Crítica: Abajur Lilás


 

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Por Renato Mello.

Com a banalidade que nos acostumamos a absorver as informações mais extremas de nossos tempos, bate uma sensação de que tudo já vimos, sentindo-nos anestesiados num mundo de absurdos que nos rodeiam. Parece que nada mais nos impacta. Para quem lida com a expressão artística torna-se hoje em dia algo cada vez mais inatingível despertar numa plateia algum tipo de reação mais extremada. Alguns criadores tentam numa busca insana impor essa sensação, normalmente pela força bruta que termina em exageros empobrecidos que se esvaem pelos ralos ridículos do esgoto.

Chega a ser irônico que, quando já nos encaminhamos para a parte final do ano, um texto de amplo conhecimento e escrito no já longínquo 1969 tenha despertado em mim esse tal “impacto”. “Abajur Lilás”, peça de autoria de Plínio Marcos e montagem dirigida por Renato Carrera, que neste fim de semana termina sua temporada no Sesc Tijuca, foi a responsável por permitir-me deixar o entorpecimento através dos caminhos percorridos para atingir uma enorme vitalidade para um texto de grande densidade e profundidade.

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Manifesto – 1975

Escrita no auge da Ditadura Militar, “Abajur Lilás” acabou se tornando uma bandeira da luta contra a censura. Sua primeira (tentativa de) montagem ocorreu em 1969 com um elenco formado por Paulo Goulart, Nicete Bruno e Walderez de Barros no elenco. Antes da estreia recebeu seu selo de proibição por um período de 5 anos. Em 1975, sob a direção de Antônio Abujamra e tendo no elenco Lima Duarte, Walderez de Barros, Cacilda Lanuza e Ariclê Perez foi mais uma vez interditada, dessa vez no dia do seu ensaio geral. Tal proibição desencadeou um manifesto contra os absurdos praticados no teatro brasileiro pela censura institucional e que passou a ser lido em todos os teatros antes de seus respectivos espetáculos:

“…Nossas esperanças, porém, estão se diluindo no encontro com a realidade…”Rasga Coração”, de Oduvaldo Viana Filho, está proibida. O número de cortes efetuados na peça “Um Elefante no Caos”, de Millor Fernandes, fez que seus produtores desistissem de apresenta-la, tão desfigurada ela ficou com os cortes que lhe foram impostos. E agora nos chega a notícia da proibição da peça “Abajur Lilás”, de Plínio Marcos….O público compreenderá o quanto se exige de esforço e de recursos financeiros aplicados na produção de um espetáculo teatral. No caso específico da peça de Plínio Marcos, além de um autor importante ser impedido de se expressar, tal proibição também coloca repentinamente no desemprego aqueles nossos colegas que estavam envolvidos nesse projeto, já que estava tudo pronto para ser estreado...”

Finalmente em 1980, ainda sob as asas do Regime Militar, mas em seu processo de abertura “lenta, gradual e segura”, a peça teve sua estreia, com direção de Fauzi Arap e com Walderez de Barros no elenco.

Isso tudo é história. Do nosso país, do nosso teatro.

Voltando aos tempos atuais:

Segundo a sinopse oficial da atual montagem, “conta a história das prostitutas Dilma (Andreza Bittencourt), Célia (Larissa Siqueira) e a recém-chegada Leninha (Laura Nielsen). As três vivem confinadas num cubículo onde são arrendadas pelo cafetão Giro (Éber Inácio), que vive acompanhado pelo segurança Osvaldo (Higor Campagnaro), na verdade um sádico torturador. Dilma é uma mulher sofrida e só aceita as condições desumanas em que vive por causa do filho que precisa sustentar. Célia, revoltada e explosiva, bebe todos os dias e quase não rende na noite. A chegada de Leninha deflagra o conflito entre elas. Célia não aguenta a pressão e as ameaças de Osvaldo, e propõe um plano para Dilma e Leninha: matar Giro e ficar com o prostíbulo, sem cafetão e sem Osvaldo. Mas as coisas não saem como o planejado”.

Adaptar Plínio Marcos será sempre um desafio, uma busca constante para não somente conseguir absorver toda complexidade de seu universo autoral e a força de seus personagens, como encontrar a tonalidade adequada para que a qualidade dramatúrgica embutida em seu universo marginalizado não seja esvaziado e nem tampouco optar por um extravasamento aberrante, como muitas vezes ocorre. O texto de Plínio Marcos realiza um delineamento de três distintos momentos no transcurso de sua história. Inicia com uma apresentação de todo um contexto de ampla degradação física e moral, posteriormente há o desencadear da revolta e ao fim, a chegada de um novo elemento que acena com a possibilidade de que a realidade pode melhorar. São personagens repletos de humanidade que mesmo no mais baixo nível da condição humana conseguem manter-se arraigados com seus valores e códigos morais. Apesar de não ser datada, Plínio Marcos através desse microcosmo particular consegue criar uma grande metáfora através de uma série de personagens que são arquétipos muito bem marcados dos tempos revoltos que o Brasil vivia no período em que escreveu “Abajur Lilás”. Um contexto muito específico, mas de grande universalidade.

