Crítica: Adubo


 
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Foto: Gabi Castro

Por Renato Mello

Me recordo da primeira vez que vi Vinicius Teixeira num palco de teatro como o Candelabro d’ “A Bela e a Fera”, seguido pelo Espantalho d’“O Mágico de Oz” nas matinês do teatro infantil. De algum modo deixou uma marca em minhas memórias. Passaram-se cerca de 4 anos e nesse tempo consolidou-se como ator, em especial no teatro musical com “The Book of Mormon” e “Gabriela – Um Musical”. Vejo com satisfação toda uma linha evolutiva que percorreu culminando agora com seu primeiro espetáculo solo, “Adubo”, que cumpre temporada na Sede das Cias até 30 de outubro.

Adubo” parte de um projeto pessoal, desenvolvido por Vinicius Teixeira em conjunto com a direção de Juliana Linhares, em que se propõem a um salto na escuridão sem saber de antemão se o que os espera é uma rede ou um despenhadeiro sem fim, em função do flerte permanente com o risco. Trata-se acima de tudo de uma proposta corajosa e com linhas arrojadas.

Segundo suas declarações de propósitos, busca discutir a partir de vários personagens a finitude do corpo e a angústia que lhes passa tomar conta ao entrar em contato com a inevitabilidade da morte.

O monólogo é um formato de expressão narrativa muito caprichoso dentro das artes cênicas, em que a simbiose entre ator e diretor necessita alçar uma plenitude intensa, uma construção em que comando, corpo e voz se fundem em busca de um entrelaçamento que se não alcançado, tomba por terra todas as boas intenções. Esse é sem dúvida um dos maiores méritos de “Adubo”. Embora o texto assinado por Juliana Linhares,Vinicius Teixeira, Caio Riscado e Tomas Braúne se mantenha com algumas linhas herméticas e determinadas significações não ficarem inteiramente claras, a interação cênica entre a direção de Juliana Linhares, que amplia as possibilidades narrativas, e a interpretação de Vinicius Teixeira  que possibilita o espetáculo a alcançar zonas de sensibilidades aprofundadas, numa atuação comovente por parte do ator, se expressando com bastante eficiência através da linguagem corporal e acima de tudo pela técnica vocal de uma maneira que não se limita a uma variação da modulação de voz para vivenciar diferentes personagens, mas na exteriorização de vozes que parecem emergir de seu âmago, encontrando para cada  uma delas  expressividades e embocaduras próprias.

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Foto: Gabi Castro

Necessário destacar a participação nesse processo de Eduardo Rios e Natasha Jascalevich pela contribuição na ótima preparação corporal demonstrada por Vinicius Teixeira e também sua dramaturgia do movimento.

Componentes igualmente relevantes para propiciar uma ambientação que propagasse as ideias centrais da proposta são a excelente iluminação de Paulo César Medeiros, criando toda uma atmosfera sombria, que por vezes mais sugere a intenção cênica do que revela; os cenários compostos por Cris de Lamare exploram a profundidade de palco da Sede das Cias e  possibilitam a Vinicius Teixeira  trabalhar sensorialmente distintas camadas dramatúrgicas; e a direção musical de Beto Lemos que compõe todo um espaço narrativo no aprofundamento da ambientação.

Adubo” não é uma proposta palatável para todos os públicos, é preciso ao espectador permitir-se à abertura dos canais emocionais para, como afirma a própria diretora Juliana Linhares, “saudar a terra”, “senti-la” e “adubá-la com esperança”. Dessa forma conseguirá revolver dentro de si profundas questões existenciais. Por fim, importante mencionar  prazer de ver  um ator  tão jovem, mas tão maduro em cena.

Foto: Gabi Castro

Foto: Gabi Castro


Palpites para este texto:

  1. Regina Cavalcanti -

    Amei ADUBO e sua crítica ! Parabéns duplo!

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