Crítica: A Visita da Velha Senhora


 

velha senhora 1

Por Renato Mello.

Quão devastadora pode ser a vingança de uma mulher humilhada? Eis um dos mais fascinantes arquétipos que a história, a mitologia, a literatura e o teatro produziram ao longo dos séculos. Desde o mito maior de Medeia essa personificação foi capaz dos mais vis e ferozes atos para satisfazer sua sede de ódio e rancor. Claire Zahanassian é sem dúvida um dos mais notáveis e fortes personagens vingativos que o teatro produziu no século XX e que pode ser visitada atualmente na peça “A Visita da Velha Senhora”, direção de Silvia Monte, em cartaz no Centro Cultural do Poder Judiciário, no Centro, numa generosa temporada(algo cada vez mais escasso) que se estenderá até o dia 29 de julho, com entrada franca.

Escrita em 1956 pelo suíço Friedrich Dürrrenmatt, a peça tem como cenário a pequena Güllen. Os trens passam ao largo pois a cidade pobre e falida não proporciona atração alguma que justifique uma parada. Bem diferente de décadas atrás, época em que Claire Wäscher, 17 anos, vivia um intenso amor com Alfred Schill, 20 anos. Grávida, Claire moveu ação de reconhecimento de paternidade contra Schill, que por sua vez produziu falsas testemunhas no julgamento, levando à condenação de Claire. Num dia frio de inverno, grávida, tremendo de frio e ódio, Claire é escorraçada sob o olhar impiedoso do povo de Güllen. No trem para Hamburgo promete que voltará para exigir justiça. Trabalhando num bordel, conhece e casa-se com o milionário Zahanassian, de quem herda a fortuna após seu falecimento. Aos 62 anos Claire Zahanassian retorna a sua cidade natal, acompanhada de sua entourage, uma pantera e um caixão. É aguardada ansiosamente por toda a população que enxerga em Claire a salvadora da situação de ruína que se encontra a cidade. Mas o que a população de Güillen ainda não sabe é que para salvar a cidade haverá uma condição.

O elenco formado por 12 atores encena o espetáculo no centro da sala num formato retangular, rodeado por poltrnas em que é acomodado o público, num tipo de representação muito próximo de um teatro de arena. Elementos cenográficos são poucos, algumas projeções, cadeiras no centro do palco e os atores quando não estão em cena ficam nas quinas da sala, local em que se localizam cabides utilizados na troca de figurinos.

A maneira como é conduzida a representação gera uma enorme proximidade com o público. Mas a mera questão física seria inócua e não passaria de um supérfluo se não houvesse uma boa solução para a proposta de concepção da diretora Silvia Monte. Além dessa aproximação, existe uma intensidade e pungência arrebatadoras, que fazem de “A Visita da Velha Senhora” uma experiência fascinante para o público durante as 2 horas em que é encenada. Silvia abre mão dos elementos de distração para focar sua encenação na força do texto e nas interpretações de um elenco coeso. Um trabalho de extrema solidez cênica, erigindo uma aldeota representando um ser coletivo pensante, que passa como um rolo compressor pelos escrúpulos, gerando ao público uma perplexidade com a decadência dos valores morais da pequena comunidade, no fundo um microcosmo de nossa sociedade.

“O mundo fez de mim uma puta, agora eu faço dele um bordel!”
Claire Zahanassian

Maria Adélia como Claire Zahanassian transborda de maneira pulsante toda a fúria da velha senhora em seu projeto de destruição. Vítima da hipocrisia de uma sociedade que volta a enfrentar 40 anos depois, porém agora numa condição hierárquica de grande superioridade, com um coração apodrecido em razão de um amor traído. Há em seu personagem uma altivez, um eterno pedestal, porém mesmo em momentos relativamente mais intimistas, quando existe a busca por alguma emoção, Maria Adélia jamais perde o pulso do personagem como no momento em que se encontra com seu grande amor, Shill(Marcos Árcher)na velha floresta de outrora, em que é perceptível a escapulida de algum sentimento de emoção, mas… já é tarde demais. A atuação de Maria Adélia é digna de todos os aplausos.

velha senhora 2

Marcos Árcher como Alfred Schill tem igualmente uma bela atuação. Seu personagem é a representação da mediocridade. Ele é o elemento símbolo da sociedade: covarde e hipócrita. Agora é vítima desses adjetivos de seus concidadãos gananciosos que mesmo sem admitir querem sua morte. Incialmente uma figura respeitável e impoluta aos olhos de todos, um nome ideal para assumir a prefeitura num futuro próximo, mas a partir do momento que o interesse contrário da coletividade lhe bate as portas, seu personagem fica nu diante dos olhos de todos. A angústia a qual é tomado seu personagem é realizado com extrema delicadeza e num belo trabalho de representação.