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Renato Carrera tem a consciência da necessidade de conceituar sua montagem no correto equilíbrio, absorvendo toda a contundência do texto para gradualmente desenvolver uma sensação de sufocamento através de cenas desenhadas como um quadro expressivo do grito emanado das entranhas dessas pobres almas humanas perdidas no mundo.

A perfeição dessa dramaturgia e a simetria dos seus diálogos necessitam de uma atuação conjunta com uma intensidade uníssona. Qualquer desequilíbrio por parte de um único elemento é o suficiente para jogar toda a proposta para um fracasso contundente. Portanto, há que se elogiar a direção de atores de Renato Carrera que compôs com seu elenco uma atmosfera de perfeita fluência para que a engrenagem dramatúrgica fluísse sem artificialismos. O elenco formado por Andreza Bittencourt, Eber Inácio, Higor Campagnaro, Larissa Siqueira e Laura Nielsen realiza em específicos contextos atuações de pungência e arrebatamento, com um trabalho corporal de alto nível técnico(méritos para a preparação corporal de Felipe Koury), que os leva a alcançar a adequação no extravasamento de sentimentos tão avassaladores. Há acima de tudo por parte do elenco uma entrega comovente, abrindo mão de qualquer vestígio de pudor na busca da verdadeira dimensão da complexidade aterradora de seus personagens.

Eber Inácio interpreta o cafetão homossexual Giro. Passou grande parte da sua vida marginalizado pela sociedade e a partir do momento que ascende economicamente despeja seu pote de amargura sobre aqueles que ele detém o total controle de vida. Representa a parte de comando da cadeia de um sistema perverso. Eber Inácio defende uma atuação que desperta um sentimento de horror imediato por seu personagem pela forma intensa com que se desenvolve em cena, utilizando com enorme qualidade todos os instrumentos que um ator é capaz para se exprimir num palco.  Uma atuação perturbadora…e absoluta! Andreza Bittencourt através de gestos e um olhar petrificado transmite a total imobilidade diante do terror, se agarrando na criação do filho como a única possibilidade de sair do inferno. Uma visceralidade desesperadora resultando numa ótima atuação! Larissa Siqueira representa com a força necessária todo sentimento de revolta de seu personagem, que apesar do medo,  desafia o poder constituído. Age mais por instinto que consciência e se afoga na bebida para se desviar das desgraças de sua vida. Laura Nielsen interpreta Leninha, que acredita numa boa conversa como o suficiente para reverter a adversidade. Um arquétipo da alienação num mundo que mesmo assim não a poupa do espiral de violência que lhe sombreia. Laura Nielsen exprime uma pulsante atuação, com uma contundente presença cênica em que é possível decifrar toda a dissimulação de seu personagem. Higor Campagnaro tem a difícil tarefa de exprimir um ser que não demonstra nenhum traço de sensibilidade e que no texto possui poucas falas, mas tem uma missão a cumprir dentro daquele universo, exigindo uma atuação corporal com a qual o ator consegue se impor, representando a mão necessária do executor para manter a força compressora do sistema através do pavor que desperta.

Para que “Abajur Lilás” se consolidasse como um dos grandes espetáculos da atual temporada, a composição dos demais elementos técnicos teve um papel primordial nas tintas impressas pela montagem de Renato Carrera.

A cenografia de André Sanchez com telhas delimitando o espaço físico do quarto e uma cama de ferro, que juntamente com o excelente desenho de luz de Renato Machado acertam para a perfeita ambientação do universo degradante desenhado por Plínio Marcos e tão bem exposto pelo diretor. A cenografia em determinados momentos parece ganhar vida e contribui decisivamente para o sentimento de estrangulamento que toma conta da ambientação.

O figurino de Flavio de Souza encontra igualmente a adequação necessária para a composição estética do mundo representado, assim como tem importante destaque na contribuição para o desenvolvimento dos personagens.

Após 46 anos, “Abajur Lilás” mantém-se ainda com essa grande capacidade de “impactar”, retratando seres humanos vivendo na mais completa exclusão e em nenhum momento acena com alguma possibilidade de esperança por um futuro menos indigno.

Fotos: Dalton Valerio

FICHA TÉCNICA
Texto: Plínio Marcos
Direção: Renato Carrera
Assistente de Direção: Joana Cabral
Elenco: Andreza Bittencourt, Laura Nielsen, Larissa Siqueira, Higor Campagnaro e Eber Inácio
Iluminação: Renato Machado
Direção musical: Alexandre Elias
Cenário: André Sanches
Assistente de cenografia: Débora Cancio
Figurino: Flavio Souza
Preparação Corporal: Felipe Koury
Designer Gráfico: Mario Alberto
Idealização: Andreza Bittencourt e Renato Carrera
Produção: Conexão Center e Consultoria LTDA e VIL CIA.
Realização: SESC Rio, Conexão Center e Consultoria LTDA e VIL CIA.
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany


Palpites para este texto:

  1. REGINA CAVALCANTI -

    Super arrependida por não ter visto, torcendo para que volte!!!!Não vou perder!!

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