao largo pela ausência de perspectiva que justifique uma parada. Distinta de décadas atrás quando sua economia girava em torno das fábricas locais e Claire Wäscher, então com 17 anos, vivia um romance com Alfred Krank, o homem por quem foi apaixonada na juventude, que a abandonou grávida por um casamento de interesse e responsável por deixar sob escorraço o vilarejo em que se criou. Retorna aos 62 anos, dona de uma fortuna incalculável e aguardada pela população local como única pessoa capaz de salvar a cidade da ruína. Mas para isso, haverá uma condição.

Um dos aspectos mais notáveis da narrativa de Dürrenmatt é como manipula 2 pêndulos sobre o conceito de justiça, seja por um entendimento que é um valor que legitima a maneira como algumas pessoas determinam a vida alheia ou mesmo de uma comunidade, criando uma cadeia de comando que justifica certas ações, julgando a extensão do crime e o que é imoral. Além desse senso avaliativo, estende a percepção da justiça como uma instituição, um centro de poder estabelecido e preservado pela sociedade para aplicar esses mesmos valores por ela escudados, defendendo a polícia, as leis e os tribunais, em que a fé pelas instituições dependem de valores morais, e caso esses mudem, as instituições que os mantém igualmente se modificarão. O texto investiga a fundação da justiça como um valor, e consequentemente, como instituição, levantando a questão de como formamos  julgamentos baseados justamente nessas instituições defendidas por nossas próprias conclusões. Se os habitantes de Güllen se enchem de otimismo vislumbrando o dinheiro que ganharão e querem crer na ilusão de que a situação será resolvida sem violência, ratifica moralmente o dinheiro prometido. Os habitantes não percebem isso conscientemente, acostumam-se com a ideia do crime, assim como se acostumam com o consumo de novos produtos. Diante dessa situação Krank pede ajuda da polícia, depois tenta buscar proteção sob o manto da política e finalmente da religião para tentar sobreviver, quando se dá conta que assiste a algo inevitável, uma sentença de morte porque a máquina foi iniciada e nada parece ser capaz de detê-la, embora contraditoriamente, todas as pessoas ao seu redor acreditem em valores. Dürrenmatt cinicamente expõe a implosão silenciosa das muralhas morais, esgueirando sua narrativa pela profundidade da consciência humana, com suas mentiras, cálculos, hipocrisias e egoísmos, retirando de seus personagens uma perspectiva humanista. Um microcosmo das relações sociais em que o poder do dinheiro toma o lugar das instituições e dos valores,  que somente Krank escapará da putrefação generalizada por conseguir dimensionar sua culpa, aceita-la, assim como sua punição.

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A direção de Luiz Villaça tem a capacidade de apropriação dos espaços cênicos, com marcações adequadas para um elenco numeroso, Propõe uma aproximação ao público, mas sem ser invasiva. Sua concepção teatral permite uma boa fluência da narrativa, assim como ritmiza as ações de modo a dar um bom andamento para o espetáculo. A concepção cênica se utiliza com apropriação a direção de arte funcional desenhada por Ronaldo Fraga, com uma grande estrutura móvel de 2 pavimentos. Mas entendo que sua principal virtude reside na direção de atores, impedindo um protagonismo mais exacerbado por parte dos personagens principais, equalizando e trazendo para dentro da representação muito boas interpretações do elenco coadjuvante, que no caso específico desse texto, tem uma importância no dimensionamento do substrato social proposto pelo autor.

rsz_1e82a1025Claire Zahanassian é um personagem desafiante para qualquer atriz pelas diferentes camadas que lhe revestem suas dicotomias interiores. Se simpática e bem-humorada, um monstro vingativo. Vítima de um ato odioso num passado já distante. O tempo não lhe ameniza os sentimentos extremos até que levem ao seu pedestal a cabeça do algoz de antes. Sentimentos e contextos muito bem explorados pela interpretação de Denise Fraga, sem permitir resquícios de maniqueísmo, encaixando as contradições da personalidade de Claire no seu vulto representativo. No original, o nome do personagem de Tuca Andrada se chamava Alfred Schill, que em alemão significa estrábico. Na transposição ao português por Christine Röhrig foi rebatizado como Alfred Krank, tradução para doente. Um ser medíocre, dentro de uma sociedade similar e com uma tomada de vida condizente com isso. Procurou no passado o caminho mais cômodo para seguir uma vida de insignificâncias, mas que diante da tacanhez de Güllen, ainda assim lhe permite aspirações à líder político da região. Tuca Andrada tem uma atuação bastante madura, sem cair em maneirismos desnecessários, perpetuando em cena aspectos interiores de um personagem que sua sentença acaba por se tornar a sua redenção.