Rogério Freitas representa o poder político na figura do prefeito da cidade, que como é inerente ao cargo tem seu interesse diretamente ligado a direção dos ventos. Atuação perfeita de Rogério, no tom correto e sem cair no estereotipo fácil para esse tipo de caráter, sabendo dosar com perfeição as ações do personagem.

Além do poder político representado pelo prefeito, mais 4 vetores da sociedade estão representados no texto: o professor(Eduardo Rieche) é o símbolo da construção dos valores éticos da sociedade, o pároco(Paulo Japyassú) é o responsável pela autoridade religiosa e moral, o policial(Savio Moll) é a autoridade responsável pela manutenção da lei e da ordem e o médico(Pedro Lamim) é o poder da burguesia. Além de Laura Nielsen, Renato Peres, André Frazzi, Anita Terrana e Pedro Messina que representam diversos papeis ao longo do espetáculo, juntos conseguem demonstrar de maneira visível o poder da massa e o quanto o ser humano pode ser perigoso e covarde escondido no meio da coletividade. A atuação do elenco como um todo é de um equilíbrio muito bem conduzido pela diretora Silvia Monte, com uma homogeneidade e correção nas atuações e nos vários tipos representados.

Necessário destacar o ótimo trabalho de iluminação de Elisa Tandeta, funcionando de maneira perfeita ao que pede a proposta, acrescentando bastante à atmosfera do espetáculo. O figurino de Pedro Sayad também tem que ser ressaltado pela adequação e qualidade.

A Visita da Velha Senhora” é uma bela montagem de um texto extremamente representativo e que agradará inteiramente quem gosta de um teatro puro em sua essência, criativo e com grandes atuações.

velha senhora 3

Fotos: Marcelo Carnaval.

FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA
Texto: Friedrich Dürrematt
Tradução: Mário da Silva
Direção: Silvia Monte
Direção Musical: Marcelo Coutinho
Cenografia: José Dias
Figurinos: Pedro Sayad
Iluminação: Elisa Tandeta
Direção de Produção: Renata Blasi e Ana Paula Abreu

REALIZAÇÃO
Centro Cultural do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro
Diretoria-Geral de Comunicação e Difusão do Conhecimento
Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro

SERVIÇO
A Visita da Velha Senhora
De: Friedrich Dürrenmatt
Direção: Sílvia Monte
Elenco: Maria Adélia, Marcos Ácher, Rogério Freitas, Eduardo Rieche,
Paulo Japyassú, Sávio Moll, Laura Nielsen, Renato Peres,
André Frazzi, Anita Terrana, Pedro Lamim, Pedro Messina
Sessões: de 2ª e 4ª feira às 19hs
Local: Centro Cultural do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro
Antigo Palácio da Justiça – Sala Multiuso
Endereço: Rua Dom Manuel, 29, Centro, Térreo – Rio de Janeiro – RJ
Site: http://portaltj.tjrj.jus.br/web/guest/institucional/centrocultural
Telefones para informações: (21) 3133-3366/ 3133-3368
E-mail: ccpjrio@tjrj.jus.br
Capacidade: 52 lugares
Duração do espetáculo: 120 minutos/ com intervalo de 15 minutos
Recomendação etária: 14 anos
Entrada Franca com distribuição de senhas às 18h30


Palpites para este texto:

  1. Elisabeth D'Albuquerque Pereira -

    Sempre muito Bom!!!!!
    SUCESSO SUCESSIVO SEMPRE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  2. Eu já começo gostando do texto de “The Visit”. Seja na ribalta ou na telona c/Ingrid Bergman e Anthony Quiin. Gosto das personas pulando miudinho para negociarem com a rica ‘Dame’ e o seu cultivado desejo de vingança, amadurecido por 40 anos (carga intensa) e finalmente prestes a ser realizada, em função do seu $$$ e circunstâncias. Eu não precisava ser ‘seduzida’, porém sua crítica tornou a peça imperdível e por isso te agradeço.

  3. Boa Sorte!

  4. Caro Renato, tive a oportunidade de assistir a peça no mesmo dia em que você. A iluminação, a construção cênica da floresta que vivenciou o amor de Claire Zahanassian, com o som dos pássaros emitidos pelos próprios atores, teve um efeito encantador. A atriz Maria Adélia dispensa comentários ao nos transmitir através da personagem, o quanto ontem e hoje, podemos nos permitir perder o melhor da vida, na busca de uma vingança ineficaz. A visita da Velha Senhora deve nos ensinar a vivermos o melhor da vida e agradecer aos que passam por ela, nos deixando um mal legado, por que eles foram sinalizadores, de que devemos deixá-los passar e buscar o que a vida sempre nos trará de melhor. Texto lindo, atores engajados, sinônimo de bom teatro. Parabéns a todos!!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Calendário de postagens

novembro 2017
D S T Q Q S S
« out    
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930