Crítica: Acabou o Pó!


 

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Por Renato Mello.

IMG_1412Logo no abrir da porta do Teatro Cândido Mendes já nos deparamos com uma mesa amarela de gosto e qualidade duvidosos, repleta de objetos como cafeteira, rádio, copos, esmaltes, acetona,  garrafa d’água, pote de biscoito maizena. Para chegar às poltronas atravessamos o palco, cruzamos no meio com um homem varrendo o chão. Descalço, trajando short e camiseta enquanto uma onda sonora tipicamente AM vai emitindo as melodias de uma dor de cotovelo: “Quantos anos já vividos, revividos, simplesmente por viver\Quantos erros cometidos tantas vezes, repetidos por nós dois\Quantas lágrimas sentidas e choradas\Quase sempre às escondidas, pra nenhum dos dois saber…” Minha distraída e desavisada acompanhante cochicha no meu ouvido: “Só agora que estão limpando o teatro?”, até que cai na realidade para perceber que na verdade o espetáculo de alguma maneira já está sendo encenado. O tal homem, sai de cena para segundos depois retornar com seu corpo e cabeça envoltos com toalhas de banho. O tom da música aumenta com o refrão da velha canção de Márcio Greyck entoando: “Aparências, nada mais\Sustentaram nossas vidas\Que apesar de mal vividas têm ainda\Uma esperança de poder viver”.

Com essa introdução, o texto de Daniel Porto já nos dá a dimensão exata do universo que vai retratar nos próximos  minutos. Talvez estejamos numa daquelas “casas tristes com cadeiras na calçada\ e na fachada escrita em cima que é um lar\Pela varanda, flores tristes e baldias\Como a alegria que não tem onde encostar”. Ou talvez num daqueles conjuntos habitacionais ainda do tempo do BNH. O que não resta dúvida é que estamos num típico subúrbio carioca. É nessa geografia suburbana que “Acabou o Pó!” nos apresenta seus 2 personagens: Nena e Kelly, vividas por Leo Campos e Alexandre Lino respectivamente.

No início ainda temos um certo estranhamento para tentar entender de fato quem são aqueles 2 seres sentados na mesa falando sobre filhos, homens, dores, preocupações, futilidades, angústias e lógico, da vida alheia. Mas à medida que o espetáculo vai se desenvolvendo, com um texto saborosíssimo e deliciosas atuações vamos nos desapegando de pequenos detalhes que vão se tornando cada vez mais insignificantes, tipo….que o sexo dos atores não corresponde necessariamente ao dos personagens.

Acabou o Pó!”, que acabou de estrar no Teatro Cândido Mendes, em Ipanema, consegue a proeza de estar simultaneamente em cartaz tanto na Zona Sul quanto na Zona Norte(Teatro Miguel Falabella às terças-feiras) do Rio. É uma rasgada e competente comédia dirigida por Vilma Melo, em mais um texto escrito por Daniel Porto, que vai se firmando como uma das gratas revelações do atual cenário teatral carioca, depois da elogiada montagem de “O Pastor”(que em breve voltará a entrar em cartaz).

“’Acabou o Pó!são falas simples de duas donas de casa. Também gosto de algo mais descompromissado.  O único compromisso é com o riso’’, declarou o autor. A declaração soa modesta após assistirmos o espetáculo. Claro que seu compromisso com o riso é cumprido e consegue arrancar gargalhadas da plateia do início ao fim da apresentação. Mas é acima de tudo um interessante trabalho de observação ao retratar com bastante leveza e humor 2 tipos que temos a plena sensação que já o conhecemos de nossas vidas pessoais. Acaba fazendo uma interessante radiografia social de uma camada da sociedade que, se mora longe de nós, os “pensantes” frequentadores de teatro da classe média, está muito mais perto do que podemos supor, com suas necessidades, costumes e moral muito particular. Daniel Porto acabou por produzir com esse universo social, um texto com diálogos afiados e ágeis, que são disparados como uma metralhadora e sem deixar tempo para o espectador se recuperar da risada do diálogo anterior.

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É fundamental para dar credibilidade à proposta de Daniel Porto e da diretora Vilma Melo, as atuações de Alexandre Lino e Leo Campos. Os atores formam em cena uma dupla que dão um ritmo perfeito ao texto de Daniel, não desperdiçando nenhuma sentença ou “absurdo” contidos nos diálogos. Os atores conseguem descontruir para recriar 2 donas de casa extremamente humanas, com suas amarguras e sofrimentos. A modulação da voz, a expressão corporal, os trejeitos, todos os elementos são usados com enorme competência por Alexandre e Leo, que além de enorme talento, possuem um carisma e domínio de cena raríssimos de se encontrar, realçando com viva graça cada palavra do texto que interpretam.

A direção de Vilma Melo consegue explorar com grande competência o potencial dos atores e do texto que tem nas mãos. Tem consciência da força desses 2 elementos e foca toda sua criação nesses aspectos, sabendo exatamente aonde quer chegar. Sua direção de atores é o ponto forte, responsável por conduzir Alexandre Lino e Leo Campos às ótimas atuações em cena.

Acabou o Pó” consegue ser um interessantíssimo retrato do cotidiano da periferia de qualquer metrópole brasileira, sem que seja necessário abrir mão das gargalhadas em prol de uma reflexão sociológica. Reflexão e riso podem caminhar juntos, afinal essa é uma das principais funções da comédia e quando se consegue o êxito nessa junção, percebemos o quão é importante o teatro para uma maior compreensão do mundo que nos cerca.

 Quanto a mim, saí do teatro e entrei no primeiro supermercado com um desejo insaciável de comer biscoito maizena com um litrão de Mineirinho.

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Acabou o pó-By Janderson Pires-0027* Fotos de cena: Janderson Pires.

SERVIÇO:
Espetáculo: Acabou o Pó
Texto: Daniel Porto
Direção: Vilma Melo
Elenco: Alexandre Lino (personagem Kelly) e Leo Campos (personagem Nena)

Estreia: 05 de novembro  – quarta as 21h
Temporada até 11 de dezembro – todas as quartas e quintas às 21h
Local: Teatro Candido Mendes, Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema
Telefone: (21) 2523-3663
Duração: 50  minutos
Gênero: comédia
Capacidade:  110 lugares
Classificação Etária: 12 anos
Assessoria de Imprensa – Gabriela Mota

 


Palpites para este texto:

  1. Assisti no Miguel Falabella, fazia tempo que não ria tanto assistindo uma peça!!! MUITO BOM!!!!

  2. Amei, simplesmente maravilhosa a peça.Vale muito a pena ver a peça.

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