Dürrenmatt disponibiliza sob sua dramaturgia os arquétipos sociais que possibilitam uma excelente investigação das bases sociais e isso fica muito nítido nas opções aos papeis coadjuvantes, como o prefeito, representando o poder político, no caso uma interpretação consistente de Fabio Herford; o professor como o símbolo dos valores éticos e morais, brilhantemente representado por Romis Ferreira; o pároco responsável pela autoridade religiosa e moral, Eduardo Estrela, no mesmo nível de atuação de Herford e Romis Ferreira; o policial que tem a função de manter a lei e a ordem, Renato Caldas; e o médico como o poder e influência da burguesia, vivido por Beto Matos. Vistos num contexto conjuntural, percebe-se os pilares que sustentam a falência de Güllen, antes financeiro, posteriormente moral.

O numeroso elenco se completa com Maristela Chelala, David Tayu Luiz Ramalho, Fernando Neves, Fábio Nassar e Rafael Faustino, todos, sem nenhuma exceção, com atuações acertadas.

Importante destacar igualmente alguns componentes técnicos, como os figurinos de Ronaldo Fraga, que trabalha apropriadamente as cores e formas na contextualização social de cada personagem.  A iluminação de Nadja Naira contribui na acentuação da dramática, contribuindo para um bom desenvolvimento da narrativa.

A Visita da Velha Senhora” é uma boa montagem de um excelente texto.  Num momento em que vivemos no nosso país uma insolvência dos valores éticos por uma sociedade entorpecida, o espetáculo nos traz uma oportunidade para refletirmos sobre valores, dos mais variáveis tipos.

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Ficha Técnica:
Autor: Friedrich Dürrenmatt
Stage rights by Diogenes Verlag AG Zürich
Tradução: Christine Röhrig
Adaptação: Christine Röhrig, Denise Fraga e Maristela Chelala
Direção Geral: Luiz Villaça
Direção de Produção: José Maria

Elenco: Denise Fraga, Tuca Andrada, Fábio Herford, Romis Ferreira, Eduardo Estrela, Maristela Chelala, Renato Caldas, Beto Matos, David Taiyu, Luiz Ramalho, Fernando Neves, Fábio Nassar e Rafael Faustino

Direção Musical: Dimi Kireeff
Trilha Sonora Original: Dimi Kireeff e Rafael Faustino
Desenho de Luz: Nadja Naira
Preparação Corporal e Coreografias Keila Bueno
Direção Vocal: Lucia Gayotto
Preparação Vocal: Andrea Drigo
Visagismo: Simone Batata
Fotografia: Cacá Bernardes
Assessoria de Imprensa RIO:  Barata Comunicações | Eduardo Barata
Assessoria de Imprensa SP: Morente Forte Comunicações
Projeto realizado através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.
Produção Original: SESI-SP | FIESP
Patrocínio Exclusivo: Bradesco
Realização: Sesc Rio de Janeiro, NIA Teatro, Ministério da Cultura e Governo Federal

A VISITA DA VELHA SENHORA
Teatro Sesc Ginástico
Av. Graça Aranha, 187, Centro
De 01o a 25 de março de 2018
De quinta a sábado às 19h, e domingo às 18h
Sessões extras dias 23 e 24 de março às 15h
Ingressos: R$ 30,00 (inteira) | R$ 15,00 (meia-entrada) | R$ 7,50 (associados Sesc)
Horário de funcionamento da bilheteria:de terça a domingo das 13h às 20h
Informações: (21) 2279-4027
Recomendação: 14 anos | Duração: 120 minutos | Gênero: Comédia Trágica


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